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Nacional (AM) 100 anos: Da glória ao caos

Elitização do futebol custou caro ao Leão da Vila, que hoje só tem vaga na Série D do Brasileirão 04/12/2012 às 09:52
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Ultimamente, os desempenhos do Naça em Brasileiros decepcionaram a torcida
Bruno Tadeu Manaus

Tudo estava acontecendo na mais perfeita harmonia. O Nacional fazia frente aos principais times do Brasil, buscava posições intermediárias na tabela de classificação da primeira divisão e lotava o Estádio Vivaldo Lima com frequência. Eis então que a CBF anunciou não ter recursos para financiar o campeonato de 1987 e a salvação seria uma associação entre os 13 principais clubes do País. A partir de então, o Naça entraria num longo período de desprestígio e dificuldades que se estende até os dias de hoje e é o tema do oitavo capítulo da série em homenagem ao centenário do clube.

De 48 participantes em 1986, o Campeonato Brasileiro teve uma brusca redução no ano seguinte para apenas 16 equipes, no que foi a chamada Copa União. Não bastasse ir parar na segunda divisão naquele ano, na qual foi eliminado ainda na primeira fase, o Nacional viu o rival Rio Negro interromper uma sequência de quatro títulos estaduais no Amazonas.

A elitização do futebol deu início à derrocada não apenas do Leão da Vila Municipal, mas também da maioria dos clubes de menor expressão no País, sobretudo os nortistas. “Aconteceu aquilo porque apareceu o futebol de fora (Rio de Janeiro e São paulo) na TV quase todo dia, ai o público foi se diferenciando”, opinou o jornalista Carlos Zamith. O fim da década de 1980 representou, portanto, uma fase de transição para os clubes amazonenses perante o futebol nacional.

Os atletas mais qualificados dos tempos de primeira de visão foram embora e profissionais de atributos limitados passaram a ser maioria. Raros foram remanescentes dos tempos dourados. Um deles foi Marinho Macapá, que participou de oito títulos estaduais do Nacional.

Para o ídolo nacionalino, o reflexo desse processo também ficou evidente para quem representava o clube em campo. “Os próprios jogadores se desmotivaram porque, antes, eles jogavam com 40 mil pessoas (no estádio) num Rio-Nal. Hoje, você não vê nem 5 mil nas arquibancadas”, observou.

Assim foi encerrado o melhor período da história do Naça, com um discreto 16º lugar no Módulo Branco da Copa União, seguido por uma medíocre 40ª colocação na Série B de 1989. De 1990 a 2007, o clube disputou dez edições da Série C do Brasileirão, sendo que em apenas quatro ficaram marcadas de forma positiva. A primeira foi em 1992, quando o time caiu diante da campeã Tuna Luso e ficou em terceiro lugar.

Em 1996, o Nacional foi novamente eliminado pelo campeão da edição, o Vila Nova-GO, dessa vez nas quartas de final. Após uma participação fracassada em 1998, o clube deu um salto direto para a segunda divisão em 2000, sem sequer disputar a Série C em 1999.

Com o argumento de ter uma dívida histórica com os nacionalinos, por causa das consequências do Clube dos 13 em 1987, a CBF convidou o time para jogar a Série B. Sendo assim, o Nacional se aproximou da elite num processo semelhante ao que foi afastado 13 anos antes e disputou o Módulo Amarelo da Copa João Havelange.

Ainda assim, o Leão da Vila Municipal teve participação modesta, sendo apenas o 27º colocado naquela competição.

No ano seguinte, o rebaixamento foi inevitável. O Nacional voltou para a Série C, de onde só saiu para uma divisão inferior, a Série D.

Inflação dificulta a reação
Um efeito curioso apontado pelo empresário Mário Cortez, presidente do Nacional entre 1995 e 1998 e reeleito este ano, marcou essa nova era do futebol em que as consequências foram letais para o clube amazonense. Ao passo em que o Naça despencou em divisões de acesso no País, o orçamento do time aumentou com a desenfreada valorização de atletas, até mesmo os de baixa qualidade técnica.

“Naquela época (década de 1980) era mais fácil porque tínhamos um público maior e os custos eram menores. O futebol teve uma inflação muito grande em termos de valorização de salários. Jogador que se pagava dois salários, hoje se paga dez”, constatou Cortez, alegando que o time que defendeu o Nacional na primeira divisão era mais “barato” que um elenco montado para a Série C.

O resultado dessa mudança causou sobrecarga aos técnicos, responsáveis por tornar elencos limitados em equipes competitivas. Foi o caso de Adinamar Abib. “Era muito difícil porque você sai de uma divisão especial. Na Série C de 1996, tive que treinar com apenas jogadores regionais, devido às dificuldades de contratar”, lembrou.