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Animais silvestres são ameaçados no igarapé do Mindu em Manaus

Biólogo afirma que 90% das espécies originais que habitavam ao longo do Mindu já desapareceram 08/07/2012 às 16:33
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Presença de animais como jacarés nas margens do igarapé é surpreendente
Leandro Prazeres Manaus (AM)

Jacarés-tinga, tracajás, socós, bodós e gaviões. Em princípio, quem navega pelas águas do igarapé do Mindu se depara com uma variedade de fauna difícil de ser encontrada em grandes metrópoles. Mas a impressão de que as coisas vão “bem” apesar da poluição não poderia estar mais equivocada. Segundo especialistas, pelo menos 90% das espécies nativas de peixes, por exemplo, já desapareceram do Mindu e um fenômeno parecido pode estar acontecendo com as aves. Em que pese as aparências, a natureza não está impune.

A bacia do igarapé é a mais extensa da área urbana de Manaus. De acordo com o biólogo Jansen Zuanon, especialista em ictiofauna (peixes), o aumento do despejo de esgoto  ao longo das últimas décadas fez com que 90% das espécies originais simplesmente desaparecessem. “Todo esse lixo e esgoto mudou a composição química da água. Com o tempo, as espécies nativas foram desaparecendo, já que elas estavam acostumadas, há milhares de anos, com um determinado tipo de água”, diz Zuanon.

Mas se os peixes nativos desapareceram, como explicar jacarés-tinga cada vez mais “gordos” ao longo de todo o igarapé? Zuanon explica que junto com o desaparecimento das espécies nativas do  Mindu, que tem uma água com características semelhantes à do rio Negro, outras espécies, estas próprias de ambientes de água barrenta, como o rio Solimões, passaram a ocupar o igarapé. “É por isso que a gente encontra os bodós, tamuatás,  e acarás. São esses peixes que servem de base para a alimentação dos jacarés, por exemplo”, afirma.

Zuanon explica que o aumento de carga orgânica (esgoto doméstico) no igarapé propicia o crescimento de águas que acabam servindo de alimento para pequenos peixes. Essa “explosão” nos níveis de “vida” no igarapé, no entanto, está longe de representar um fenômeno positivo. “Estamos falando de igarapés que tiveram suas populações de peixes, por exemplo, completamente alteradas. Não sabemos os efeitos disso no futuro”, alerta.

Aves

O ornitólogo Ricardo Almeida estuda as aves que vivem no Parque Municipal Nascente do Mindu e em regiões próximas desde 1994. Ele vem trabalhando em um artigo científico avaliando o declínio na variabilidade de espécies que habitam o curso d’água e suas constatações são alarmantes. Segundo Almeida, houve um declínio de 60% nas espécies que viviam nesse ecossistema.

“A região do igarapé ainda é uma área rica em biodiversidade, mas isso vem diminuindo ano após ano. Além da redução das espécies nativas, a degradação dessa região pode afetar a vida de espécies migradoras, como o falcão peregrino (Falco peregrinus) e a andorinha-azul (Progne subis)”, diz.

Ricardo Almeida afirma que no caso das aves, além do esgoto e do lixo despejado no igarapé, uma outra ameaça é a ocupação desordenada das margens. “A gente vem percebendo um aumento no número de empreendimentos imobiliários no entorno da bacia. Essas construções desmatam e retiram o habitat dessas espécies”, diz.

Três perguntas para

Jansen Zuanon, biólogo do Inpa

1  Mesmo com toda essa poluição, como explicar que a fauna ainda resista ao longo do igarapé?

Na realidade, ela não resiste tão bem quanto se imagina. Em igarapés como o Mindu, por exemplo, houve uma perda de quase 90% das espécies nativas e a substituição delas por espécies de outros rios, como os bodós, tamuatás e acaris típicos de água barrenta.

2  Como avaliar o tamanho da perda biológica causada pela poluição nesses igarapés?

É muito difícil avaliar. Nosso trabalho é quase o de montar um quebra-cabeças porque o processo de degradação desses igarapés foi tão rápido que nós não tivemos tempo de fazer um inventário das espécies que havia antes disso tudo acontecer. O que fazemos é comparar esses ambientes degradados com outros que ainda não foram e que têm as mesmas características. É muito triste o que temos aqui.

3  O que está sendo feito neste momento para medir o impacto desse processo?

Nós temos um projeto, o Projeto Igarapé, que vem fazendo monitoramentos constantes sobre essa situação. Hoje, nosso foco está voltado para os igarapés do entorno da Reserva Ducke e do Puraquequara, que ainda são regiões preservadas, mas que estão sofrendo pressão demográfica em Manaus.