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Amazônia
Entrevista

Modelo de negócio: Amazônia Real mostra a força do jornalismo empreendedor

Elas superaram a crise apostando no jornalismo empreendedor. Hoje, a criação de Kátia Brasil e Elaíze Farias, a agência Amazônia Real, se tornou referência e objeto de estudo no Brasil e no exterior 05/11/2017 às 13:40 - Atualizado em 05/11/2017 às 17:26
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Jornalistas Elaíze Farias e Kátia Brasil são as fundadoras da Amazônia Real (Foto: Márcio Silva)
Leanderson Lima Manaus

A internet tem oportunizado uma verdadeira revolução nos modelos de negócios em diversos segmentos. Na comunicação o cenário ainda é relativamente novo, mas bastante promissor, e um empreendimento bem sucedido começa a virar objeto de estudo no universo das startups. Trata-se da agência de notícias Amazônia Real, que tem como fundadoras as jornalistas Kátia Brasil e Elaíze Farias. Apostando em conteúdos que falam sobre as chamadas populações invisíveis - índios, ribeirinhos, quilombolas, pescadores, mulheres extrativistas - , Amazônia Real conseguiu dar visibilidade e voz às minorias, transformando-se em referência de jornalismo independente, no Brasil e no exterior. A reportagem do portal acritica.com conversou com as fundadoras da agência - que no último mês completou quatro anos de existência -, sobre jornalismo empreendedor, startups e muito mais. 

Como nasceu a ideia da agência Amazônia Real? Quando foi o começo de tudo?

Katia Brasil: Começou justamente no período em que nós fomos demitidas dos nossos empregos. Trabalhávamos na mídia tradicional por mais de 20 anos. Foi o ano de 2013, onde havia uma grande efervescência na política e na economia brasileira, com essa questão toda de crise econômica, insatisfação com o governo, aquela questão toda de ir pra rua, falar dos direitos do cidadão, mas também protestar contra a política brasileira. E neste momento, nas redações, estavam acontecendo os “passaralhos”, as demissões em massa dos jornalistas e a sociedade brasileira não tomou conhecimento disso. Desde o Sul, Sudeste do Brasil, ao Norte, milhares de jornalistas foram demitidos.

Elaíze Farias: Naquele momento (das demissões) eu fiquei na expectativa de: - Pra onde eu vou? O que eu vou fazer a partir de agora? Foi quando surgiu o convite das meninas (durante a fundação da Amazônia Real, a agência contou com a atuação da jornalista Liege Albuquerque) para fazer parte do projeto.

Katia Brasil: Nós não sabíamos o que íamos fazer de imediato. Sabíamos que era um site de jornalismo independente. Então fomos estudar quais sites que existem hoje no Brasil, assim dessa forma, ou em outros países da América Latina. Nos Estados Unidos existem várias iniciativas como a nossa, hoje, de mídia independente, ou mídia digital como muitos pesquisadores da comunicação falam. Dentro do Brasil, muitos especialistas começaram a dizer que este é um novo formato, o jornalismo empreendedor, que é feito pelos repórteres empreendendo, enfim, cuidando de toda logística, da produção.

Qual foi o passo seguinte?

Katia Brasil: Passamos três meses estudando, elaborando. No início pensamos em fazer um site de notícias, mas que já fosse legalizado, que fosse uma empresa, então abrimos uma microempresa. Fui estudar no Sebrae como cuidar das finanças, essa parte toda de empreendedorismo. A Elaíze foi cuidar do conteúdo, de temas relacionados à reportagem.

Elaíse Farias: Contamos com colaborações, com pessoas que nos ajudaram, nos apoiaram, inclusive voluntariamente. Foi toda uma construção. A gente se encontrava na casa da Kátia, que era o nosso escritório, nossa redação. No início reuníamos para decidir desde o nome do site ao assunto que seria abordado, quais seriam as editorias que a gente ia trabalhar; os temas, até porque éramos três, não dava para abrir um leque muito grande.

Kátia Brasil: Mas desde o primeiro momento, a gente pensou em dar voz às populações da Amazônia. A experiência que eu e Elaíze tínhamos nos jornais é que falar das minorias era muito difícil. Era difícil emplacar grandes matérias sobre os temas: índios, ribeirinhos, quilombolas, pescadores, mulheres extrativistas, todas essas populações que vivem na Amazônia, elas são desinteressadas de um modo geral da mídia. Pensamos em trabalhar com essas populações, e com a questão específica da Amazônia. 
No primeiro momento chamamos vários especialistas que aceitaram se tornar colunistas na hora. Eles topavam entrar no projeto e a gente sem dinheiro nenhum pra bancar eles... Mas a gente tinha, desde o início (a meta) de que todos os jornalistas que iam trabalhar com a gente, esses tinha que ser remunerados. Não podiam trabalhar de graça. Desde o primeiro momento tinhamos que ter isso em foco. Então trabalhamos muito por três meses para ter conteúdo suficiente para o site começar. Ficamos na dúvida para saber se a gente começava primeiro, se captava recurso primeiro, se ia buscar publicidade também... Chegamos a contratar uma pessoa de publicidade para captar com as empresas daqui recursos para o site já entrar com anúncios. A primeira ideia era isso, que a gente pudesse viver de anúncios e também captar doações dos leitores, que os leitores paguem por essa produção, mas não conseguimos. As doações foram bem poucas, e a publicidade nós não conseguimos nada. E neste aspecto nós tivemos a orientação do professor Rosental Alves, que é um brasileiro, jornalista, da Universidade do Texas (The University Of Texas at Austin). Nós tivemos uma conversa através de hangout. Desde o primeiro momento nós trabalhamos com as mídias digitais como forma de baixar o custo e ter uma rapidez na comunicação. 
Ele nos disse: - Vocês tem que fazer já (colocar o site no ar). As pessoas tem que saber o que vocês estão fazendo.

Como foi desbravar essa fronteira e se tornar um profissional empreendedor?

Katia Brasil: Eu fui estudar empreendedorismo no Sebrae. Não só como ter a informação de contabilidade, mas também como organizar as empresas, como fazer o plano de negócio, foi muito importante a parte do estudo. A parte de administração eu acabei tomando isso meio que pra mim. E isso é muito importante para o microempreendedor. Desde o primeiro momento o nosso site, a nossa agência é sem fins lucrativos, e ela é independente, e a palavra independente, ela vem porque nos somos independentes na linha editorial, nós não temos ingerência de nenhum órgão público, ou poder público, econômico, nós temos o financiamento do leitor, e também buscamos financiamento de instituições que apoiam o acesso à mídia, mas que também não fazem qualquer tipo de ingerência no nosso trabalho. Então a gente tem liberdade para trabalhar. E além disso, a gente defende a liberdade de expressão, o direito de imprensa, e os direitos humanos. 

Elaíze Farias: A Kátia se preparou financeiramente. Eu tinha uma pequena indenização (trabalhista). Mas ao mesmo tempo eu trabalhava. Eu não tinha nenhum trabalho fixo. Um trabalho convencional. Eu comecei a me desdobrar entre Amazônia Real, e alguns “frellas” que aparecia, que me mantinha também. E é claro que a gente apostava que ia conseguir. A gente apostava que ia conseguir recursos de publicidade, mas nós não conseguimos naquele momento. Na verdade foi muita coragem e ousadia.

Por não ter conseguido publicidade bateu algum momento de incerteza sobre o futuro do projeto?
Kátia Brasil:
Sim! Foi uma decepção.
Elaíze Farias: Surgiram algumas incertezas, sim.

Kátia Brasil: Contratamos uma publicitária à época e ela visitou mais de dez empresas aqui de Manaus mesmo, inclusive do distrito também. Eles (empresários) conheciam a gente como profissional, mas não conheciam o conteúdo. E falar da Amazônia também é uma coisa que o público que vive aqui, precisa entender. Por que não falar da Amazônia? Algumas pessoas nos questionaram: - Por que vocês vão falar só da Amazônia? Os animais, os índios... Porque é aqui que nós vivemos, essa floresta é nossa! Então se nós, que somos jornalistas, não vamos falar dela com textos de qualidade, com imagens de qualidade, com articulistas também escrevendo as várias questões da região, não teria nenhum sentido a gente fazer um site como tantos que surgiram neste período falando do cotidiano da cidade de uma forma mais urbana, ou então falando de política e tudo, então a gente percebeu que tinha um caminho a ser traçado, então nós investimos nesta ideia.

Parceria com a Fundação Ford permitiu a estruturação da Amazônia Real (Foto: Márcio Silva)

Como foi o início da parceira com a Fundação Ford?
Kátia Brasil: Foi a partir do primeiro ano, em 2014, que nós batemos à porta da Fundação Ford (Ford Foundation). Tem várias instituições que financiam a mídia digital e o acesso à mídia, então nós enviamos um projeto para a Fundação Ford, eles passaram seis meses analisando, depois destes seis meses nós recebemos a primeira doação. Esse recurso veio para o projeto de estruturar a rede de jornalistas, e estruturar também a nossa capacidade administrativa de trabalhar, de ter uma redação. Hoje temos colaboradores nos Estados do Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Pará, Maranhão, às vezes eventualmente temos no Mato Grosso, e Mato Grosso do Sul porque a gente acompanha o caso dos índios Guarani Kaiowá, e o nosso objetivo agora é chegar a Tocantins. Aí a gente vai conseguir fechar toda a rede de colaboradores. 
 

Elaíze Farias: Com recursos nossos pessoais, meu e da Kátia, que nós tínhamos, nós conseguimos sobreviver por dez meses, entre o início e o período em que a gente conseguiu o dinheiro da fundação. 

Kátia Brasil: Ninguém bateu à nossa porta.Elaíze Farias A gente teve coragem de enfrentar uma situação que muitas vezes estava até incerta. A gente nunca desistiu de recursos publicitários. A gente já tentou a segunda vez é muito difícil.

Kátia Brasil: A publicidade ainda não acordou para a importância da mídia independente no Brasil. A própria mídia tradicional ainda não nos trata como um novo jornalismo no Brasil. Ainda sobre essa questão de captação de recursos de financiamento, nós temos duas possibilidades de leitores doarem para Amazônia Real. Pela conta bancária que tá lá no site (amazoniareal.com.br). E pode fazer as doações também pelo PayPal, usando cartão de crédito. Com esses recursos de doações a gente mantém a parte de estrutura da agência para comprar pequenos equipamentos. 

A gente também mantém alguns serviços porque na verdade, além do jornalista, a gente arca com recursos também de produção de mapas, infográficos, a gente tem uma equipe de desenvolvedores, que cuidam da manutenção do site. 

Qual é o alcance hoje da Amazônia Real?

Kátia Brasil: Amazônia Real hoje é lido por mais de um milhão de pessoas no Brasil. É lido mais na região Sudeste do que aqui. Isso é uma questão que eu falo que o público da Amazônia ainda não se vê dentro da Amazônia. Então é importante que as pessoas mudem um pouco seu interesse pela própria região em que vivem. Tem que ter um olhar sensível para as questões daqui. Mais 150 países acessam o Amazônia Real, nós temos uma média de 70 mil views por mês. 

Neste período Amazônia Real conquistou prêmios e se tornou objeto de estudo como startup. Como foi isso?
Katia Brasil:
Nosso primeiro prêmio foi o Rádio Tube, concedido Rio de Janeiro. Ganhamos segundo lugar com a vídeo-reportagem “Aruká, o último guerreiro Juma”. Em 2016 concorremos ao prêmio The Bobs, que é concedido pela empresa Deutsche Welle. É um prêmio internacional, que é feito para jornalistas que trabalham na internet e defendem os diretos humanos. Conquistamos o primeiro lugar.

Em relação aos estudos, desde que Amazônia Real surgiu vários alunos de jornalismo, da área de comunicação social, pesquisam este tema do novo jornalismo brasileiro, ou jornalismo empreendedor, ou jornalismo de mídia digital.

Não só universidades daqui fizeram TCC, mas tem universidades do Sul, de Minas, Goiânia, do Pará que também já nós procuraram. 

A agência foi tema também de dois estudos voltados para a comunicação e publicados no primeiro semestre deste ano, são eles: “Ponto de Inflexão – Impacto, Ameaças e Sustentabilidade: Um Estudo dos Empreendedores Digitais Latino-Americanos”, da organização espanhola SembraMedia, que contou com o apoio da Fundação Omidyar Network; e “Comunicação no Centro da Mudança” de autoria da agência Juntos e Approach Comunicação, com sede no Rio de Janeiro.
As duas pesquisas analisaram as transformações por que passam os meios de comunicação no Brasil e na América Latina, provocada pela quebra do monopólio na produção e distribuição de conteúdo jornalístico pelos meios tradicionais. 

Qual o sentimento de superar tudo que vocês superaram e ter agora um empreendimento que é referência?
Katia Brasil:
Meu sentimento eu fico até confortável em responder a esta pergunta porque é aquele sentimento de defender o bom jornalismo, e a prática do bom jornalismo, não é difícil de fazer, as empresas de comunicação se elas não praticam um bom jornalismo é porque elas não querem investir nos profissionais, nem em boas reportagens, porque o nosso público, ele provou que jornalismo de qualidade ainda é uma forma de criar opinião e também dar o acesso ao cidadão às informações corretas, e isso é fazer cidadania, então é importante a referência. E é importante que principalmente os jovens, os estudantes que são os que mais nos procuram, eles tenham essa referência para fazer boas reportagens, escrever bons textos, enfim compartilhar com as futuras gerações que o jornalismo não acabou, o jornalismo está super vivo. Em 2013 se dizia que a profissão de jornalista ia acabar, e agente tá mostrando que não. Ela tá super viva! Tá se transformando. A gente conseguiu se transformar, se reinventar, mas o bom jornalismo sempre existiu e a gente vai manter isso até o final. Esse é o nosso grande trunfo