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Para sorte dos tricolores, conquista do Fluminense era um 'óbvio ululante'

Datas especiais relacionadas a três personagens da história do esporte foram comemoradas: o centenário do primeiro confronto entre Flamengo e Fluminense, e o centenário do saudoso Nelson Rodrigues 03/12/2012 às 09:38
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Jogadores do Fluminense comemoram o título
André Viana ---

De acordo com a interpretação do calendário Maia, o ano de 2012 é apocalíptico. Para os estudiosos da extinta civilização, o mundo acabará no dia 21 de dezembro. Porém, nada indica que daqui a 18 dias a terra inexista. O que existe, desde o dia 11 do mês passado, é um campeão brasileiro incontestável: o Fluminense. E, aí sim, concretizando uma profecia feita pelos deuses da bola “há seis mil anos”. Por tudo que o cercou, 2012 tinha tudo para ser – e foi - um ano para lá de cabalístico para o Fluminense.

Em 2012, datas especiais relacionadas a três personagens da história do esporte mais amado do Brasil foram comemoradas: o centenário do primeiro confronto entre Flamengo e Fluminense, e o centenário de um dos maiores nomes da literatura e do jornalismo brasileiro: o saudoso Nelson Rodrigues (completando o trio). Tricolor inabalável, Nelson dedicou sua última crônica esportiva ao título carioca do Fluminense de 1980 (conquistado sobre o Vasco, por 1 a 0).

Frases proféticas

Na crônica final, o jornalista, que morreria poucos dias depois, também acertou profecias ocorridas no ano em que todos concentraram atenções no que pregaram os maias, com frases como estas, perfeitamente aplicáveis a conquista do tetracampeonato brasileiro do Tricolor: “Amigos, em futebol, nunca houve uma vitória improvisada. Tem sido assim através dos tempos. Foi uma doce e santa vitória. Vocês viram como aconteceu o nosso triunfo. Foi uma tarde maravilhosa. Amigos, os idiotas da objetividade custaram a perceber a evidência ululante, segundo a qual seríamos campeões. Desde o primeiro jogo do campeonato, seremos campeões. Ninguém nos tira a vitória. Gostaria de falar dos campeões. O Fluminense tem um elenco fabuloso do goleiro ao ponta-esquerda, e só os lorpas e pascácios não vêem que o futebol brasileiro está encarnado nos craques tricolores”. Nelson estava correto. A superioridade do Fluminense dominou a opinião da imprensa imparcial, categoria que o escritor e profeta tricolor jamais fez questão de fazer parte.

O Fluminense de 2012 foi o Fluminense que sempre existiu no coração de Nelson Rodrigues e de sua torcida: retumbante, arrebatador, impiedoso, espetacular e, acima de tudo, sobrenatural (confira os 38 jogos na tabela ao lado) e, para delírio da torcida tricolor, a conquista foi coroada com duas vitórias sobre o maior rival no ano que celebrou os cem anos do Fla-Flu. Ambas com a cara do Fluminense; placar mínimo, com surgimento de um carrasco (Fred) e com um goleiro (Cavalieri) com o espírito de Castilho encarnado, com direito a pênalti defendido, bolas na traves e muita sorte (pois os jogadores rubro-negros perderam gols inacreditáveis).

Soberania

Na jornada Tricolor, o time esteve no G4 em 31 das 38 rodadas. A liderança foi alcançada na 22ª rodada, para jamais ser tirada. O Flu foi o último time do Brasileirão a perder a invencibilidade no campeonato, o revés aconteceu na 12ª rodada, contra o Grêmio. E em todas, absolutamente em todas as partidas do Fluminense na competição, seja contra os times mais fracos (uma das derrotas foi contra o Atlético-GO, no Rio de Janeiro), contra as mais fortes, com placares mínimos ou elásticos (raros), não faltaram elementos que ilustram os textos rodrigueanos: Drama, imponderável, suspense, fidelidade, traição, humor e castigo. Apenas uma característica do escritor foi alterada pelo Fluminense de 2012, o desfecho da história não ficou para o último parágrafo. Nelson também fazia isso quando escrevia sobre o Fluminense. Ele era apaixonado e a paixão exige imediatismo.

Guerreiro

Para escrever a derradeira crônica de sua vida, Nelson Rodrigues foi um guerreiro (mais uma profecia do jornalista, esta sobre a futura denominação de seu time de coração, surgida em 2009, quando a improvável escapada do rebaixamento aconteceu). Doente, tentou em vão digitar as palavras na máquina de escrever. Não conseguiu. Mas não desistiu. Chamou o filho Nelsinho para eternizar no papel o último texto autoral. Para o homem que dizia que no futebol “tudo era Fla-Flu, o resto é paisagem” e que “somente o Fluminense é tricolor, o resto são times de três cores”, o amado pó-de-arroz de 2012 realizou uma campanha com a “vocação da eternidade”.