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Entre muita e pouca chuva: os efeitos de um El Niño cada vez mais forte no clima mundial

De bairros urbanos da América do Sul até plantações na Índia, vidas são transformadas pela alterações climáticas causadas pelo fenômeno, que assola cada vez mais pessoas: 60 milhões, segundo a OMS 06/05/2016 às 16:48 - Atualizado em 10/05/2016 às 12:40
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Na África do Sul, a seca atinge agricultores, que agora precisarão comprar milho do Brasil e outras nações sul-americanas (foto: Joao Silva/The New York Times)
Henry Fountain, Geeta Anand, Suhasini Raj e Jonathan Gilbert © 2016 New York Times News Service

Em aldeias rurais da África e da Ásia e em bairros urbanos da América do Sul milhões de vidas foram transformadas pelas alterações climáticas ligadas ao mais forte El Niño da última geração.

Em algumas partes do mundo, o problema foi a pouca quantidade de chuva; em outras, o excesso. As tempestades foram tão fortes na capital do Paraguai, Assunção, que as favelas se mudaram para as ruas da cidade, cheias de famílias expulsas de onde moravam pela inundação. Mas fazendeiros na Índia tiveram o problema oposto: a redução nas chuvas de monções os obrigaram a sair do campo e arrumar outros trabalhos.

Na África do Sul, a seca atingiu tão fortemente os agricultores que o país, que poucos anos atrás exportava milho para os mercados asiáticos, agora terá que comprar milhões de toneladas métricas desse produto do Brasil e de outros países da América do Sul.

“Eles realmente vão ter que importar, o que é raro”, diz Rogerio Bonifacio, analista de clima do Programa Mundial de Alimentos, uma agência das Nações Unidas. “Está sendo uma grande seca.”

A Organização Mundial de Saúde estima que, em todo o mundo, situações climáticas relacionadas ao El Niño estejam deixando 60 milhões de pessoas correndo risco de desnutrição e doenças transmitidas pela água, por mosquitos e outras causas.

Os cientistas começaram a relatar os primeiros sinais das condições do fenômeno no início do ano passado, baseados em mudanças na temperatura das águas da superfície e da pressão atmosférica no Pacífico Equatorial. No meio do ano, a Organização Meteorológica Mundial declarou que o El Niño estava acontecendo e possivelmente seria o mais forte desde 1997-98.

O fenômeno El Niño acontece em média a cada dois a sete anos, quando a água quente do Pacífico se desloca para o leste, criando uma imensa zona aquecida nas partes central e oriental do oceano. Isso faz com que o ar fique mais quente e úmido, condensando mais alto na atmosfera e soltando uma energia que afeta os ventos de grande altitude, conhecidos como correntes de jato, que circundam o planeta. Quanto mais quente o oceano, mais energia pode potencialmente ser liberada.

Um efeito da energia é que ela altera o curso da corrente de jato. No hemisfério norte, isso pode trazer mais tempestades de inverno para o sul dos Estados Unidos, incluindo o sul da Califórnia.

Mas toda essa energia na atmosfera superior também é capaz de fazer com que a corrente de jato fique ondulada o que pode afetar as condições climáticas em todo o mundo. “É como mexer com um remo para frente e para trás num córrego e gerar ondas atmosféricas em escala planetária”, explica Michael McPhaden, cientista da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês).

Isso leva a padrões de chuvas, ou da falta delas, que podem aparecer em regiões distantes em momentos diferentes – chuvas fortes no centro-sul da América do Sul de setembro a janeiro, seca cada vez mais intensa na América Central na maior parte no ano e redução do verão de monções na Índia, entre outros efeitos.

Como esses padrões muitas vezes se repetem em anos diferentes do El Niño, os efeitos podem ser previsíveis. Ainda assim, testam a capacidade de resposta dos governos e das agências de apoio.

O fenômeno frequentemente atinge partes da Etiópia, por exemplo, e dessa vez não foi exceção. O país está entre os mais afetados pela seca, conta Bonifacio, com mais de dez milhões de pessoas precisando de ajuda para se alimentar. Ainda assim a Etiópia está lidando com o problema quase sozinha. “Eles tomaram a decisão de se esforçar para resolver a situação”, conta Bonifacio.

Mas até agora, como demostra a falta de chuvas prolongadas no sul da Califórnia neste inverno, os efeitos do El Niño ainda podem ser difíceis de prever.

Bonifacio observa, por exemplo, que a região do Sahel na África geralmente sofre com secas nos verões do El Niño mas, no ano passado, depois de um junho seco, a chuva veio. “De julho em diante, as coisas mudaram completamente”, conta.

O El Niño não afeta apenas as pessoas. A NOAA afirmou este mês que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera – uma importante medida de mudança climática – teve o maior crescimento ano a ano em quase seis décadas, e que o aumento aconteceu parcialmente por causa do efeito climático relacionado com o El Niño sobre a vegetação. Tempo mais seco, por exemplo, significa menor crescimento de plantas que absorvem o dióxido de carbono do ar.

Segue uma panorâmica de como o El Niño está mexendo com a vida em diferentes partes do mundo.

Um golpe nas monções da Índia

Pela primeira vez em sua vida, Jeevan Lal Yadav está comprando trigo e vegetais no mercado a oito quilômetros de distância, ao invés de colhê-los em sua própria fazenda.

Yadav, de 43 anos, não conseguiu plantar nada no ano passado nos dois hectares de terra que cultiva no coração do norte da Índia, que tem regiões afetadas por uma seca severa.

Ele é uma das milhões de pessoas que estão tendo problemas depois que um forte El Niño levou à redução das chuvas de monções do sudoeste.

Em 2015, a quantidade de chuvas de monções, que caem sobre a maior parte da Índia de junho a setembro, ficou 14 por cento abaixo da média. A redução foi de mais de 40 por cento em algumas áreas, incluindo o estado mais populoso da Índia, Uttar Pradesh, onde Yadav mora.

Como muitos dos indianos são fazendeiros, e a maioria deles depende inteiramente das chuvas de monções, uma interrupção da estação chuvosa é um evento devastador, que torna suas vidas quase irreconhecíveis.

Ao invés de proteger sua colheita anual do búfalo selvagem, como tem feito desde que consegue se lembrar, hoje em dia Yadav se senta em meio a uma multidão na porta do chefe da aldeia, esperando para ser escolhido para o programa de trabalhos públicos que paga 161 rúpias (US$2,4) por dia. Eles chamam seu nome a cada dois dias, na melhor das hipóteses, conta Yadav.

“Nunca vi nada igual”, afirma ele, do lado de fora de sua cabana de barro de dois quartos em Thurat, vila de várias centenas de casas cercada de lagoas e campos secos, que no passado verdejavam com plantações de trigo e lentilhas nesta época do ano. “Está tudo seco. Nem sequer joguei as sementes.”

Yadav conta que reza para ter água todas as manhãs e todas as noites. Ele não reza para mais nada, explica, porque “se você tem água, tem tudo”.

Enchentes no Paraguai

Assunção, Paraguai – O custo humano brutal do El Niño é fácil de ser visto na capital do Paraguai. As praças do centro e os canteiros das avenidas estão cheios de casas temporárias feitas de compensado de madeira, folhas de plástico e aço, montadas depois que as fortes chuvas causaram a pior inundação em mais de três décadas.

Sentada uma noite recente debaixo de árvores de lapacho do lado de fora do barraco que está chamando de casa hoje – em frente à catedral da cidade, construída no século XIX – Esther Falcón, de 32 anos, dona de um quiosque em uma favela nas margens do Rio Paraguai, conta que nunca passou por chuvas como as de dezembro.

“A água veio tão rapidamente que não tivemos tempo de salvar nada”, diz Esther, afirmando que sua casa ficou inundada até a altura do ombro.

A água já foi embora, mas a jovem família de Esther não pode voltar porque as chuvas normais, que os meteorologistas dizem que devem cair em abril, podem fazer com que o rio que ainda está cheio inunde de novo.

Cerca de 145 mil pessoas precisaram sair de casa no Paraguai, um país com 6,5 milhões de pessoas, segundo Joaquín Roa, ministro de Emergências Nacionais. Mais ou menos 60 mil pessoas ainda estão desalojadas em Assunção, afirmou.

Apesar do risco de novas inundações, algumas pessoas voltaram para casa, cansadas de viver em acampamentos miseráveis, onde as famílias dividem banheiros portáteis fornecidos pelo governo e por uma agência de ajuda dos Estados Unidos, usam baldes para tomar banho, cozinham em fogões a lenha e sobrevivem de doações esporádicas de arroz, macarrão e feijão.

O Paraguai é historicamente propenso a inundações e, desde 2014, Assunção tem tido casos pouco comuns de tempestades que desalojaram milhares de famílias. Ainda assim, a mais recente chuva alimentada pelo El Niño foi a pior, levando o Rio Paraguai a seu nível mais alto desde 1983.

No bairro de Santa Ana, Teresa Castro, de 51 anos, havia acabado de voltar para casa depois de dois meses em um dos estimados 140 acampamentos que as autoridades dizem que surgiram em Assunção, além dos cinco abrigos montados pelo governo em regiões militares. Do lado de fora de sua casa, canoas de maneira ainda flutuam na água parada; dentro, a inundação descascou paredes e destruiu tomadas na altura de uma pessoa.

“Tenho que começar do zero”, afirma Teresa enquanto limpa seu forno elétrico e toma conta dos netos pequenos. “Queremos voltar para casa mesmo que seja apenas para descansar por um mês”, diz referindo-se à probabilidade de ter que sair de novo quando a chuva voltar em algumas semanas.

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