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Amazônia
RECADO

Desembargador diz que amazônida vive em região rica, mas passando fome

Com o tema ‘A biodiversidade e o desenvolvimento econômico da Amazônia’, o magistrado criticou as poucas conquistas dos amazônidas, principalmente em relação à pesquisas científicas e manejo florestal. “O investimento é pequeno perto do que poderíamos nos tornar” 12/05/2016 às 09:47 - Atualizado em 12/05/2016 às 10:54
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Gilberto de Paula Pinheiro disse que não há políticas públicas voltadas para o aproveitamento das riquezas da região (Foto: Antonio Menezes)
Luana Carvalho Manaus (AM)

“Estamos em cima de uma mina de ouro passando fome”, declarou o desembargador do Tribunal de Justiça do Amapá (TJ-AP) Gilberto de Paula Pinheiro, durante palestra ministrada nesta quarta-feira (12), no último dia do Seminário Internacional de Tecnologia e Sustentabilidade (Sintes), realizado na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Pinheiro se referia à falta de investimentos na região amazônica.

Com o tema ‘A biodiversidade e o desenvolvimento econômico da Amazônia’, o magistrado criticou as poucas conquistas dos amazônidas, principalmente em relação à pesquisas científicas e manejo florestal. “O investimento é pequeno perto do que poderíamos nos tornar”.

Para o desembargador, que também é presidente da Academia de Letras Ambientais da Amazônia, a falta de valorização dos povos que vivem na região, somando à falta de uma política agroambiental, causam o desequilíbrio entre o homem e a natureza. Ele defende, principalmente, que não é preciso desmatar e instalar mais indústrias para o desenvolvimento da região, mas, sim, plantar, investir no médio e pequeno agricultor, e no turismo sustentável.

“Poderíamos tirar proveito e transformar todos esses recursos em qualidade de vida. Se formos em um mercado, notamos que a maioria das fruta e legumes são importados. São 25 mil habitantes da Amazônia Legal que precisam se alimentar, e muitos não têm o que comer porque falta esse ponto de equilíbrio. Tem gente que quer derrubar tudo, outros não querem que derrubem uma folha de uma árvore, e não é assim. Primeiro é preciso olhar a pluraridade regional com outros olhos”.

Gilberto de Paula Pinheiro citou, ainda, uma infinidade de alternativas econômicas que os governos da Amazônia Legal poderiam incentivar, como as culturas de café, cacau, cupuaçu, de plantas conhecidas como as ‘do futuro alimentício’, como o camu-camu e mandioca, plantas medicinais, aromáticas, os ‘superalimentos’, como são conhecidos o açaí e a pupunha.

“Vivemos em uma região com o maior rio e o maior aquífero do mundo, mas a incompetência é tão grande que quem vive no Caribe, aqui próximo, compra água da Europa. Temos milhares de espécies de peixes, aproximadamente 30 mil de plantas, e não sabemos administrar esses recursos. Não sabemos aproveitar o nosso potencial e perdemos a oportunidade de gerar emprego e qualidade de vida por falta de políticas públicas de manejo”.

‘Amazônia não é uma prioridade’

Quando questionado sobre o motivo da falta de investimento na Amazônia, o magistrado respondeu que trata-se de uma questão de prioridade. “Não é prioridade do governo federal nem dos governos dos Estados. Não existe política agroambiental na Amazônia. Vivemos em uma região onde 90% dos governadores não conhecem o campo, não conhecem o interior, e não são ligados ao meio ambiente”.

Além dessas justificativas, ele ressaltou que falta, principalmente, educação ambiental e valorização da região por parte dos próprios habitantes. “A educação ambiental deve fazer parte da grade disciplinar das escolas. Não é possível ignorarmos esse assunto. Além disso, somos donos o maior arquipélago flúvio-marítimo da Terra, e chamamos de “ilha do Marajó”, no Pará. No Macapá, temos a maior fortaleza do império português no Brasil, e chamamos de ‘forte’. Diminuímos muito o que somos e precisamos primeiro aprender a gostar e valorizar o que temos”.