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Após quatro anos no cativeiro, cinco peixes-bois vítimas da caça retornam à natureza

Animais, cuja espécie está na lista de ameaçados de extinção, foram resgatados após quase serem abatidos por pescadores no Amazonas 21/08/2012 às 14:00
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Peixes-bois libertados em Amanã
Elaíze Farias tefé e Maraã (AM)

O mundo de Piti, Negão, Alagoilton, Jovenal e Benguela deixou de ser um pequeno curral fluvial para se transformar numa vastidão de água com plantas aquáticas fartas. No início da tarde do último sábado (18), os cinco peixes-bois saíram do cativeiro de 8x4 metros de largura e 1,5 de profundidade no Lago Amanã, no município de Maraã (a 634 quilômetros de Manaus), para retornar ao ambiente natural.

Os animais estavam há quatro anos no Centro de Reabilitação de Peixe-Boi Amazônico de Base Comunitária do Instituto Mamirauá, o Centrinho, recebendo acompanhamento e tratamento de pesquisadores do órgão de pesquisa Instituto de Desenvolvimento Mamirauá e carinho de comunitários que se apegaram aos animais de tal forma, que muitos deles não conseguiam esconder sua tristeza pela separação no dia da soltura.

Cabe aos cinco peixes-bois, a partir de agora, cuidarem de si, procurar comida e ser habilidosos para escapar de arpões e redes de pescadores. A nova casa dos cinco peixes-bois são os igarapés e lagos da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, entre os municípios de Tefé e Maraã, vizinha da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na região do Médio Rio Solimões, no Amazonas.

O local da soltura foi o Igarapé Juá Grande, a 25 minutos de lancha de onde está localizado o curral do Centrinho.Habituados a um espaço muito restrito, os cinco peixes-bois (cuja idade vai de cinco a dois anos) ficaram desconfiados. Sob o olhar atento e apreensivo dos pesquisadores e comunitários, que se esforçavam para fazer o menor ruído possível, os peixes-bois levaram até cinco horas para sair do cercado de contenção.

Uma hora depois do cercado provisório ter uma de suas telas cortadas, sendo este o sinal para que os animais saíssem, os peixes-bois ainda permaneciam no local. Piti, enfim, foi o primeiro a sair. Seguido muito tempo depois por Negão, Alagaoilton e o “casal” Benguela e Jovenal.

Tristeza

Olavita Balieiro Brasil, 48 anos, é uma das moradoras das comunidades localizadas nas duas reservas que trabalham junto com os pesquisadores e responsável pelo cuidado e pelo processo de reabilitação dos animais. Junto com ela, Maria do Carmo de Lima, Antônio Barbosa e Luiz da Silva são alguns dos comunitários que colaboram diretamente com os pesquisadores, procuram todos os dias capim nos lagos para a alimentação dos adultos e dão leite na mamadeira aos mais novinhos que ainda permanecem no Centrinho.

Horas antes da soltura dos peixes-bois, Olavita, que cuida dos bichos desde a chegada do primeiro (Piti), estava tristonha e abatida, mas reconhecia que o lugar destes mamíferos aquáticos é a natureza, apesar dos riscos e da ameaça de extinção. Seu maior temor é que os animais sejam abatidos por pescadores caso se enrosquem nas malhadeiras.

“Alguns deles, como a Benguela e o Jovenal, chegaram doentinhos e magrinhos. A gente dava mamadeira, cuidava com carinho. Por isso espero que as pessoas respeitem os bichos. Eles terão um rio todo. Espero que sejam felizes e que fiquem juntos”, comentou Olavita, que será uma das três pessoas responsáveis pelo monitoramento diário dos animais, por meio de sondas e antenas conectados aos cintos colocados próximo do rabo dos peixes-bois.


Monitoramento

Já era quase início da noite, quando Miriam Marmontel, chefe do projeto de Conservação de Vertebrados Aquáticos (Aquavert) do Instituto Mamirauá, e o veterinário Augusto Boaviagem, os únicos pesquisadores que continuaram no local para acompanhar a saída dos animais, retornaram a uma das bases da instituição, localizada no Lago Amanã. Uma hora depois, retornaram Olavita e outros dois educadores ambientais, responsáveis pelo monitoramento. Pelo menos naquele sábado, os cinco animais escolheram ficar próximos uns dos outros, circulando e explorando uma área específica do lago, segundo relatos de Olavita.

“Eles terão um mundo para explorar. Certamente vão fazer alguns deslocamentos até escolherem a área onde vão ficar, que será alguma fonte rica de alimentação. A gente vai ficar junto, monitorando”, disse Miriam Marmontel.

Agora, o Centro de Reabilitação de Peixe-Boi Amazônico de Base Comunitária do Instituto Mamirauá, mais conhecido como Centrinho, tem apenas dois moradores: Japurá e Helena, de pouco mais de um ano. Estes dois peixes-bois, também resgatados após serem atingidos por arpões, estão sendo tratados em um tanque, ainda em fase de amamentação.

Resgate

Esta história de dedicação e trabalho para salvar os animais vítimas da caça e da desinformação, começou em 2008, quando foi criado o Centrinho, localizado no Lago Amanã, em Maraã.

O Centrinho não era um projeto que fazia parte do Aquavert, pois este surgiu para dedicar-se a pesquisas de animais em ambientes naturais. Ele foi criado para atender a uma demanda que exigia a urgência dos pesquisadores em fazer alguma coisa pelos filhotes resgatados por funcionários do Ibama ou do Batalhão Ambiental ou por meio de denúncias de comunitários.

A oceanógrafa Míriam Marmontel, especializada em pesquisa de peixes-bois marinhos e fluviais e que está no Instituto Mamirauá desde os anos 90, lembra que a primeira experiência em devolução de animais resgatados aconteceu em 2000, quando um macho foi solto e foi monitorado durante seis meses. Acredita-se que tenha sido bem sucedido, pois verificou-se que ele fazia uma rota migratória considerada comum entre a espécie.

Outro macho e uma fêmea que estavam sob os cuidados dos pesquisadores, contudo, morreram antes de serem soltos. Ela, muito apegada ao que foi solto, amanheceu morta. O outro desenvolveu uma doença de pele.

Naquela época, porém, o Centrinho ainda não havia sido criado e a prática era muito recente. Não havia equipe especializada, sobretudo de veterinários, para o acompanhamento, e tampouco recursos para investir na logística, possível apenas a partir de 2010, quando a Petrobrás entrou com financiamento graças a um edital vencido pelo Aquavert.

“Como pesquisadores, a gente tem um trabalho forte com pescadores para tentar sensibilizá-los e fazê-los entender a magnitude do problema na região. Acontece que além da caça, surgiu outro problema, que são os vários filhotes que ficam presos em redes. Um animal adulto consegue quebrar e fugir da malhadeira, mas os filhotes não, apesar da mãe ficar por perto”, explica Miriam.


Filhotes

Com receio de aumentar a já superlotada estrutura do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), cuja sede é em Manaus, e que possui um trabalho de tratamento e reabilitação de peixes-bois, o Instituto Mamirauá decidiu desenvolver o seu próprio trabalho e receber os filhotes que chegavam.

“Não era a nossa missão ter animais em cativeiro. Depois dos três primeiros, ficamos um tempo sem animais e voltamos a nossa ação para os animais nativos. Mas o problema continuou aumentado. Pensamos em transportar os animais até Manaus, mas ali já estava ficando superlotado. Já havia uma ideia (de reabilitação) na cabeça. Foi quando surgiu o Piti. Ele ficou um tempo em Tefé, acuado, e foi o tempo que a gente teve para desmanchar uma piscina que estava em Mamirauá e trazer para o Lago Amanã. Ele foi a primeira experiência do Centrinho”, conta a pesquisadora.

Arredios

Uma das preocupações dos pesquisadores, veterinários, educadores ambientais e comunitários que cuidaram dos peixes-bois é como os animais vão se comportar e que mecanismos de defesa utilizarão para fugir das armadilhas.

Nos últimos tempos, para que os animais passassem a adotar uma atitude de estranhamento e ficassem mais arredios, os pesquisadores reduziram o tempo de contato com os peixes-bois para que, na vida natural, percam o hábito de ficar próximos dos humanos. A medida foi diferente do que faziam anteriormente, quando eles ficavam mais próximos dos animais para realizarem o tratamento e dar a alimentação.

“É diferente de um animal que teve todo um aprendizado com a mãe. Desde que eles saíram da amamentação, a gente promoveu um distanciamento maior. Ultimamente, quando eles tentavam se aproximar, a gente começou a fazer gestos para que eles tivesse alguma reação negativa e ficassem mais arredios. Depois que pararam de se alimentar de leite e a comer só capim, eles naturalmente se escondem debaixo das plantas”, explica a pesquisadora.

Rádio

Durante dois anos, que é o tempo de vida útil do equipamento (duas antenas e uma sonda) ligado a um rádio transmissor nos cintos dos animais, o deslocamento dos peixes-bois será acompanhado em sua nova vida. A exceção é Alagoilton, cuja espessura do rabo não foi suficiente para receber o cinto. 

“A gente já testou uma tecnologia mais avançada por satélite. Até transmite o sinal bem, mas para funcionar, a antena precisa estar sempre disponível para quando o satélite passar. Da maneira como está, o cinto tem uma anteninha pequena cujo sinal consegue atravessar a água para que a gente capte. Mas isso será um esforço muito grande, de a gente ficar procurando todos os dias”, explicou.

A escolha do lago onde os animais foram soltos não foi aleatória. O local reúne uma grande concentração de outros peixes-bois no período da seca e é também uma das áreas mais profundas da região. A época da vazante é quando os animais ficam mais vulneráveis. Outra proteção são os lençóis de capim (matupá) e as restingas, debaixo dos quais eles podem se esconder.

Cuidados

Nos quatro anos em que ficaram no cativeiro, os animais passaram por diferentes etapas de cuidados, acompanhamento médico e alimentação. Até os dois anos, eles foram amamentados com leite, por meio de uma mamadeira especial, que permite que os animais mamem debaixo d´água, semelhante como fazem os filhotes na natureza. 

Passado este período, a alimentação foi limitada a capins dos lagos e rios, como mureru e canarana.

O Centrinho tem condições de receber novos filhotes resgatados, mas o sonho dos pesquisadores era de que isso não fosse mais necessário. “A gente espera que o trabalho de conscientização dê resultado. A melhor solução é que, se o animal cair numa rede, se libere imediatamente, porque a mãe está por perto. O problema é quando ele é arpoado ou se fica órfão”, explicou.

Petrobras

O projeto Aquavert desenvolve pesquisas também com jacarés e quelônios. Recebe recursos do Petrobrás desde 2010. Segundo o gestor de Projetos do Programa Petrobras Ambiental, Luiz Flávio Magalhães, que assistiu a soltura, o financiamento tem duração de dois anos e, “se for bem”, a Petrobrás pode reeditar por mais dois anos. “Algumas ações atrasaram, então a gente vai aditar o projeto por mais um período e depois analisar”, disse.


História dos peixes-bois

Piti – Foi o primeiro a chegar no Centrinho, mas antes passou uma temporada em Tefé, até ser levado para o Lago Amanã. Piti havia sido atingido por arpão. É considerado o peixe-boi mais tranquilo do grupo adulto. Tem cinco anos.

Alagoilton – É o peixe-boi mal humorado. Tem aproximadamente quatro anos. Estava em poder de um comerciante que havia comprado o animal em uma feira, em Tefé. Ele doou o animal para o Instituto Mamirauá. Alagoilton sempre foi genioso o único que nunca aceitou a mamadeira. O leite era dado por meio de uma sonda esofágica.

Negão – Estava sendo criado por uma família de comunidade indígena, após ser encontrado em um lago, meio encalhado. Sua origem, porém, é incerta. O animal foi resgatado por fiscais do Ibama, que o encaminharam para o Mamirauá. Tem aproximadamente três anos.

Benguela e a Jovenal – Chegaram juntos, após serem resgatados em locais distintos. Benguela teve um grave ferimento nas costas, mas recuperou a saúde. Jovenal foi encontrado preso em uma rede de pescador e escapou do abate.