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“As pessoas influenciam as mudanças do clima”, diz diretora do Inmet

Chefe do 1º Distrito do Inmet defende investimento em  pesquisas  para que se descubram “verdades que todo mundo quer saber”em relação aos fenômenos de tempo e clima que afligem a humanidade 10/03/2012 às 16:58
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Diretora da Inmet - Lúcia Gularte
Elaíze Farias Manaus

A previsão climática no Amazonas é de chuva acima da média pelo menos até junho. O fenômeno meteorológico La Niña (resfriamento do Oceano Pacífico), principal causador desta anomalia climática, entrará em declínio em abril, mas seus reflexos vão perdurar nos meses seguintes.

Nesta entrevista, a chefe do 1º Distrito do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Lúcia Gularte, diz que o fenômeno La Niña já chegou a um ponto de inflexão e explica os efeitos com uma metáfora. “Você fuma durante 20 anos e de repente para de fumar. Ainda assim vai sentir os reflexos do cigarro um bom tempo. Na atmosfera é a mesma coisa”.

O que virá depois, somente após uma nova análise dos órgãos meteorológicos nacionais e internacionais, marcada para acontecer nos próximos meses.

Desde que o fenômeno se intensificou no Amazonas, em setembro do ano passado, dois terços dos 62 municípios do Estado tiveram chuvas acima da média. Muitos registraram o dobro de chuvas médias, condição que ainda não se encerrou na maioria deles. E volume de chuva elevado tem consequência direta no nível dos rios, como alerta a meteorologista.

Para Lúcia Gularte, é cedo para fazer uma análise global, mas é fato que a atmosfera está fugindo da normal climatológica e isto pode sim, ser chamado de “bagunça no clima”. Leia a seguir trechos da entrevista:

Por que está chovendo muito no Amazonas?
Há um ano foi previsto o La Niña. A novidade talvez seja a intensidade. Embora a partir do final de março a tendência é que o fenômeno perca força, mesmo assim nós sentiremos os reflexos deste fenômeno pelo menos até junho. Na atmosfera as coisas são mais demoradas. Os efeitos aqui no Amazonas são chuvas acima da média.

O período de chuva ocorre normalmente nos meses de janeiro a abril. Mas ultimamente está mais intenso...
O período chuvoso ocorre em Manaus entre final de outubro até maio. Isso é normal. Só que este período (ano) está mais chuvoso que a média. Sendo que em vários municípios do Amazonas choveu o dobro do esperado. E estão excedentes justamente pela influência do fenômeno La Nina. São nuvens carregadas com grande quantidade de água.

Este volume de chuvas pode provocar uma cheia de grande porte?
Sim. Não sei se será a maior, os especialistas podem dizer. Ainda tem março, abril e maio. Mas se depender das chuvas, poderá causar sim.

Onde tem chovido com mais intensidade?
Desde setembro do ano passado, chove com bastante intensidade em cidades da Venezuela, do Peru, do Acre e no Sul do Amazonas. São chuvas acima da média. A tendência é de continuidade. Isso se deve ao La Niña, que faz com que venha mais ventos quentes e úmidos para a Amazônia. Chove o maior número de dias e com mais volume. Por isso causa uma grande cheia: devido aos volumes.

Esse excedente é de quanto e por quanto tempo ele deverá durar?
Até maio teremos chuvas em torno de 30% a 40% acima da média. Nos municípios do interior as chuvas foram acima da normal climatológica. Em fevereiro, mais de 20 municípios do Amazonas tiveram chuvas acima da média. Em São Gabriel da Cachoeira choveu 600 milímetros em fevereiro, quando o esperado é de 250 milímetros naquele mês. Na cidade de Manaus, choveu dentro da média. Mas é que está chovendo mais nas áreas periféricas da capital e menos no miolo da cidade. Isso é efeito do desmatamento e ilhas de calor. No miolo, a temperatura é 10 vezes maior do que na periferia.

Como funciona a previsão meteorológica?
Até 15 dias a previsão é de tempo. Acima de 15 dias é previsão de clima. O Inmet prefere fazer previsões até seis meses. Mas disponibilizamos os dados com até três meses de antecedência. Dá mais confiabilidade. A gente tem notado que tudo que previu vem acontecendo. Isso ocorre mesmo quando acontece um fenômenos em grande escala. A previsibilidade melhora porque nós conhecemos algumas características como chuvas excedentes no norte do Brasil e secas severas na região Sul. A gente sabe que há grandes cheias em ano de La Niña. Cabe aos órgãos tomarem medidas preventivas.

Qual a recorrência de fenômenos climáticos?
Eu acredito que pelas séries históricas no mundo estes eventos são cíclicos. Mas a gente tem observado, por meio de dados mais atualizados, que estes eventos estão frequentes e o prazo de transição está mais curto. Este prazo seria atmosfera neutra de normalidade, águas do oceano Pacífico também neutra.

Qual a papel da intervenção humana nesta alteração?
Não digo globalmente, mas localmente as pessoas têm influência sim. Elas influenciam bem mais. Em grandes capitais é nítido o efeito “ilha de calor” em áreas mais centrais, que estão concretadas.

Por que estes fenômenos deixaram de ser cíclicos e ficaram mais frequentes?
Ninguém sabe. Estas flutuações no tempo e no clima sempre ocorreram. E é por isso que temos que incentivar mais a pesquisa e a ciência para que se descubram verdades que todo mundo quer saber. O La Niña e o El Niño ainda estão sendo estudados.

Por que na Amazônia chove muito e no sul do país temos seca durante o La Niña?
O La Niña é um fenômeno oceânico atmosférico. As águas frias do fundo do mar vêm para a superfície e as águas quentes vão para o fundo do mar, gera um turbilhão e faz com que mude a direção das correntes marítimas e com que os ventos sejam redirecionados. E isso dá uma bagunça na atmosfera. Em cada lugar do mundo o fenômeno tem uma influência diferente. No Brasil, seca no sul que causa perdas significativas na produção do agronegócio e chuvas excedentes no Norte. E isso a gente sente na economia.

Como funciona a leitura do volume de chuvas?
Monitoramos com o pluviômetro e o pluviógrafo a variação da chuva ao longo do dia. A unidade de medida da velocidade é quilômetros por hora. A unidade de medida da chuva é milímetro. Um milímetro de chuva equivale a um litro de água em um metro quadrado de área. Se choveu 15 milímetros, choveu 15 litros em um metro quadrado de área. Por exemplo, se você tem um balde de lavar roupa e fizer as medidas corretas e colocar uma régua do lado. Vamos dizer que choveu a metade do balde. Você vai na régua e vê a quantidade de milímetros.

Situações extremas de cheia e seca devido a oscilação do volume de chuva podem acontecer com mais frequência?
Tudo é possível. Mas por enquanto o que é possível dizer é que o La Niña já chegou no ponto de inflexão. E deverá aos poucos a declinar a partir de abril. Mas mesmo que termine hoje, ainda sentiremos o reflexo até junho. Os fenômenos estão meio que diferentes.

O clima está bagunçado?
A bagunça seria o que foge da normal climatológica. É o que a gente e define o clima da localidade. Por que se fala que o clima de Manaus é tropical úmido com curta estação? Porque se observou pela climatologia que ao longo de 100 anos o período em que mais chove vai de outubro a maio e o que menos chove é de julho a setembro. Existe o período chuvoso e seco. Tudo o que foge disso é anormal.