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'Sou feliz por ter vencido na vida', diz Cafu em entrevista

O lateral e capitão do pentacampeonato fala dos momentos marcantes de sua carreira e de seus planos para o futuro 23/08/2012 às 09:18
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Marcos E. de Morais,o Cafu
Adan Garantizado Manaus (AM)

O que você faria se  tivesse a atenção do planeta inteiro por alguns instantes? Marcos Evangelista dos Santos teve esta oportunidade no dia 30 de julho de 2002 e resolveu “quebrar o protocolo”. Após subir no pequeno púlpito reservado para um dos objetos mais cobiçados do planeta, vestindo uma camisa onde estava escrito “100% Jardim Irene”, ele aproveitou todos os holofotes do mundo para fazer uma declaração mais do que apaixonada para a esposa, Regina.

O gesto romântico foi comemorado com fogos, gritos e muita festa pelos brasileiros, que naquele momento acabavam de ver o capitão da Seleção, Cafu, erguer o troféu da quinta Copa do Mundo conquistada pela Seleção Brasileira de futebol. Passados dez anos da conquista do penta no Japão, o ex-lateral direito visitou a capital amazonense nesta semana.

Cafu visitou escolas, fez palestras e ontem à noite, apresentou o projeto de sua ONG, a “Fundação Cafu” a empresários e autoridades locais, em evento realizado no Bistrô Mon Plaisir, na cobertura do Hotel Park Suites, na Ponta Negra. Em meio a esta agenda corrida, o capitão do penta conversou com o CRAQUE e além de relembrar momentos da carreira vitoriosa, ele analisou a atual Seleção. Cafu jogou três vezes em Manaus, ainda no antigo Vivaldo Lima, e deixou o campo vitorioso nas três oportunidades. “Manaus me traz bons fluidos”, brincou.

Qual foi o momento mais marcante para você naquela conquista do penta em 2002?

Sem dúvidas foi erguer a taça, sem sombra de dúvidas. Aquela imagem ali vai ficar marcada sempre que se falar de Copa do Mundo e de Seleção Brasileira. Foi uma imagem que sem querer se tornou histórica e vai ficar para o resto da vida. Nós tivemos oportunidades de fazer algumas festas pelo pentacampeonato neste ano, mas, acho que temos até que dar mais ênfase à conquista. São dez anos de história. Dificilmente você vai um ver um país ser pentacampeão do mundo nas condições que aquela Seleção do Brasil foi.

Qual foi o jogo que você considera mais difícil daquela trajetória?

Os sete jogos foram fantásticos, mas acho que contra a Inglaterra nas quartas e a Turquia nas semifinais foram marcantes, pela dificuldade principalmente. Saímos atrás da Inglaterra e depois viramos com aquele gol do Ronaldinho. Já contra a Turquia, eles nos colocaram muita dificuldade. Foi uma retranca difícil. Se não fosse aquele biquinho mágico do Ronaldo (risos).

Como se sente sendo o único jogador a disputar três finais seguidas de Copa do Mundo consecutivas e vencer duas delas?

Muito orgulhoso e feliz. Sou um cara realizado por isso. Dificilmente alguém vai conseguir chegar a esta marca. Acho que vai ser quase impossível. Fico muito orgulhoso por colocar este recorde. Mas eu fico mais feliz por ter saído do Jardim Irene, que é um bairro humilde e sem muitas condições e ter vencido na vida. Acho que outras pessoas podem vencer como eu, trabalhando e lutando com dignidade. Temos que mostrar para esse povo que o caminho do bem ainda é o caminho certo.

Nas duas Copas que você disputou e saiu sem o título de campeão (98 e 2006) o carrasco foi o mesmo: A França de Zidane. Qual das derrotas foi a mais dolorida?

Acho que a de 2006. Foi uma ocasião em que tomamos o gol em um lance particular, que treinávamos bastante. Naquele erro o Brasil saiu fora. Realmente aquilo ficou marcado para mim. Em 98 o Brasil realmente jogou muito mal e dificilmente ganharíamos aquele jogo da França.

O futebol brasileiro evoluiu ou involuiu nesses dez anos?

Acho que o futebol brasileiro manteve a estabilidade e as outras seleções cresceram. As outras equipes se adaptaram à nossa maneira de jogar. Sem contar que outros países tiveram uma formação de atletas muito boa. E nós paramos naquela onda de que uma hora ou outra tudo vai ser resolvido. A disciplina tática, técnica, a disposição de se doar dentro de campo e o coletivismo prevalecem muito hoje. Isso é fundamental para uma equipe que quer ser campeã.

O trabalho do Mano Menezes à frente da Seleção Brasileira vem agradando você?

Vem sim, apesar de o Mano não ter conseguido bons resultados contra Seleções grandes. Ele já mostrou que é um treinador de qualidade e competente. Claro que quando o resultado não vem, as pessoas acabam cobrando colocando o trabalho do treinador em xeque. Acredito que a fase de “experimentos” na Seleção acabou. Agora é definir os onze titulares e colocá-los para jogar o maior números de jogos o possível.

Trocar de treinador hoje seria má ideia?

Eu acho que seria completamente equivocado se isto acontecesse. O Mano já vem fazendo um trabalho de dois anos. Se colocar outra pessoa agora, ela só terá um ano e meio para a Copa. A Copa já está aí. Querendo ou não, os atletas que estão na Seleção atual já sabem o que o Mano quer. Agora é entrosar esta equipe bem.

Como você avalia seus “sucessores” na lateral direita da Seleção?

O Daniel Alves, o Maicon e o Rafael são ótimos jogadores. Mas minha geração colocou uma marca na Seleção muito forte. Eu fiquei 18 anos na Seleção e ganhei quase tudo o que disputei. Isso sem contar com os recordes. Então esses jogadores enfrentam um pouco de dificuldades em manter o nível. Mas estes três são excelentes atletas e podem chegar muito<br/> longe.

Quem é o seu favorito para a Copa de 2014?

O Brasil é favoritíssimo. Eu sou brasileiro, patriota e torço muito para a Seleção. Também torço para que o nosso país faça uma grande Copa em todos os aspectos, seja estrutural, na comunicação e no futebol. Vamos mostrar para o planeta que o Brasil é um país de primeiro mundo e não deixará nada a desejar para ninguém.

Não ficou faltando uma “partida de despedida” para você na Seleção?

Eu sou um cara bem tranquilo que vive o momento. Se houver um jogo de despedida, ótimo. Se não, vou continuar minha vida e seguir tocando meus projetos. Não sou um cara que para e fica na cadeira se lamentando. Se houver um jogo de despedida, seria ótimo, por tudo o que fiz para a Seleção Brasileira.

Por que você quer trazer a fundação Cafu para Manaus?

Sei que Manaus é uma cidade que vem crescendo bastante. Quero trazer um pouco da experiência da fundação Cafu para cá. Já que é um período que está se falando de responsabilidade social e eu já trabalho com isso há mais de dez anos. Queremos aproveitar também o momento para capacitação pessoal, principalmente para crianças e jovens. O mercado vai estar muito amplo em 2014 e nós vamos precisar de todo este pessoal para trabalhar durante a Copa. Trabalhamos com 750 crianças fixas no Jardim Irene em São Paulo e três mil atendimentos mensais. O nosso foco é na inclusão social. Vejo isso como uma forma de retribuir lá para o Jardim Irene, que foi o bairro onde eu nasci e cresci. Passei 22 anos lá e saí para os campos do mundo. O aprendizado que eu tive na periferia me fez chegar onde cheguei. A falta de oportunidades acaba trazendo uma má formação para todo mundo. Quando há chances, a formação é bem melhor.

Perfil

Marcos E. de Morais, o Cafu

Idade: 42 anos

Naturalidade: São Paulo (SP)

Altura: 1,78m

Clubes na carreira: São Paulo, Palmeiras, Juventude, Zaragoza (Espanha), Roma e Milan (Itália)

Títulos:  Copa do Mundo em 1994 e 2002; Copa América de 1997 e 1999; Copa das Confederações de 97; Campeão Brasileiro em 1991 e bi da Libertadores em 1993 e 1994.