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Natação estagnada

Segundo especialistas, é provável que nem em 10 anos o Estado consiga formar um nadador de alto nível 23/12/2012 às 15:34
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Matheus Andrade, nadador do juvenil é o 3º do ranking nacional
Nathália Silveira Manaus (AM)

Nos anos 80 e 90 o Amazonas vivia sua época de ouro da natação, com direito a ter um atleta e um técnico – Eduardo Piccinini e Aly Almeida, respectivamente – nas Olimpíadas de Barcelona de 1992 conquistando o 15º lugar, nos 200m borboleta. O fato que poderia ter colaborado para alavancar o esporte local parece ter ficado só na lembrança, pois desde lá o Estado não tem um representante amazonense preparado na capital ocupando as piscinas em Jogos Olímpicos e Pan-Americanos.

Professores e atletas da modalidade identificaram os principais problemas que contribuem para este cenário estagnado. O resultado é preocupante, pois todos os entrevistados em “coro” concordam: do jeito que está é provável que nem em 10 anos o Estado consiga formar um nadador de alto nível. Para o presidente da Federação Amazonense de Desportos Aquáticos, Victor Façanha, um dos itens principais para alavancar a natação local é a criação de uma equipe disciplinar, onde o atleta teria acompanhamento técnico, médico, fisioterapêutico, psicológico, fisiológico e nutricionistas.

A realidade das “piscinas”, entretanto, não chega nem perto da idealização do titular da entidade. “Com recurso financeiro é possível montar uma equipe disciplinar para formar um atleta preparado para ir aos eventos mais competitivos dentro e fora do Brasil. Não tem como ser bom sem a preparação, direcionamento e ajuda de todos estes profissionais. Mas no cenário em que estamos, de técnico fazendo papel até de pai, não tem como crescer”, comenta Façanha, ao afirmar que após a conquista de uma equipe disciplinar, o próximo passo para a modalidade prosperar é alternar os treinamentos dos atletas em piscinas olímpicas e semiolímpicas.

Em Manaus, segundo Aly Almeida, professor da modalidade, apenas dois clubes dispõem de piscinas olímpicas que seguem os padrões da Federação Internacional de Natação (Fina): Vila Olímpica e Sesi. Ambas tem 50m de comprimento e 25m de largura, oito raias, 2,5ms de largura em cada raia, controle de temperatura d’água e profundidade de 1,8 a 2 metros.


Segundo Façanha, nenhum atleta local recebe treinamento em de 50m. Isso porque, as piscinas existentes no Estado dobram o número de raias para receber mais nadadores. “Que eu me lembre somente três atletas amazonenses chegaram a treinar em piscina de 50m: Eduardo Picinnini, Paulo da Silva, o “Caju”, e o Jefferson Mascarenhas. Depois deles, ninguém mais”, afirmou Botinho. “Atletas de alto nível precisam receber treinamento planejado e alternado de 50m e 25m. As duas metragens mescladas são essenciais. Atletas nós temos para explorar nestas condições, como a Sthefanie Rodrigues, Isabele Nobre, Matheus Andrade, Pedro Nicholas”, enumera o presidente.

Sem políticas, entra o ‘paitrocínio’

Com mais de 30 anos dando braçadas fortes nos principais eventos da Cidade, Jefferson Mascarenhas tem respaldo para falar quando o assunto é natação amazonense. Sendo assim, o atleta é categórico quanto ao cenário atual da modalidade.

“Não temos uma política pública para levar o esporte para frente. Por isso, os atletas aqui sobrevivem de ‘paitrocínio’. Mas, por mais que o cara seja bom, chega uma hora em que o pai não aguenta mais sustentar algo que não vai para frente. E deixo bem claro que não vai para frente pelo atleta, mas pelo apoio que este não recebe. Até porque, em determinada idade, o nadador vai ficar dividido e ter que escolher se vai nadar, estudar ou trabalhar. O atleta fica mendigando e cansa. Eu consegui obter muito conhecimento cultural com o esporte, mas materialmente não ganhei nada”, afirmou.

Retratando “muito bem” a realidade que Jefferson Mascarenhas descreve, está o amazonense Matheus Andrade - terceiro no ranking nacional dos 1.500 metros. O pai do garoto de 16 anos, Raul Andrade, firma que gasta anualmente com o filho um total de R$ 15 mil. Este valor, segundo ele, apenas com passagem aérea para campeonatos. Ao colocar na ponta do lápis o aparato de profissionais que acompanham o atleta (técnico, fisiologista, preparador físico, biomecânico, nutrição e psicólogo), a conta sobe para R$ 25 mil.

“É um esforço muito grande para o Matheus continuar e ser o melhor na natação. Para investir tudo isso, foi preciso cortar todos os nossos momentos de lazer, mas o investimento no esporte é minha prioridade”, disse Raul, ao afirmar que para 2013 pretende incluir nos treinos de Matheus atividades em piscina de 50m. “Vou propor à Secretaria de Estado da Juventude, Desporto e Lazer (Sejel) que a piscina olímpica possa ser explorada nos 50 metros pelo menos uma vez por semana nos treinos do Matheus. Não dá para ser um atleta de alto nível sem esse aparato”, ressaltou o funcionário público.

Para Darlan Padilha, técnico de Matheus Andrade, a fórmula para o sucesso é simples, e o que falta é gestão esportiva. “A natação e o esporte em geral clama por projetos capazes de suprir a necessidade do atleta, que faça com que o esportista não abandone a carreira ou deixe ser levado para outro Estado. Do jeito que estamos indo, vamos perder nossos campeões. Isso é muito triste”, diz ele.

Três perguntas

Aly Almeida técnico nas Olimpíadas de 1992 e professor do Instituto Federal do Amazonas (Ifam)


1-Existem no Amazonas atletas e técnicos com potencial olímpico?

Sim, mas precisam ser trabalhados, moldados. Todos necessitam obter conhecimento para chegar lá. Mas infelizmente não consigo ver um trabalho em Manaus para as Olimpíadas. Tudo que dizem por ai, é balela. Agora como os técnicos daqui vão obter conhecimento de alto nível, se não tem condição financeira para isso?

2-Que falta para os amazonenses despontarem?

Existem três pontos valiosos para que um atleta possa chegar e conquistar medalhas numa Olimpíada: preparação técnica, física e psicológica. Se os três itens não estiverem afinados, não há como chegar ao topo. E porque que deve existir tanta preparação? Ora, porque nada pode ser comparado a uma pressão olímpica. O problema é que não temos esse tipo de trabalho no Estado.

3-Qual o trabalho que você fez com o nadador Eduardo Picininni para os Jogos Olímpicos em 1992?

Preparei o Eduardo em Manaus, mas tudo a base de muito estudo, dedicação e investimento. Nada veio a toa, tudo foi resultado. Na época, a fisiologia me deu base para crescer e desenvolver um planejamento olímpico para ele. Se um técnico falar para você que está preparando um atleta para ir as Olimpíadas e não te mostrar uma programação, pode ter certeza que é enganação. Mas então, através do estudo da fisiologia, implantei uma programação baseada em exames que mostravam os milimoles por litro de ácido lático do atleta, que constatava o que o Picininni precisava para obter êxito nas competições. Eu conseguia manter uma programação que melhorava o sistema cardiorespiratório, a oxigenação no cérebro, ao mesmo tempo em que ele queimava gordura, e aumentava a sua intensidade na piscina.