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Bala alojada no corpo de yanomami conta história de conflito

Júlio Góes Pinto relata que sua luta para homologar terra desde o regime militar 02/11/2012 às 18:13
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Índio mostra que a bala atingiu seu braço direito, atravessou a costela até as costas
Elaíze Farias Aldeia Watoriki, Barcelos (AM)

As marcas do conflito com garimpeiro estão registradas no corpo de Júlio Lopes. Uma bala alojada em seu corpo há mais de 20 anos. Menos conhecido do que Davi Kopenawa, Júlio Góes Pinto, 64, não se importa em ocupar um lugar de coadjuvante na luta do povo yanomami.

Não que ele tenha sido codjuvante na prática, apenas teve menos visibilidade, viajou pouco “para fora de sua aldeia” e optou por enfrentar os obstáculos dentro de sua casa, aqui no caso, sua aldeia.

Antes de Davi Kopenawa viajar pelo mundo para denunciar a demora na homologação da TI Yanomami e a presença de garimpeiros, Júlio Pinto já enfrentava os militares que começaram a ocupar as terras indígenas da região do Alto Rio Negro.

Na assembleia da Hutukara, na aldeia Watoriki, Pinto não escondeu sua vivacidade e alegria ao lembrar os 20 anos de homologação da TI Yanomami e deu vários “salvas” para Davi, mas ele próprio foi um dos mais ovacionados pelos outros yanomami.

“Eu vim aqui vibrar com a nossa vitória. Temos que parabenizar nosso trabalho e a coragem do Davi. Que ele dê continuidade. A luta não parou e nem vai parar. Temos que reativar o marco da demarcação, que sumiu. Se continuar assim, as invasões vão continuar”, afirmou

Cartas

No início dos anos 70, Júlio Pinto já enchia a paciência do presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) do regime militar, general Ismar Araújo, escrevendo cartinhas pedindo a demarcação.

“Eu mandei tanta carta que uma vez ele respondeu por telegrama me ameaçando. Dizia que se não parasse vinha buscar a gente de avião. Íamos algemados. Foi quando a gente se tornou mais forte”, lembra Lopes.

Professor em sua comunidade, localizada na aldeia Ariabú, na região de Maturacá, próximo do município de São Gabriel da Cachoeira (Amazonas), Pinto incomodou vários militares. E também o setor mais conservador da Igreja Católica.

“Eu acabei me tornando conhecido na luta, mas não como o Davi. Ele viajava, eu não. O deslocamento era difícil. Depois que amadureci, comecei a lutar também contra a chegada dos garimpeiros e o Exército que estava se instalando na nossa terra”, lembra.

Levado por um brigadeiro, identificado como Protácio, Lopes passou uma temporada no Pará, Base Aérea de Tirióis, no Pará, fronteira com Suriname.

“Minha esposa é indígena baré. Ela queria voltar. Dizia para mim: ‘vamos voltar, vamos ajudar os yanomami´. Foi muito dificultoso o retorno. Um padre deu problema comigo, ele dizia que não era para eu voltar. Ele não quis dar minha vaga de professor de volta, mandou eu me virar. Eu fui me virar então. Consegui vaga como gerente de guarda-pista na Aeronáutica”, lembra.

Mesmo trabalhando na Aeronáutica, Pinto não escapou de desavenças com militares quando foi construída uma base na terra onde viviam os yanomami.

 “O padre me colocou contra os militares. Me desentendi com um militar. Quando um deles me chamou dizendo que eu estava dando trabalho eu respondi: ‘sou yanomami, não sou militar.  Inclusive a terra que estais pisando é proibida´. Foi assim a discussão”, contou.

A represália pela ousadia em enfrentar um militar veio rapidamente em forma de ameaça de transferência de todo os moradores de sua aldeia.

Me disseram que três Hércules (avião da FAB) iriam nos levar para a região do Surucucu. Eu respondi: ‘O que? Ali tem yanomami mais brabo do que a gente. Vai ser guerra por cima de guerra. Vocês querem que a gente guerreie contra nosso próprio povo? Se for para guerrar vai ser contra vocês militares´. Isso foi em 1989, pouco mais da homologação”.

Após essa desavença, o processo de homologação dos yanomami já estava andamento e, três anos depois, ele foi confirmado.

Balas

Talvez pouca gente saiba, mas foi João Pinto o yanomami responsável em ir em cada comunidade ajudar a Funai no processo de marcação dos territórios para a futura demarcação. “Visitei todas as aldeias. Inclusive na aldeia no Davi”, afirmou.

Lopes também foi vítima de desavença com garimpeiro. Em um bar, na época do processo de demarcação, onde foi conversar com outros dois indígenas conhecidos, entre eles Álvaro Tukano, Lopes foi alvo da provocação de um garimpeiro e acabou sendo atingindo por um tiro dos seis que foram disparados.

A bala atingiu seu braço direito atravessou sua costela e está até hoje alojada nas costas.