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Após conflitos em reintegração de posse, invasores prometem retornar ao local, no Distrito

Homens e mulheres que perderam os barracos, destruídos por um trator, disseram que não têm para onde ir e que, por isso, assim que as forças policiais deixarem o terreno, vão voltar a invadir.  Delegado disse que trabalho de investigação feito na invasão será encaminhado ao CAO-Crimo e DRCO 17/04/2015 às 10:33
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Batizada de comunidade “José Melo 2”, os ocupantes estão instalados improvisadamente numa área de mais de 160.000 m²
Luana Carvalho Manaus (AM)

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Os invasores de uma área de 160 mil m2, destinada à expansão do PIM, no Distrito Industrial de Manaus, já planejam o retorno à comunidade batizada de "José Melo 2", onde polícia cumpre reintegração de posse desde a manhã desta quinta-feira (16)

“Eu fugi da enchente no Careiro Castanho (a 102 quilômetros de Manaus) em busca de uma oportunidade. Resolvi invadir porque não acho justo ver pessoas que não necessitam sendo contempladas com apartamentos dos programas de habitação e nós, que precisamos, ficarmos na miséria”, desabafou a dona de casa Gilda Ferreira, 35, que paga R$ 400 de aluguel no bairro Nova Vitória, Zona Leste.

De acordo com Gilda, ela não precisou pagar para demarcar o lote. “Pode até existir uma quadrilha, mas eu garanto que mais de 50% das famílias que invadiram necessitam. Eu não paguei um centavo para ninguém, e nem vou pagar. Mas também não vou desistir. Quando eles saírem, eu vou invadir de novo”, completou.

Assim como ela, outros ocupantes estão determinados e prometem resistência. Com cinco filhos, a empregada doméstica Maria Marly Brito, 48, também mora de aluguel e lamentou a reintegração. “Meu sonho era ter uma casa própria. Eu mesma estava construindo minha casa de madeira. Mas eles derrubaram”.

Violência

A reintegração foi marcada por vários momentos tensos e violentos, que cessaram por volta das 11h quando uma forte chuva afastou os ocupantes. Antes,  alguns jovens jogaram pedras na guarnição. Policiais do Batalhão de Choque apontavam as armas para os adolescentes e disparavam tiros de bala de borracha e bombas de gás lacrimogêneo.

 A multidão se escondia atrás de carros ou em casas de moradores. O representante do Comando de Policiamento Especial (CPE), capitão Paulo Padilha, comentou sobre a ação. “De início foi pacífico, mas por volta de 7h30 eles começaram a obstruir a rua e foi necessário o uso progressivo da força, com material químico e armas não letais”.


De acordo com o comandante, ainda não há uma previsão para o término da reintegração. “A ação vai durar até que a última família seja retirada. A PM vai ficar aqui até que as terras sejam entregues aos proprietários”, ressaltou.

Repercussão

 A ação da polícia foi criticada por moradores da comunidade. Na internet, as opiniões se dividiram. A internauta Fabíola Borges Pinto escreveu: “ausência do Estado completa! Como uma invasão dessa magnitude acontece e ninguém faz nada antes da devastação da área?”.

“Onde estão as políticas de habitação desse Estado?”, escreveu  Analú Vieira em um dos comentários do portal acritica.com.

Já Elcio Ferreira defendeu a estratégia da polícia. “A polícia tem que agir com rigor, principalmente contra os líderes de todas as invasões no nosso Estado. São um bando de bandidos”.

Polícia investiga quadrilha

Delegado do Gabinete de Gestão Integrada da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), Frederico Mendes informou que a polícia está trabalhando na identificação dos líderes das invasões. “Vamos reunir as informações junto aos órgãos competentes e devemos encaminhar ao Centro de Apoio Operacional de   Combate ao Crime Organizado (CAO-Crimo) e ao Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO)”.

De acordo com o delegado, os suspeitos cometem crimes ambientais, estelionato, extorção, esbulho, entre outros. “Vamos investigar para junto ao poder judiciário pleitearmos prisões. Enquanto não houver isso, vão continuar com as invasões.


Frederico também fez um alerta aos compradores de lotes. “Queremos informar que esta prática é um crime e as pessoas devem ficar conscientes disso”. Segundo o delegado, os ocupantes compram terrenos de R$ 300 a R$ 2 mil. “As pessoas se arriscam e perdem dinheiro. Elas precisam pagar aos líderes e até pela água nessas invasões”.

Movimento

O representante de ocupação do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), Jailes Pimentel, disse  que apoia os ocupantes, embora a estratégia utilizada pela organização seja diferente. “Nós optamos por fazer nossas ações em imóveis públicos porque há uma possibilidade real para que a solicitação para uso de habitação e interesse social seja atendida”.

O movimento aderiu às ações realizadas por todo o Brasil em defesa ao direito à moradia e reforma urbana e ocupou, na última quarta-feira, um prédio da Superintendência do Patrimônio da União (SPU), na avenida Umberto Calderaro, no bairro Adrianópolis, Zona Centro Sul. Aproximadamente cem famílias estão no local.

De acordo com Jailes, há um grande déficit de moradia na capital. “O último levantamento apresentado no seminário nacional promovido pela Defensoria Pública, pelo menos 150 milde Manaus vivem em áreas de risco, moram de aluguem ou em imóveis cedidos.