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Dividido entre a paz e a guerra: como é estar em um campo guerrilheiro colombiano

Jornalista relata seu tempo nas montanhas a convite das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), onde testemunhou um grande esconderijo na selva, para cerca de 150 combatentes, durante aqueles que deveriam ser seus últimos dias 07/05/2016 às 23:02
Nicholas Casey © 2016 New York Times News Service)

O grupo rebelde é uma cápsula do tempo comunista. Um velho guerrilheiro canta canções sobre Che Guevara ao violão enquanto a plateia vem escutar, armada com rifles e granadas.

Aqui não existem salários nem casamento. Os combatentes acreditam no amor livre, dizendo serem casados somente com a revolução. Eles afirmam que a vida ainda é possível com Karl Marx numa mão e uma Kalashnikov na outra.

"Nós nos preparamos para a paz, mas também estamos prontos para guerra", disse Samuel, guerrilheiro de 31 anos que, a exemplo de muitos dos rebeldes, nunca pisou em nenhuma cidade da Colômbia.

Eu havia sido convidado pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) a testemunhar este grande esconderijo na selva, para cerca de 150 combatentes, durante aqueles que deveriam ser seus últimos dias.

A jornada nos levou pelas montanhas escarpadas a cavalo e a pé, exigindo que deixássemos nossos telefones via satélite e qualquer equipamento que pudesse ser rastreado por soldados do governo, e então nos entregássemos nas mãos de um grupo rebelde conhecido por sequestrar civis e os manter cativos durante anos.

Agora, os dois lados estão negociando um fim de décadas de combate, o mais longo conflito na História moderna, mas o fim não era visível naquele dia. Ao redor das 18h00, o comunicado oficial chegou ao campo guerrilheiro – e a notícia não era boa.

A mensagem, lida em voz alta dentro de uma tenda, veio de Rodrigo Londoño – ou Timochenko, como ele é conhecido aqui –, o principal comandante das Farc negociando com o governo para abandonar as armas depois de tanta guerra.

A conversa estava à beira do fracasso, dizia o comunicado. Tomados de raiva, os rebeldes deixaram a mesa de negociação. A guerra poderia estar próxima mais uma vez.

"Pode não haver outra coisa a fazer além de continuar com o que estamos fazendo há 50 anos", concluía a mensagem, enquanto os combatentes suspiravam e agarravam com mais força suas armas.

A negociação de paz na Colômbia deveria estar em sua última e mais crítica etapa. A guerra matou mais de 220 mil pessoas, deixou 40 mil desaparecidos e, estima-se, que tenha desalojado 5,7 milhões de pessoas. A batalha se alonga há meio século e impediu duas tréguas anteriores que deveriam resultar em paz duradoura.

Depois que a carta foi lida, um silêncio abafado caiu dentro da tenda. Ele foi quebrado por um homem de boina com estrela vermelha gritando slogans proferidos pelos guerrilheiros ao longo dos tempos:

"Contra o imperialismo", dizia um deles.

"Pela pátria!", o acampamento respondia.

"Contra a oligarquia", o homem gritava.

"Pelo povo!", o resto respondia.

Longe de casa

O dia começa uma hora antes do alvorecer. Às 5h15, os combatentes se alinham para as tarefas do dia: vigiar postos avançados, abater uma vaca. O café é servido ao lado de uma choça de sapé com fornos construídos no chão.

A perspectiva de paz pode ser uma questão nacional na Colômbia, mas é algo muito pessoal neste acampamento. Os guerrilheiros vão voltar aos vilarejos que um dia conheceram? Vão se reunir às crianças que abandonaram anos atrás, e que já viraram adultos?

Samy agora tem 28 anos, mas mal havia completado 16 quando virou guerrilheira.

A exemplo de muitos rebeldes que usavam apenas os primeiros nomes para manter a segurança das famílias, sua infância estava cheia de lembranças de campanhas mortais levadas contra camponeses por grupos paramilitares procurando as guerrilhas. Ela se recorda de seis pessoas assassinadas a tiros em sua pequena vila. Samy decidiu que pegar em armas era a forma de sobreviver. "Aqui você forma outra família", ela disse.

Criando esperança

Para muitos da geração mais velha, os combatentes grisalhos das Farc, o futuro traz a possibilidade de renascimento político. Eles perderam toda a esperança de que a guerrilha um dia vá derrubar o governo, como conseguiram revolucionários de Cuba e Nicarágua. Segundo eles, o futuro virá com uma participação no sistema que existe.

"Vamos nos livrar das armas e nos tornar políticos. Não vamos perder nossa estrutura. Estaremos nas urnas desta vez", contou Luisito, subcomandante do acampamento.

As Farc estão preparando seus soldados rasos para como será a vida depois de um acordo de paz. Na maioria das manhãs, os guerrilheiros se reúnem debaixo da tenda para a "pedagogia". Os líderes explicam o acordo sendo negociado em Havana e pedem respostas dos combatentes.

Cartazes pintados à mão reforçam o novo tom: "Em geral, somos a favor da paz e contra a guerra", diz um deles, pendurado sobre uma fileira de Kalashnikovs.

Alguns guerrilheiros querem saber onde vão viver depois do acordo de paz. Eles podem ficar no acampamento, apenas sem as armas? Como a vida será financiada se as Farc não puderem mais cobrar seus "impostos" no interior, como o do lucrativo comércio de coca?

Outros querem saber se terão direito a viver.

Um guerrilheiro com o nome de guerra Teófilo Panclasta disse ter saído de uma prisão colombiana neste mês após cumprir pena durante dois anos, acusado de rebelião. Ele contou que, em meados da década de 80, integrou o maior experimento das Farc em termos de participação política, a União Patriótica, partido que os guerrilheiros fundaram como parte das conversas de paz da época. A iniciativa tirou parte das Farc das sombras.

A reação dos grupos paramilitares foi brutal. Ao todo, quase três mil membros do partido, de eleitores a candidatos presidenciais, foram mortos em violência retributiva.

"Não pense que isso não aconteceria outra vez. Se entregarmos nossos rifles, granadas e pistolas, só poderemos nos defender com as nossas palavras", declarou Panclasta.

Ideias duradouras

Membros do acampamento contaram terem ficado sob fogo em fevereiro quando toparam com militares colombianos a 48 quilômetros daqui. Oito combatentes foram feridos. Um comandante, Alberto, pulou de um telhado para se proteger. Ele agora manqueja de muletas pelo acampamento.

Com maior frequência, porém, os professores trazem instruções sobre como usar o Facebook e o Twitter – ferramentas vistas pelos guerrilheiros como vitais para as eleições futuras. Existe uma conversa de procurar "novos modelos" agora que Cuba fechou seu acordo com os Estados Unidos.

Aldana, comandante com formação soviética e conhecido como "o russo", se sentou na lateral de um morro e filosofou que a queda do comunismo finalmente chegara ao acampamento. Ele afirmou que a mudança começou décadas atrás quando ainda era um jovem viajando de mochila na Alemanha durante a queda do Muro de Berlim.

"A gente não tinha ideia do que significava o fato de o socialismo estar chegando ao fim", ele contou.

Embora o modelo possa estar acabando, as Farc vão continuar, ele insistiu. "Nós queremos paz, mas não estamos nos desmobilizando. Só estamos adotando outro formato."

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