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Amazônia
artigo robério

A relação histórica da Amazônia com seus rios

Na Amazônia, bem razão tinha Leandro Tocantins ao lembrar-nos, no clássico da sociologia,  que o “Rio comanda a vida” 26/05/2012 às 18:36
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Assim como acontece hoje, famílias inteiras iam à beira-rio para observar os estragos causados pela enchente de 1953
Robério Braga Manaus

Andava certo o festejado escritor Leandro Tocantins ao afirmar com conhecimento de causa que na Amazônia “o rio comanda a vida”. São as águas puras, negras ou barrentas, que beijam os beiradões perdidos na imensidão do verde da mesma forma que se abrem diante das cidades, carregam as alegrias e as dores de um povo bem brasileiro que cuida do maior patrimônio do planeta.

Água doce e boa para beber, que representa vida e que corre para os mares. Para o Mar Dulce como foi batizado o rio Amazonas, e para o oceano verdadeiro que arrasta nossas águas para bem longe. As águas de maio de 1953 marcaram a vida de muitos amazonenses e a história de Manaus. Não foram as de março, de que fala o poeta nacional, as águas emblemáticas para nossa terra.

Todos os anos esse mundo de água aumenta causando temor e apreensão, mas depois retorna ao seu leito normal, com paciência e generosidade, para dar de comer e de beber aos filhos do homem que viu nascer. De tempos em tempos arrebentam seus caminhos, sobem e descem de forma vertiginosa e assustadora, quase em explosão, e chegam a arrancar suas margens, tomar as cidades, transformar a paisagem, assustar o povo, quem sabe só para dizer que a harmonia e o equilíbrio precisam ser respeitados, que os peixes não vão faltar, que a vida vai continuar.

Foi por muitas vezes. Tem sido sempre assim. Uns anos mais do que outros, mas a cheia e a seca fazem parte da realidade de todos os amazonenses. Em 1909 e 1922 a subida das águas foi assustadora, e acima de 29 metros. Ainda maior foi a cheia de 1953, que em junho alcançou os 29.69 metros,chegando em 2009 ao limite de 29,77 metros, e essa de agora, que é maior, vai provocando muito sofrimento.

O simbolismo da cheia dos nossos rios ficou sempre por conta de 1953, aquela que marcou uma geração e empobreceu ainda mais o homem ribeirinho.

‘Havia de tudo um pouco...’
Era uma “tremenda e alarmante alagação... centenas ou milhares de humildes barracas já foram tragadas e destruídas pela impetuosidade das águas, deixando um sem número de pessoas ao desabrigo, sem lar, sem alimentação, sem nada, enfim ”, ressaltavam os jornais de forma emocionada.

Na Câmara Federal o deputado Paulo Pinto Nery apresentava projeto de lei para liberação de recursos extras do orçamento da União para o enfrentamento do problema. Pereira da Silva atacava as lideranças políticas ainda inertes, alertando para o caos que se avizinhava.

O Fomento Agrícola Federal liderado por Waldemar Cardoso e Geminiano Soriano da Silva procurava atender aos necessitados e oferecia panelas, mesas, cadeiras, farinha, arroz e tudo o mais que fosse necessário, trabalhando na linha de frente. O navio “arranca toco” era requisitado para atuar nos altos rios, serrando toras que desciam pelas ribanceiras e doando madeira aos pobres para a construção de marombas. Deputados federais visitavam as áreas alagadas.

A Associação Comercial se mobilizava. Havia de tudo um pouco:  Trabalho sério; oportunismo político; aproveitamento econômico da miséria; dúvidas e desconfianças. O que não faltava era gente fugindo da cheia, sofrendo, gemendo de dor, ficando com um só fio de esperança para animar a vida, esperança que só chegaria com a vazante dos rios.

Mas tudo que fosse feito era pouco. Havia muita promessa. Os dramas humanos se repetiam: um pobre homem ribeirinho foi arrastado por uma cobra no meio das águas turvas do rio; outro tentou por fim a própria vida, por desespero diante da grave situação. Foram muitas as cenas comoventes e dolorosas que a comissão da enchente presenciou. Às vezes a água e o fogo dominavam o cenário em conjunto, de uma só vez, como em certa plantação no Paraná da Eva.

Treze municípios foram devastados
A enchente de 1953 foi emblemática. A maior dos cinquenta anos anteriores e devastou 13 municípios amazonenses. Pelos dados oficiais 90 por cento da pecuária e da lavoura foram prejudicados inteiramente, porque de várzea. Os municípios de Coari, Tefé, Codajás, Manacapuru, Manaus, Itacoatiara, Itapiranga, Urucurituba, Parintins, Maués, Barreirinha e Borba, padeceram muito mais que outros.

Mais de 62 mil pessoas foram penalizadas pela cheia. Cerca de 80 mil bovinos sofreram gravemente ou foram perdidos. Próximo de 80 por cento da população avícola foi destruída. A cultura da juta tardia desapareceu, da mesma forma que o arroz da várzea, a mandioca, os bananais, o milho e o feijão. Faltou comida. Tudo era muito mais difícil.

As lanchas que estavam a serviço daquela luta não eram rápidas, e só podiam ser auxiliadas por canoas e motores de popa, em verdadeiro esforço de guerra. A lista de remédios usados foi grande,servindo a seres humanos ou animais. Foram quase 500 mil quilômetros quadrados de área alagada somente no Estado do Amazonas.

O trabalho era dobrado. Era preciso enfrentar os problemas causados pela cheia e, ao mesmo tempo, planejar e trabalhar nos preparativos para a vazante.

A paisagem de Manaus mudou completamente. A população ficou assustada. As águas do rio Negro invadiram ruas e praças recortando a paisagem urbana com outro desenho, sempre relembrado e muito parecido com o de agora, principalmente nas imediações do porto flutuante (que agora não flutua mais), e do mercado municipal.

Pontes e passarelas provisórias foram postas sobre as ruas. Os trilhos dos bondes foram recobertos pela água. As catraias trabalharam sem cessar nos Educandos, em São Raimundo e na Aparecida. Casas desabaram em São Raimundo. Foram criadas várias hospedarias como a da Sete de Setembro, a Duque de Caxias e a Colônia Agrícola.

A praça Oswaldo Cruz foi inundada.  Os armazéns do porto e a antiga Drogaria Fink foram lavados pelo rio. Os funcionários da Alfandega caminhavam sobre ripas de madeira para o trabalho. Os navios atracados no porto ganhavam ainda maior imponência, sendo vistos a larga distância em toda a sua estrutura. Manaus era quase uma Veneza, cercada de água em seus pontos e prédios principais, nas imediações do rio Negro. Botes a remo quase substituíram os ônibus como se fossem as gôndolas românticas venezianas.

É chegada a hora e entender os sinais
Não teria chegado o tempo de compreendermos que a água que carrega a esperança para o homem amazônico no lugar mais distante desse mundão de florestas é sempre a mesma que anuncia, de vez em quando, que é preciso cuidado com a própria vida e a natureza exuberante e bela. Não seria hora de conter a ganância e de cuidar melhor do planeta, de nós mesmos e de nossos filhos? Ou nada temos a ver com isso?

Se não for assim, vamos repetir 1953 quando Ministérios da República e órgãos do governo do Estado se reuniram para enfrentar a situação, agravada pelas condições de comunicação e transporte da época, que eram muito precárias.

Os municípios de Itacoatiara, Benjamin Constant e Manacapuru desde o prenúncio da cheia, começaram a tomar medidas de defesa.

Ajuda oficial
Getulio Vargas, o presidente, Álvaro Maia, o governador, lideraram as providências para o resgate dos alagados, o apoio financeiro, o financiamento visando àrecuperação das plantações. Mesmo assim o dia 1º de Maio foi de festa  e a Casa do Trabalhador criada por meu pai - Lourenço da Silva Braga - e um grupo de amigos, tratou de organizar uma vasta programação artística e social.

Terror da malária
No setor de saúde o  maior pavor era da malária. A vacinação contra o tifo e a varíola era realizada a todo vapor. Os médicos Ney Lacerda, Lupi Martins e Stanislau Affonso davam o sangue pelo povo. 

Jornalistas no front
Os jornalistas se organizaram em comissões na Associação Amazonense de Imprensa e foram para a rua em campanhade apoio aos “alagados”, com vários estudantes que assumiram a linha de frente: Francisco Queiroz, Alfredo Aguiar, Fred Benzecry, Reynier Omena, Francisco Batista, Milton Cordeiro, Doacir Fernandes.