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Manaus de Copas: Em 1958, os brasileiros vibraram pela conquista da taça do Mundo

O Brasil e Manaus viveram momentos históricos em 1958. O surgimento do craque Pelé e a morte do Papa Pio XII são um dos destaques desta edição 11/03/2014 às 12:25
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Gesto de Bellini viraria marca registrada dos campeõesEm 1958 Manaus antiga se preparando para novos tempos
Leanderson Lima ---

Vinte e nove de junho de 1958, Raasunda Stadion, Estocolmo, final da Copa do Mundo. Diante de um público de mais de 50 mil pessoas o sueco Nils Liedholm abre o marcador contra o Brasil aos quatro minutos do primeiro tempo. Foi como se todo aquele pesadelo vivido em 1950 viesse à tona novamente. O Brasil terminaria novamente como vice-campeão? Estaríamos fadados a ostentar para sempre a nossa síndrome de cachorro vira-latas como descreveu o genial cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues? Enquanto todas essas perguntas surgiam na cabeça dos jogadores, o craque Didi pegava a bola no fundo do gol e caminhava lentamente para o centro do gramado.

Os jogadores da Seleção Brasileira gritavam: “Vamos Didi, nós estamos perdendo”. Ele pedia calma aos jogadores. “Nós vamos ganhar”, sentenciou. E o “Príncipe Etíope” estava certo.

Aos nove minutos Vavá deixou tudo igual e virou para cima dos donos da casa aos 32 minutos do primeiro tempo.

Um menino negro, de 17 anos, chamado Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, entraria para história como o mais jovem atleta a marcar um gol numa final de Copa do Mundo.

E não foi um gol qualquer. Depois de dar um lençol no zagueiro, Pelé chutou no canto do goleiro sem deixar a bola cair no chão: 3 a 1.

Zagallo ampliaria o placar aos 23 minutos do segundo tempo: 4 a 1. A Suécia ainda marcaria mais um gol com Simonsson. Parou por aí, para os suecos, é claro. Aos 45 minutos, Pelé marcaria mais um gol, desta vez de cabeça. A emoção foi tanta que o menino desmaiou. Não dava para segurar tanta felicidade.

O time que ainda tinha o genial Garrincha, finalmente colocou na boca do povo o grito de campeão. A festa tomou conta do Brasil. Lágrimas. A taça do mundo finalmente era nossa.

Apoteose no Rio de Janeiro. Festa para receber os campeões do mundo. A cidade parou. Carnaval. O presidente Juscelino Kubitschek recebe o esquadrão canarinho. O fundador do Jornal A CRÍTICA, Umberto Calderaro Filho estava lá e com o presidente do Brasil.

Carnaval

Em Manaus a apoteose pela conquista da Taça Jules Rimet não foi diferente. Cada detalhe do torneio na Suécia foi acompanhado pela torcida local que inclusive teve acesso a uma entrevista com a Enciclopédia do Futebol, Nilton Santos, publicada em A CRÍTICA. O lateral-esquerdo fez parte da conquista e contou como foi. A reportagem fez tanto sucesso que teve diversos capítulos.

Na Manaus de 1958 os cinemas anunciavam a película “O Gigante”, o último “filme completo” de James Dean. Digamos que chegou um pouco atrasado já que Dean morrera em um acidente de carro quatro anos antes.

Na seara religiosa, a cidade ganhava um novo arcebispo, Dom João de Souza Lima. O jornalista esportivo Carlos Zamith comandava a coluna “Retalhos Esportivos”. O esporte da moda era o tênis de mesa e Gilberto Mestrinho, então prefeito de Manaus, se preparava para disputar as eleições para o governo do Estado na qual sairia vencedor. Antes dele, o governador era Plínio Coelho, que quase morreu em um acidente de carro naquele ano.

Um crime monstruoso mexe com a cidade. O agricultor Raimundo Ferreira envenenou com formicida a esposa, Georgina, que estava grávida de seis meses e com quem tinha cinco filhos pequenos. O motivo? O marido suspeitava de adultério. E por falar no assunto virou um escândalo na cidade a história de Emiliana Passos Leal, denunciada por poligamia. Ela tentava casar pela quarta vez.

A cidade também chorou a morte da Rainha dos Estudantes, Neyde Guerreiro Martins, em um acidente de avião no dia 14 de fevereiro daquele ano. A aeronave em que ela estava caiu perto do Clube Bancrévea. Manaus também chorou a morte do Papa Pio XII.

Mas nem tudo era motivo de tristeza. A amazonense Terezinha Morango colhia os frutos do sucesso fazendo turnê pela Europa. No ano anterior ela fora eleita Miss Brasil. Aqui, no carnaval, a Kamélia já fazia a alegria dos foliões.

Desabastecimento

A Manaus de 1958 também sofreu com o desabastecimento. Faltou carne, pão e água na torneira. A carne que Manaus consumia vinha do Baixo do Amazonas e não deu conta de abastecer uma cidade em franca expansão. A prefeitura teve que comprar fora. A cidade enfrentou um processo de desabastecimento de água por conta de problemas na empresa responsável pelo serviço. Qualquer semelhança com os tempos modernos...

Eis o início de uma nova era

A Seleção Brasileira de 1958 tinha craques que marcaram a história do futebol. Pelé dava os primeiros passos como profissional, mas já mostrava talento acima da média. O time tinha ainda o “gênio das pernas tortas”, o inesquecível Garrincha. Com os dois em campo o Brasil jamais foi derrotado.

Gilmar dos Santos Neves era o goleirão do time, que tinha os laterais Djalma Santos e Nilton Santos e o volante Didi que, convenhamos, tinha tanta categoria que poderia jogar em qualquer posição.

A estreia da Seleção Brasileira foi contra a Áustria. Depois de um início de jogo equilibrado, o Brasil venceu por 3 a 0. Mazzola marcou duas vezes e Nilton Santos fechou o placar. Na segunda rodada os canarinhos não saíram de um 0 a 0 contra a Inglaterra. Foi o primeiro 0 a 0 da história das Copas.

No terceiro jogo, contra a União Soviética, o técnico Vicente Feola lançou Pelé no lugar de Mazzola. O menino da Vila vinha se recuperando de contusão. Garrincha também entrou no lugar de Joel. Foi aí que o Brasil começou a ganhar aquela Copa. Reza a lenda que Didi teria liderado uma verdadeira rebelião dentro do time nacional para que Feola escalasse os dois. O treinador gostava de Pelé, mas tinha resistência em relação a Garrincha, porque não achava ele um jogador muito objetivo, porque driblava muito. As mudanças deram certo. O Brasil venceu por 2 a 0. A imprensa mundial ficou assombrada com o desempenho do Mané.

Nas quartas de finais o time canarinho passou sufoco, mas venceu o País de Gales por 1 a 0, gol de Pelé.

Na semifinal o Brasil goleou a França por 5 a 2. Vavá , Didi, Pelé (três vezes) assinaram os gols do Brasil. Fontaine e Piantoni marcaram os gols da França.

Na final aconteceu uma situação inusitada. Durante todo o torneio a Seleção Brasileira jogou com o uniforme amarelo, mas teve que mudar de cor porque a Suécia, que jogava a Copa do Mundo em casa, e também usava o uniforme amarelo. Logo o Brasil teve que arrumar outro uniforme.

A Confederação Brasileira de Desportos (CBD) comprou na Suécia mesmo camisas da cor azul. Mas como fazer para convencer os jogadores, supersticiosos, a aceitar a novidade? O jeito era dizer que a cor representava o manto de Nossa Senhora, que daria proteção ao time na final. O “migué” funcionou e os jogadores arrebentaram na final.

Quem deu bola foi o Santos

No Campeonato Amazonense de 1958 quem deu bola foi o Santos. Fundado no dia 1º de maio de 1952, inspirado no alvinegro praiano, o Santos de Manaus tinha sede no bairro Cachoeirinha, Zona Sul e foi fundado por um comerciante do bairro.

O time campeão de 58 era formado por Ney, Gurgel, Silvinho, Roberto, Paulo e Melo (na foto em pé); Gesnê, Antero, Pretinho, Pinguim e Cacheado (na foto, agachados).

“Era um time muito bom, muito forte e que nasceu inspirado no Santos. Por vezes jogavam com calção azul e camisa branca dependendo da cor do uniforme do adversário”, explica o historiador Francisco Carlos Bittencourt, 68. O único time que foi capaz de fazer frente com o Santos, naquele ano, foi o Nacional, que terminou o certame como vice.

O clube da Cachoeirinha nasceu de uma empreitada ousada, mas foi difícil mantê-lo no futebol em virtude dos altos custos. Assim o clube encerrou suas atividades em 1962, quatro anos depois de conquistar o primeiro e único título. Por coincidência ou não o Santos fechou as portas no ano da Copa do Mundo de 1962, no Chile, quatro anos depois de conquistar o primeiro e único título de campeão amazonense.

Mas o clube deixou um grande legado para o futebol baré e ele atendia pelo nome de Pretinho. Jogador habilidoso, ele ainda brilhou com a camisa do Fast Clube e do Nacional até encerrar a carreira em 1973.

E foi assim que Manaus viu a Copa do Mundo de 1958. Com festa, alegria e também com falta de água, pão e carne. Ano sofrido, hein? Na próxima semana tem mais.