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A saga dos ribeirinhos da Costa do Aruanã, no interior do Amazonas

Ribeirinhos arriscam a vida em canoa para chegar até a embarcação que passa no leito do rio. Peixe, farinha e frutas são levados para a cidade como meio de subsistência 02/09/2012 às 18:46
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Ribeirinhos da Costa do Aruanã, no Amazonas
Carlos Eduardo Souza Manaus (AM)

Eu e o repórter fotográfico Evandro Seixas estávamos em Manaquiri, distante 80 quilômetros de Manaus, capital do Amazonas para cobrir a final da Copa dos Rios, uma competição de futebol que envolve mais de 50 cidades do interior amazonense.  A final foi no sábado à tarde e pernoitamos na pacata cidade, que não tem muito opção em termos de restaurantes ou casa noturna, mas tem um povo hospitaleiro e apaixonado pelo futebol.

A ida foi numa lancha batizada aqui na Amazônia de “Ajato”. Com um motor d 410 cavalos, em menos de duas horas já estávamos no local do jogo. Mas a volta teve de ser no domingo pela manhã, pois, a única Lan House da cidade estava fechada e não havia como mandar o material da final para ser publicado.

Acordamos as 4h30 de domingo e embarcamos no navio motor Almirante Lima. A partida de se deu pouco antes das seis horas. A bordo as delegações de Coari, vice-campeã da Copa dos Rios e Eirunepé.

Sentamos num banco de madeira desconfortável e começamos a observar a atitude das pessoas, que aos poucos iam chegando em uma canoa de alumínio movimentada por um motor de popa de 40 de 40 cavalos.

O Evandro estava preocupado com o sol que nascia ardente e que refletia nas águas barrentas de um braço do Solimões, mas com aquela movimentação de pessoas chegando de canoa, Seixas passou a registrar a chegada e a dificuldade daquelas pessoas que ficam às margens do rio, aguardando o barco passar.

Patrick Souza, de 18 anos, é quem faz a coleta de mercadorias e ribeirinhos. Num domingo pela manhã, ele desatrela a canoa pelo menos 50 vezes para pegar passageiros, que nem sempre embarcam, pois preferem mandar a mercadoria sob a tutela do proprietário do barco.

“Trabalho aqui desde o ano passado. Tem dias que é assim mesmo. A gente não para. É o tempo todo pegando gente e mercadoria. Na volta  gente deixa os passageiros na margem porque, se a gente para o barco, perde muito tempo”, disse o piloto da lancha.

Encontramos Ana do Santos, de 88 anos. Ela disse que mora desde os cinco anos de idade na comunidade São Sebastião, no município  de Manaquiri. Tem seis anos que ela perdeu a visão. Já passou por uma cirurgia, mas não corrigiu o problema. Mesmo assim ela vai à Manaus para visitar os parentes.

Morar na beira do rio lhe traz felicidade, pois, segundo ela, é melhor viver no meio do mato do que na cidade grande, onde o trânsito e a violência a perturba.

“Eu já fui morar na cidade quando era mais nova, mas não me acostumei. Passei um ano lá em Manaus e voltei. Meu lugar é aqui. Temos o peixe, a farinha e as frutas regionais. Todos nossos filhos foram criados aqui e não me arrependo”, disse dona Ana, que desde pequena é chamada de Maria.

Aos poucos o barco vai enchendo. Parece ate que as pessoas são vizinhos, pois conhecem uns aos outros. Conversam sobre os mais variados assuntos, da política ao futebol. Aos poucos o barco vai saindo da Costa do Aruanã e entrando no rio Solimões, quando avistamos Manaus. O proprietário do barco passa recolhendo o dinheiro da passagem e, aqueles que embarcaram mercadoria paga um taxa que varia de três a dez reais, dependendo do tamanho da encomenda.

“Se está levando uma caixa de peixe nos cobramos dez reais. Mas a maioria a gente cobra a passagem somente. São pessoas humildes que estão levando uma mercadoria para vender e fazer dinheiro para o sustento da família. É um trabalho cansativo, mas compensa porque sabemos que um barco como esse serve de transporte para centenas de ribeirinhos”, disse Samuel Tadeu, gerente do Barco.

Ao chegar a Manaus o barco vai direto para o porto num bairro da zona sul, onde faz o primeiro desembarque. Depois segue para o centro da cidade, onde descarrega totalmente e se prepara para voltar no dia seguinte e, com certeza, a maioria das pessoas que no barco vieram vão retornar à Manaquiri.