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Peladão 40 anos: Conheça a anatomia do peladeiro

A limitação na disponibilidade de recursos, como a habilidade com a bola e a forma física, são superadas pelos peladeiros com o desenvolvimento de características nada fáceis de encontrar por aí - pelo menos em qualquer ser humano comum 23/11/2012 às 10:27
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Você acha que tem perfil para ser peladeiro? Então vê se tem coragem de encarar o que essa moçada enfrenta
Lúcio Pinheiro Manaus

Há 522 anos, Leonardo Da Vinci rabiscava em suas anotações o desenho conhecido como o Homem Vitruviano: famosa imagem em que o artista descreve as proporções do corpo humano masculino. Em 1973, o jornalista Humberto Calderaro Filho criou o Peladão, maior campeonato de peladas da terra, e uma nova forma humana vem sendo moldada e apresentada ao mundo desde então: a anatomia do peladeiro.

A limitação na disponibilidade de recursos, como a habilidade com a bola e a forma física, são superadas pelos peladeiros com o desenvolvimento de características nada fáceis de encontrar por aí - pelo menos em qualquer ser humano comum.

 A primeira adaptação por qual tem de passar um indivíduo que se mete a encarar o Peladão é o calor amazônico. É preciso ter uma cabeça muito dura para, além de segurar as boladas em campos, aguentar partidas sob o implacável sol amazonense. Nesse primeiro teste, diria Charles Darwin: só os mais aptos sobrevivem.

Os fracos também não têm vez no quesito pé. Pisar descalço na lama, em pedra, cascalho e areia quente, em determinados casos, pode ser crucial para que determinados peladeiros façam frente a outros não adaptados. “Descalço o cara se sente mais à vontade em campo. Tem mais o domínio da bola”, defende o volante do time do União F. C. Amigos do Adriano, Emerson Lima.

De etnia tikuna, Wilson Ramos Custódio garante que costuma jogar calçado. Mas, no jogo em que a reportagem acompanhou, o atleta estava com o pé machucado, e, segundo ele, o uso da society naquele dia só pioraria a lesão. “Porque a society iria apertar o pé”, justificou o atleta, que disputa o Peladão na categoria indígena.

Ter a canela de “aço” é outra característica essencial de um peladeiro. Afinal, usar caneleiras é para os covardes. Que o diga Antônio Luiz Ramos, 15. No jogo de estréia do rapaz, também na categoria Indígena, o adolescente passou por duro ritual de iniciação. Mas venceu. Gemendo, mais venceu.

Antônio entrou numa dividida com um cara que tem o dobro do peso dele, mas mostrou que está bem de tíbia (osso da popular canela). Deu uns gemidos ali, outro aqui, rolou no chão pra lá e pra cá. Porém, depois de um gelinho milagroso, levantou e seguiu na partida. “É assim mesmo. Não é a primeira vez que me machuco”, minimizou o “canela de aço”. E aí, você encara uma pelada assim?


Se for jogar, não beba
Aos 51 anos, e quase 20 só de Peladão,  Jenival Garcia está no grupo dos atletas do Peladão com o famoso estômago de avestruz. Afinal, comer feijoada, rabada, carne de sol, tomar uma birita e ainda correr cinquenta minutos é coisa de peladeiro nato.  Jenival, que disputa a categoria Master pelo Astro Junior, ensina que uma cervejinha não faz mal a nenhum atleta. Desde que a gelada não vá para a barriga antes da partida. “Para quem controla, como eu, não faz mal. Tomo só depois do jogo. Depois me cuido”, jurou o jogador.

 A reportagem encontrou com Jenival virando uma latinha na beira do campo do São Francisco, na Zona Centro Sul, onde o time dele manda os jogos. Naquele dia, o jogador garantiu que o time dele não jogou. Estava de folga naquela semana.

“O Peladão é uma brincadeira. Mas a gente é cobrado pelo time, por isso eu me cuido. Eu  tomo umas, mais é controlado. No final de semana que tem jogo, eu não bebo”, disse Jenival, antes de mais um gole.


Pés descalços
Quatro dos 11 jogadores do União F. C. Amigos do Adriano, do bairro Novo Israel, preferem sentir a areia, a lama, as pedras e as travas das chuteiras dos adversários nos pés, do que usar calçado. “Sempre jogo descalço. Dá mais segurança no toque”, defende Sideniz Gadelha, goleiro da equipe.     Emerson Lima, volante do União F. C. Amigos do Adriano, diz que no futsal protege os pés. Mas, no Peladão, vai mais seguro para as divididas descalço. “Tenho mais domínio de bola. Disputo as jogadas mais à vontade”, afirma o volante.

 Pelo menos no último jogo, o União F. C. se deu bem com quatro dos seus atletas descalços. A equipe, que ainda não tinha vencido, goleou o Flamengo do Florestal por 4 a 1. A equipe está classificada para a próxima fase.