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Peladão 40 anos: Indígenas firmam identidade na competição

Criado em 1973, o Peladão foi se recriando ao longo do tempo. Uma das novidades na competição, em 2005, foi à inclusão de um torneio à parte somente com times formados por indígenas 04/01/2013 às 14:47
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Em casa a viúva guarda recortes e fotos da história do Peladão Indígena
Lucio Pinheiro Manaus



Há sete anos o Peladão conhecia o primeiro time indígena a conquistar um título do maior campeonato de futebol amador do planeta: a Escola Agrotécnica Rainha dos Apóstolos (EARA).

Criado em 1973, o Peladão foi se recriando ao longo do tempo. Uma das novidades na competição, em 2005, foi à inclusão de um torneio à parte somente com times formados por indígenas.

Naquele ano, 15 equipes se inscreveram no Peladão Indígena. A adesão dos povos indígenas na competição, pensada pelo coordenador do Peladão, Arnaldo Santos, contou com a liderança e coordenação também do sociólogo e indigenista Jorge Terena, falecido em 2007.

Entusiasta da participação dos indígenas na competição, Terena se envolveu no projeto a ponto de criar uma equipe. Para formar o time, o indigenista e a esposa, Mara Cambeba, foram buscar os atletas entre os indígenas internos na Escola Agrotécnica Rainha dos Apóstolos, localizada no quilômetro 23 da BR-174.

Segundo Mara, a direção da escola permitiu que os alunos deixassem o local para participar dos jogos. Mas exigia que todos estivessem de volta ainda no final do dia. “Nós pagamos o transporte deles até Manaus. Após o jogo, levávamos de volta. Essa era a exigência”, recorda.

Para Mara, aquele ano foi o melhor campeonato realizado entre os indígenas. “Era tudo muito bonito, porque era tudo bem natural. Os atletas jogavam sem calçado ou qualquer equipamento. Era tudo simples. Bonito de se ver”, diz Mara.

Realizada no campo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a final do primeiro torneio indígena foi disputada entre o EARA e o Wotchimaücü (Tikunas). “Foi um jogo muito disputado (1 a 0). As duas equipes jogaram bem, mas, no final, os meninos conseguiram a vitória”, recorda Mara.

Assim como aconteceu com o marido, Mara ficou fascinada pela magia do Peladão. No ano seguinte, ela decidiu criar uma equipe também, e inscrever no torneio feminino indígena.

A carreira de Mara como dirigente de time não poderia começar melhor. Em 2006, o time montado por ela, o União das Mulheres Indígenas, foi campeão da categoria. Em 2008, a equipe passou a se chamar Manaos, mas a história de vitórias continuou a mesma.

Hoje, Mara guarda com carinho a coleção que ela e o marido acumularam desde 2005 no Peladão. Fora da competição esse ano, a indígena promete que ano que vem estará de volta. Mas afirma que vai conversar com a coordenação do evento para fazer mudanças na competição entre os índios.

Mara disse que falta mais disciplina entre os indígenas. “Precisamos criar novamente um regulamento próprio para a competição indígena. Tínhamos isso no primeiro ano. Um regulamento que o Jorge criou. Lembro que o regulamento proibia até que os indígenas falassem palavrão no campo, a não ser que na língua do povo deles”.

Mara herdou do marido a responsabilidade e a satisfação de representar os índios e preservar a cultura no Amazonas

Identidade viva
Torneio indígena veio para unificar as comunidades em Manaus e transformar a raça em protagonista A galeria de campeões do Peladão Indígena na categoria masculina ostenta hoje seis nomes. O time que mais venceu a competição até hoje foi o Funai de Autazes (2007 e 2008). Além da Escola Agrotécnica Rainha Apóstolos da BR 174 (2005), já venceram a campeonato de peladas entre os indígenas o Hywi Wato (2006), Raça Indígena (2009), Hywi Wato (2010) e Waty Ama (2011).

De 2005 a 2011, a competição, entre as categorias masculino e feminino, já reuniu 126 equipes. O ano de 2010 foi o recorde de participação de equipes no Peladão Indígena. Foram 19 times na briga pelo então 6º título do torneio.

Entre as mulheres indígenas, o ano que mais teve a participação delas foi em 2011, com 11 equipes inscritas no torneio.

Em números de atletas, 2011 foi o que mais recebem inscrições. Na categoria masculina, 446 atletas se inscreveram no campeonato. No torneio feminino, 342 mulheres participaram do Peladão Indígena ano passado.

Segundo dados da coordenação do Peladão, até 2011, 3.074 indígenas, entre homens e mulheres, participaram do maior campeonato de peladas do mundo.

O interesse em matar uma curiosidade foi responsável pela inclusão da categoria indígena no Peladão, conta o coordenador do torneio, o radialista Arnaldo Santos. “Li no jornal que uma quantidade muito grande de indígenas vivia na área urbana de Manaus. Pensei: Bem, se for verdade, porque eles não podem participar do Peladão? Onde eles moram? Preciso ver onde esse povo todo está. Então, fui atrás de me informar. Foi quando encontrei o Jorge Terena”, lembra Arnaldo.

Segundo Arnaldo, os jogos entre os indígenas representam o momento para que os diferentes povos e lideranças indígenas para além do esporte, possam se reunir para discutir outros aspectos que envolvem a permanência e a manutenção deles no meio urbano. “É lá, na beira do campo também, que as lideranças indígenas conversam, se articulam e pensam suas ações dentro da cidade e nas suas comunidades. O futebol é o menos importante”, explica Arnaldo.

Para Arnaldo, com a morte de Jorge Terena, ele perdeu um grande parceiro na coordenação do torneio indígena. E os indígenas perderam uma grande liderança. “Depois da morte do Terena, não surgiu uma nova liderança que possa coordenar as comunidades. Às vezes, temos algumas dificuldades ao longo do campeonato, que uma liderança como o Terena nos ajudaria a conduzir muito”, comentou Arnaldo, que toca o projeto em frente.