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Esportes
Futebol sustentável

O papel social do futebol em comunidades ribeirinhas do AM

Em algumas comunidades do interior do Amazonas, o esporte também é visto como um meio de engajamento social e sustentável 12/08/2012 às 18:05
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Jogos disputadíssimos no Campeonato
Nathalia Silveira ---

Que o futebol é uma paixão nacional, isso não se pode negar. Mas, em algumas partes deste Brasil tão extenso, ele não é somente encarado como o esporte mais amado e praticado. Mais que isso. Nas dezenoves comunidades da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS)  do Rio Negro, por exemplo, o futebol é carro-chefe da relação interpessoal entre os comunitários, e tem papel social ao conseguir reunir a comunidade para a discussão de novos projetos. Prova disso, foi à abertura do Segundo Campeonato de Futebol Sustentável, que reuniu uma média de 600 ribeirinhos neste sábado na comunidade Santa Helena do Inglês, levando centenas de pessoas a participarem em paralelo da Feira de exposições de tecnologias sociais do Instituto Nacional de Pesquisas de Amazônia (INPA), com apoio da Fundação Amazônia Sustentável (FAS).

Para o superintendente-geral da FAS, Virgilio Viana, seria impossível reunir tantas pessoas num só lugar para conferir uma Feira de tecnologia. Dessa forma, o esporte torna-se um agente viabilizador. “O que acontece aqui não é um simples torneio. Com eventos assim, é possível fomentar a integração social. Afinal, o campeonato é um evento para eles. Reúne as famílias, os amigos, é ponto de paquera, de rendimento econômico e também uma solução para nós, que queremos mostrar as novas tecnologias para a comunidade que poderá ser implementada através do investimento do Bolsa Floresta Renda”, comentou Viana.

Líder da comunidade Santa Helena do Inglês há 12 anos, Nelson Brito contava os segundos para finalmente estourar os fogos e dá início as partidas. Só neste sábado, o Campeonato contou com 13 jogos, com duração de 10 minutos cada. Em campo, figuravam as categorias Titular, Juvenil, Feminino. Com apoio da Fundação Amazônia Sustentável,   o Órgão Gestor do Torneio, com sede em Terra Preta, vai distribuir aos campeões de cada categoria o valor de R$8mil (cada equipe receberá uma parte desse total). Além disso, as disputas duram dois meses para chegar a final e são realizadas em todas as dezenove comunidades da RDS.  Sendo que, cada mandante é autorizado a levar comidas, bebidas, objetos, bem como roupas para serem vendidos durante as partidas. Assim, as comunidades chegam a arrecadar cerca de R$ 7 mil reais por jogo.

“Com essa movimentação financeira, é possível cada comunidade bancar sua própria equipe, que precisa de transporte e material. Além disso, muitas pessoas começam seu pequeno negócio dessa maneira. Mas, o mais importante é a interação entre os ribeirinhos ”, comentou seu Brito, que com 35 anos de idade disputa a categoria Titular e Máster pelo Santa Helena. De acordo com ele, o campeão da primeira edição - a ser batido este ano – é o Guarani Sacará. A vice-liderança de 2011 foi ocupada pelo Holanda e o terceiro lugar ficou com o São Francisco (todos na categoria principal). “Para o Santa Helena ser campeão em 2012, temos que melhorar muito. Mas, estamos tentando, treinamos quase todos os dias e estamos esperançosos de  pelo menos vencer no Máster”, disse o líder comunitário.

Figurinha carimbada nas partidas de futebol, dona Valdira dos Santos com 47 anos de idade, defende como ninguém uma bola. Não à toa, foi a responsável na decisão por pênalti pela vitória do Palmeiras (comunidade Terra Preta), ao enfrentar o Fluminense. E se passou por sua cabeça que a idade faz dessa senhora uma jogadora fraca, está enganado. Com direito a torcida organizada e cara de séria quando entra em campo, ela é respeitada nas quatro linhas e protagoniza a história de uma batalhadora. A começar quando dona Valdira está de pé  às 6h, diariamente, para capinar. Quando chega a casa por volta das 11h, é a vez dela ser tornar dona de casa e dar conta dos seis filhos. A tarde, às 16h, é o momento de treinar e ficar afiada para defender o Palmeiras. A noite, ao invés de descansar, entra em cena a estudante. Sim, dona Valdira segue todos os dias às 19h rumo a escola onde faz a 8 série e cultiva o maior sonho de `gente grande`: se formar e poder ser chamada, quem sabe um dia, de  educadora física.

 “É uma luta todos os dias. Pego sol muito forte no roçado, mas não deixo nada me abater. Continuo a treinar e a estudar, pois tenho o sonho de terminar meus estudos. E se depender da minha garra, eu vou conseguir”, completou a goleira mais temida da reserva.