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‘A Dilma não é amiga do índio, ela é inimiga’, diz líder yanomami

Porta-voz dos yanomami, Davi Kopenawa se diz incansável na luta pelos direitos de seu povo 01/11/2012 às 17:07
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Davi Kopenawa: "Ela (Dilma) não conhece nossa floresta, a nossa terra, a realidade do povo yanomami. Só conhece o papel, a lei. Mas ela não está enxergando"
Elaíze Farias Aldeia Watoriki, Barcelos (AM)

Quando os yanomami estavam quase perdendo a guerra para os garimpeiros e políticos que lhe apoiavam, no final da década de 80, Davi Kopenawa, 58, foi às Nações Unidas. As tentativas de homologação já se arrastavam há vários anos, sem uma definição do governo brasileiro.

Com apoio de lideranças indígenas que despontavam no cenário político do país – como Ailton Krenak e Álvaro Tukano – Davi foi a Nova York, nos Estados Unidos, e deu o seguinte recado: “Aqui é ONU. ONU manda tudo. ONU não é só para olhar Paris, Japão, Londres. Mas para também olhar para a cidade e comunidade pequena. E também para olhar o povo yanomami. A ONU deve conversar com o governo brasileiro para que ele resolva a nossa demarcação e deixar o yanomami ficar tranquilo”.

A repercussão da fala de Davi reverberou no auditório das Nações Unidas, na mídia internacional e, claro, veio parar no Brasil e nos bastidores do poder, em Brasília.

Porta-voz e mais conhecida liderança do povo yanomami, Davi diz que só viaja muito porque precisa defender seu povo. Ele salienta que sua “casa mesmo” é a aldeia Watoriki, na região do rio Demini, no Estado do Amazonas, divisa com Roraima.

Sério quando está à frente de grandes discussões, Davi tem uma faceta divertida e espirituosa que a reportagem observou nos quatro dias em que passou na aldeia Watoriki. Davi também tem pendores para o xamanismo, inspirado nos ensinamentos de seu sogro, Lourival.

Na assembleia da Hutukara, Davi andava ocupado. Se dividia com inúmeras e diversificadas tarefas: assembleia, encontros, debates, organização da festa para os visitantes, maestro das danças e até as coordenadas para as refeições. Davi estava em todos os lugares.

No intervalo de uma dessas atividades, sentado em um tronco de árvore na entrada da aldeia, Davi conversou com a reportagem de A CRÍTICA, durante o qual falou sobre sua história de luta, a batalha pela demarcação, garimpo e sobre a tentativa do Congresso Nacional de regulamentar a mineração em terra indígena. Davi não poupou ninguém, nem a presidente Dilma Rousseff, considerada por ele como “uma inimiga dos índios”.

Leia a entrevista:

Como você entrou na luta em defesa do povo yanomami?

Assumi a responsabilidade para defender meu povo. O não indígena é o Governo Federal. Ele que manda no Brasil. Mas eu não acredito. Manda construir a cidade, a estrada. Eu fico pensando, querendo descobrir, “será que esse homem é como Deus”? Era assim que eu pensava no começo. Eu falava só um pouco português.

Como você decidiu enfrentar as dificuldades vividas pelo seu povo?

Eu pensava que o presidente da Funai protegia nós. Aí eu pensei: “Vou enfrentar o homem-golias”. O homem-golias é um homem grande. Um homem que não ama a terra, não ama o povo indígena, não ama a beleza da floresta. Ele quer derrubar tudo. Estão usando as máquinas pesadas, usando muita gente trabalhadora para trabalhar para ele. E ganhando pouco. E usando como escravo. Eu fui descobrindo. Eu fui percebendo essa situação. Percebi a destruição dos rios, desmatamentos. Aqui não chegou, eu que andava, acompanhava com os outros povos indígenas.

Nessa época você começou a perceber a luta de outros povos indígenas?

Sim, eu acompanhei a luta dos macuxi, dos wapichana, ingaricó (Roraima) e outros parentes que lutavam em Brasília, como os kaiapó, os xavante. Vi que davam um pedaço pequeno para eles. Eu ficava pensando, “acho que não vai dar certo para o yanomami. O yanomami precisa de uma terra grande”. Assim que enxerguei.

Os problemas reais dos yanomami eram os garimpeiros então?

É, comecei a ver a entrada dos garimpeiros na terra yanomami. Vi que o homem branco não tem pensamento, não pensa no futuro, só pensa nele. Eu fui acompanhando assim. Os invasores então começaram a entrar na terra yanomami. Pescadores, caçadores, fazendeiros, garimpeiros, tudo foram diretamente para a terra de Surucucu. Eu fui no garimpo ver o que estavam fazendo. Encontrei cheio de buraco, tirando as areias, as pedras, jogavam fora, e os igarapés parados. E a poluição fica dentro da água. Mercúrio, óleo, gasolina, latas de lixo. A floresta tem vida. A floresta não nasce mais. A visão do povo indígena era assim. Aí descobri tudo. Que o homem branco desfaz a mata, maltrata nosso País.

Depois de ver tudo, você também se engajou na luta?

Em 1975 comecei a lutar. E o povo não sabia que eu estava lutando. O não índio fica me olhando. Vendo que estou fazendo, vendo que estou reclamando. “Olha branco, não é assim”, eu dizia. “Não é bom para branco fazer isso, destruir. Se nós, yanomami, deixar invadir tudo vai morrer muito meu povo”, falava. Aí comecei a andar para reclamar em Brasília. Comecei a viajar com outras lideranças: Ailton Krenak, Jorge Terena, Álvaro Tukano. Eles me explicavam: “Olha Davi, os brancos são maus. Maltratam nosso País. Nós vamos lutar. Você e nós”. Eu decidi lutar por causa do meu povo, não por causa de mim.

Que tipo de atividades que vocês, lideranças indígenas, realizavam?

A gente falava com autoridades. A Funai não entendia, ficava só prometendo. Dizendo que ia tirar garimpeiro, sempre repetindo como o branco invadiu nosso País. O branco não descobriu. Nós, povos indígenas, já protegemos muitos anos. Chegou 1986. Grandes invasores entraram. O governo José Sarney e o presidente da Funai, Romero Jucá, derramaram o garimpeiro na terra na terra yanomami. Quarenta mil garimpeiros entraram na maloca Papiú. Eu me reforcei. Me encorajei. Vou lutar. Esse é direito meu.  Eu ia para lá, voltava para cá. Difícil deslocamento. Eu não tenho próprio transporte, não tenho recurso. Pagavam para mim.

O que você viu quando garimpo chegou na terra yanomami?

Garimpeiro desceu muito. Chegaram 40 mil, levaram avião, helicóptero, bebida, comida. E assim que aconteceu. Começou a adoecer meus parentes. Malária, tuberculose, doenças venéreas. O homem branco é cheio de doença. Sangue dele é contaminado. Os parentes morriam muito na cidade e na comunidade. Eu fiquei firme. Sem baixar a cabeça e acreditando na força da natureza.

Como você foi parar nas Nações Unidas?

O Ailton Krenak escreveu uma carta e enviou para os Estados Unidos, na ONU. A ONU recebeu e leu que yanomami estava morrendo. Que precisava de apoio. Em pouco tempo, chegou notícia boa do amigo Ailton. “A ONU recebeu a sua carta. Você está lutando sozinho”, me disse ele. Recebi o Prêmio Global da ONU. Esse prêmio abriu meu espaço, meu caminho. Eu saí do meu País. Fui primeiro para a Europa. Contei que o povo yanomami precisava da ajuda.

E como o governo brasileiro reagia?

O governo brasileiro queria esconder, deixar a gente morrer sozinho, sem ninguém saber. Eu que levei, em nome do meu povo, a notícia para outro mundo. Foi assim que me reconheceram, que foi se espalhando nos jornais. Tenho uma amiga, Cláudia Andujar. Pessoa muito corajosa, muito inteligente. Ela me levava para falar com os jornalistas. Foi assim que espalhou o nome do yanomami. Fizeram uma grande campanha no mundo inteiro, fizemos uma carta para o Governo Federal. O governo não queria deixar o índio sair do país, proibia porque tem medo.

O que você falou na ONU?

Tive oportunidade de falar tudinho que acontecia com meu povo. Disse que a ONU não era só pra olhar para Paris, Japão, Londres. Mas sim para olhar cidade e comunidade pequena. E olhar o povo yanomami. Pedi para a ONU conversar com o governo brasileiro para resolver a demarcação da terra. Eu queria resposta, não queria promessa. “Você vai resolver, você vai mandar?, eu disse. Eu andei muito, mas foi bom.

Na época, o governo brasileiro queria demarcar da terra yanomami em lotes, não era?

Quando foi homologado, o Fernando Collor me chamou em Brasília para entrar no palácio. Quatro yanomami foram lá. Registrou a terra como criança nasce. Esse documento não está comigo, está no governo. Mas não aceitei que fosse em lote. Eles queriam 19 ilhas, tudo pequeno. E o meio? Vai ser a estrada, vai encher de fazendeiro, garimpeiro. Eles queriam maloquinha. Onde íamos caçar, procurar comida, colocar um roçado? Eles queriam que yanomami ficasse em pequeno sítio. Yanomami precisa de caça: anta, queixada, catitu, peixe. Reclamei logo. Eu queria área única, contínua, grande.

E era assim que muita gente queria que fosse a Raposa Serra do Sol também, tudo em ilhas.

A Raposa Serra do Sol aprendeu com nós. Os macuxi aceitavam terra pequena, cheia de fazendeiro e arrozeiro. Mas depois os macuxi pensaram: “vamos lutar como o Davi lutou”. Eu disse que podia dar apoio, lutar com os macuxi. Lutamos até conseguir.

O que você acha da proposta de autorizar a mineração na terra indígena? Como vai ser aqui na sua terra?

A entrada da mineração em terra yanomami vai derrubar milhares de árvores grandes e pequenas. Os igarapés vão sujar tudo. Vai fazer buraco, muita gente vai morar, vai gostar do lugar, vai trazer suas famílias, empregados deles. Vai criar uma cidade pequena. Manaus era pequena. Agora cidade é grande. Grandes máquinas para nós representam os bichos, um monstro grande. E muita gente vai entrar, muitos países vêm para cá. Todo mundo quer pegar ouro, diamante e outras pedras preciosas. Os problemas aconteceram, vencemos, mas estão se repetindo. Agora o povo está comemorando. A luta vai continuar.

Por que você acha que o governo quer regulamentar a mineração?

Nós não queremos a regulamentação. Para que? O mundo está de olho, empresas.  Ando de Boa Vista para São Paulo e não há uma terra sem estar mexida, derrubada. Por que o governo não faz lá? Onde não tem índio. O governo só quer mexer onde tem índio. Em 2012, os políticos, os governos, o mundo geral, estão lutando. O governo rico, com bastante dinheiro e força, estão tentando mexer a terra yanomami. Eles estão unidos. Apoiam o governo Dilma. A Dilma não é amiga do índio. Ela é inimiga. Ela não conhece a nossa floresta, a nossa terra. Ela não conhece a realidade do povo yanomami, a beleza da floresta. Ela só conhece o papel, a lei. Mas ela não está enxergando. O pensamento dela é só pra destruir o subsolo.

E ainda tem o problema do garimpo ilegal.

Eu não estou conseguindo tirar os que já estão aqui. Nem a Funai. A Polícia Federal só se mexe quando índio está derramando sangue, recebendo tiro. Quando índio está vivo, ela não liga. Mas a nossa maior preocupação é com a mineração e com as empresas grandes. Já tem empresa interessada.

Davi, vamos falar sobre você um pouco. Onde você nasceu?

Eu nasci na cabeceira do rio Toototobi, a 60 quilômetros daqui dessa aldeia onde moro agora. A minha comunidade veio andando. Vem mudando. Meu povo é nômade. Depois vai descendo. Eu sou assim.  Quando eu era pequeno, eles mudaram. Não voltou mais.

Você fundou a aldeia Watoriki?

Aqui estou há 20 anos. Eu juntei eles (os índios), estava sendo criada a estrada de Manaus-Caracaraí. Fiquei aqui, trabalhando, com meu sogro Lourival. Hoje não tenho um lugar certo. Eu moro aqui, é minha casa. Quando criamos a Hutukara, com sede em Boa Vista (RR), ela fica na frente da comunidade. Fico na beira da rio Branco.

Perfil:

Nome: Davi Kopenawa.

Idade: 58

Atividade: Liderança do povo indígena yanomami e xamã.

Algumas premiações: Global 500 Award das ONU (1988) e menção honrosa especial do Prêmio Bartolomé de Las Casas outorgada pelo governo espanhol (2008).