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Amazônia
ENTREVISTA

Cineasta Fernando Meirelles conta o que aprendeu com a Amazônia durante projeto

Diretor de "Cidade de Deus" participou da produção de conteúdos do projeto "Eu sou Amazônia", do Google Earth 23/07/2017 às 14:24 - Atualizado em 24/07/2017 às 09:16
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Iniciativa revela realidade da Amazônia a partir das histórias de sua população (Foto: Divulgação)
Rosiel Mendonça Manaus (AM)

Conhecido por filmes como “Cidade de Deus” e “O jardineiro fiel”, o cineasta Fernando Meirelles é um dos nomes de peso por trás do projeto “Eu sou Amazônia”, que marca a nova versão da plataforma Google Earth. Combinando as conhecidas ferramentas de geolocalização com inéditos recursos audiovisuais, a iniciativa propõe uma imersão na realidade e nas histórias de quem vive e zela pela região com a maior biodiversidade do planeta, a exemplo dos indígenas e quilombolas.

Em entrevista exclusiva à reportagem, Meirelles conta como se deu a participação dele e da sua produtora, a O2 Filmes, na direção de alguns dos conteúdos que podem ser acessados no “Eu sou Amazônia”. E também diz o que aprendeu: “Eu tenho muito interesse pela região, tinha uma ideia do que está em jogo e das pressões na Amazônia, mas mais do que nunca ficou claro para mim que a vocação dela precisa ser respeitada”, afirma ele.

“O caminho razoável para a região é o da economia da floresta, por mais que políticos e empresários tentem nos convencer do contrário. Cada vez que uma comunidade aprende a viver em sintonia com a floresta, ela se viabiliza e há um enriquecimento que beneficia a todos”.

Conexões

Realizado pelo núcleo Outras Telas da O2 Filmes, o trabalho para o Google Earth mobilizou quatro diretores e suas equipes (Meirelles, André D’Elia, Fred Mauro e Lucas Justiniano), além de pesquisadores, montadores e parceiros do Instituto Socioambiental (ISA) e da Equipe de Conservação da Amazônia (Ecam). “Em relação a terras e povos indígenas, o ISA é a melhor e mais completa fonte de informação que há no Brasil. É impossível ou besteira fazer qualquer coisa nesta área sem a presença deles”, acrescenta Fernando.

Segundo ele, a interação entre vídeos, mapas, áudios e realidade virtual em 360° no projeto “Eu sou Amazônia” ajuda a explicar a importância que a floresta tem para o mundo, mostrando as conexões que temos com a ela mesmo sem saber. “Ao mostrar a nossa conexão com a floresta, a ideia era mais uma vez enfatizar a importância de sua preservação. Acho que esse é um olhar interessante porque é uma visão pelos olhos das comunidades tradicionais que mais entendem e preservam a região: os ribeirinhos, quilombolas e índios”.

Riqueza

Meirelles ficou responsável pela direção de montagem da história “Eu sou água”, que aborda o fenômeno dos “rios voadores” do climatologista Antônio Nobre. Segundo essa tese, a umidade gerada pela transpiração da floresta amazônica é “empurrada” pelos ventos para a região centro-sul da América Latina, fazendo chover numa área que concentra 70% da renda do continente. 

“Cada hectare de floresta derrubada são milhões de litros de chuva a menos nas regiões produtoras do Brasil, mas a bancada ruralista do Congresso ainda não compreendeu isso e continua achando que pasto significa mais riqueza que floresta. Este é o segmento mais didático entre todos, mas eu queria que fosse assim. É como se disséssemos: ‘Já deu para entender ou quer que eu desenhe?’”.

Saiba mais

As histórias Eu sou raiz”, “Eu sou mudança”, “Eu sou alimento” e “Eu sou água” são as que levam a assinatura da produtora O2 Filmes, que também prestou consultoria em “Eu sou inovação”, “Eu sou resistência” e “Eu sou resiliência”.

Duas perguntas para Fernando Meirelles

- Projetos como “Eu sou Amazônia” são um novo jeito de trabalhar o audiovisual ao lado de serviços de georreferenciamento?

Sim, é um passo a mais. Além de você ver mapas, imagens de satélites e street view, agora será possível também entrar em alguns lugares para conhecer mais de perto a realidade, ouvir pessoas do local e conhecer suas vidas. É uma ferramenta com possibilidades inesgotáveis.              

- Que perspectivas esse projeto traz para profissionais e usuários?

A experiência de navegação é muito livre. Você pode só assistir aos vídeos, só ver mapas com narração ou ler, se preferir.  Ou ir surfando nessas coisas na medida do seu interesse.  A gente aprende rápido a “ler” o Voyager.  Daqui a pouco tempo vai parecer inimaginável um mundo sem isso, como acontece com outras ferramentas de comunicação.