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Araras silvestres voltam a embelezar os céus de Manaus

A população de arara-vermelha-menor começa a crescer na zona urbana da capital amazonense, surpreendendo especialistas 23/12/2012 às 12:14
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Casal de arara-vermelha-pequena, moradores do Inpa
Elaíze Farias ---

Manaus perdeu há muito tempo suas densas florestas, mas vem conseguindo atrair uma espécie da fauna silvestre que embeleza os galhos de árvores e os céus da capital com sua vistosa plumagem vermelha, azul e amarela: a arara-vermelha-menor – ou araratinga (Arara macao).

Pertencente à família dos Psitacídeos, a arara-vermelha-menor não é comum em terra firme. Sua população concentra-se em regiões de várzea, mas curiosamente há registros recentes dessa espécie em plena zona urbana da capital amazonense.

O avistamento diário da arara-vermelha-menor (cujo tamanho na idade adulta atinge até 80 centímetros do bico à ponta do rabo) na cidade ainda é privilégio de poucos e sensíveis olhos. Para um observador leigo, a presença não chama muita atenção, mas olhos acostumados e treinados já perceberam um aumento da população dessa espécie da cidade, mesmo com a ausência de estudos científicos que atestem esse crescimento.

Robson Czaban, analista ambiental do setor de fauna do Ibama, já cruzou e se acostumou com a imagem recorrente de seis casais (contabilizados por ele) circulando na cidade, se deslocando de mata em mata, seja para comer seja para dormir. “Antes não se via muito porque a cidade não é, teoricamente, apropriada para elas. Era mais comum encontrá-las na mata da Reserva Ducke ou do Cigs”, conta Czaban.

Há registros de arara-vermelha-menor também no Parque do Mindu e na floresta do campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e até em fragmentos florestais da avenida das Torres.

“Há dez anos era difícil ver essas araras em Manaus, apenas em locais afastados. Elas preferiam ficar em área verde próxima da cidade. Essas de agora acharam interessante ficar aqui. Provavelmente por três fatores: disponibilidade de alimentos (fruta, sementes e animais pequenos), água, abrigo e ausência de predadores”, destacou.

Por que a arara-vermelha-menor escolheu Manaus para viver? Czaban diz que essa é uma pergunta “complicada de responder”, mas ele tem algumas hipóteses. Ou os bichos da mata estão voltando a ocupar a cidade ou esses indivíduos podem ser crias de animais que haviam sido resgatados e reproduzidos em cativeiro, anos atrás. Ou mesmo filhos de “algum animal que fugiu de criadouro”. Seja como for, as atuais araras que sobrevoam Manaus são consideradas silvestres, mesmo vivendo em área urbana.

Adaptação

(Foto: Diogo Lagroteria/Free Lancer)

O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Mário Cohn-Haft, autor do livro “Aves da Região de Manaus”, diz que ainda não percebeu “um crescimento significativo” de arara-vermelha-menor na capital, mas admite que já avistou algumas espécies sobrevoando a cidade, o que não ocorria até pouco tempo atrás, e a tendência é que a população de araras cresça.

Para o pesquisador, a população pode ser descendente de animais que estavam no cativeiro e que foram soltos após passarem por processos de reabilitação no Inpa. Ao mesmo tempo, pode ser uma população vinda de área de várzea que se agregou aos antigos animais reabilitados que se tornaram silvestres.

“Manaus é um ambiente propício mais para a arara-vermelha-menor do que para a arara grande, que era a espécie que ocorria aqui antes de virar cidade. Quando a área daqui era mata, a arara-vermelha-grande era mais comum porque é uma espécie da terra-firme. À medida que aqui foi sendo desmatado, a arara-grande foi se afastando”, diz.

Enquanto uma espécie se afasta, outra decide voltar. Para Cohn-Haft, a arara-vermelha-menor conseguiu se adaptar a uma vegetação mista, com áreas arborizadas (arbustos, jardins, pastos), mas não florestais. Esse tipo de vegetação tem uma estrutura mais parecida com a encontrada na várzea, diz o pesquisador.

“A gente perdeu a arara-vermelha-grande e a arara canindé. Em compensação, está tendo uma colonização de araras vermelhas menores que está se adaptando na cidade. Espero que essa matéria desperte nas pessoas o tanto que a gente tem de privilégio de ver animais bonitos dentro da cidade. É um privilégio você estar numa cidade onde se pode ver um bando de arara passando por cima do carro”, observa Mário Cohn-Faht

Origens

A população de arara-vermelha-menor silvestre em Manaus pode ter duas origens: a junção de bandos selvagens com filhotes (que cresceram) de animais resgatados e mantidos em cativeiro no Inpa.

Entre 1998 e 2004 o Inpa atuou na reabilitação de várias araras, entre animais doados e vindos de cativeiro. Poleiros foram construídos e os animais podiam circular pela copa das árvores até o crescimento das penas - muitos deles tiveram suas penas aparadas pelos antigos “donos”.

O veterinário e pesquisador do Inpa, Anselmo d´Affonseca, conta que cinco casais reproduziram mais de 30 filhotes. O processo de reabilitação e captura acabou em 2004 por diferentes motivos. Um deles foi a falta de um controle mínimo dos animais que foram para fora do Bosque da Ciência.

Os pesquisadores também ficaram preocupados com os filhotes capturados por pessoas de áreas vizinhas e com os casos de morte por cerol de papagaio e até por tiro de espingarda.

“Acredito que a maioria deva ter acompanhado os bandos de araras selvagens que passam na região principalmente nessa época (entre novembro e março). Tínhamos informação dos nossos animais se alimentação nas áreas da Ufam, Tiradentes, Coroado, Morado do Sol, etc. O que demonstra claramente a independência gradativa em relação ao alimento fornecido por nós aqui no Inpa. Isso provavelmente favoreceu que os animais nascidos ou soltos no processo pudessem acompanhar os bandos
selvagens”, explica.

Fauna de Manaus

Duas espécies de araras já moraram em Manaus, mas desapareceram da região por perda de vegetação: arara-vermelha-grande e arara canindé.

A espécie escolhida para estampar o cartaz de Manaus para Copa de 2014 é a arara-vermelha-grande, que não circula mais na capital.

O sumiço dos buritizais de Manaus fez com que a arara canindé fosse procurar outras áreas verdes ao redor. A palmeira é o habitat natural dessa espécie. A canindé continua morando fora da região urbana, onde ainda é abundante buritizais.

Uma pesquisa coordenada por Cohn-Haft identificou 137 espécies diferentes de aves vivendo em Manaus e seus arredores.

Entre as espécies mais conhecidas estão o bem-de-vi, o curió e o bigodinho. Também tem sido comum o periquito de asa branca e o periquito estrela.

Entre as espécies mais surpreendentes que vivem em Manaus estão a araracanga, o maracanã do buriti (ararinha), as surucuá de barriga amarela e a ariramba (Martim-pescador grande).

Os psitacídios, grupo do qual faz parte a arara, são considerados animais muito inteligentes e donos de excelentes memórias.