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Amazônia
Cotidiano, Pesquisa, Inpa, Água, comunidades ribeirinhas, Rio Juruá, Itamarati, Roland Vetter

Equipamento desenvolvido no Amazonas purifica a água a partir da luz do sol

Pesquisador do Inpa desenvolve equipamento que mata germes a partir de raios ultravioletas e será usado no vale do Juruá 08/09/2012 às 20:45
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Vetter e a máquina acionada por painéis de captação da luz solar que podem ser usados em comunidades do interior
Carolina Silva Manaus

O pesquisador alemão Roland Vetter pretende levar, até 2014, para todas as comunidades localizadas na região do rio Juruá o sistema solar de desinfecção de água. A ideia é garantir água potável para os moradores em áreas remotas por meio de um equipamento compacto, desenvolvido por ele no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). A “máquina” é capaz de deixar a água suja do rio livre de qualquer germe.

Vetter explica que já existem testes microbacterianos que comprovam a eficiência do tratamento da água por meio dos raios ultravioletas.

“Depois que instalamos essa caixa de desinfecção solar da água na aldeia Deni, constatamos a redução no número de casos de diarreia nos moradores. Nosso obejtivo é que daqui a dois anos todos os moradores do alto Juruá tenham esse sistema à disposição deles”, disse.

A idealização e o desenvolvimento do primeiro protótipo da caixa movida por energia solar e que purifica a água do rio começou em 2008 a partir da solicitação da tribo indígena Deni, localizada no município de Itamarati - a 987 quilômetros de Manaus.

Vetter e mais um grupo de pesquisadores desenvolviam um projeto de secagem de madeira por meio da energia solar para a produção de artesanato.

“Eles usavam a água do igarapé Marahi para beber e cozinhar, ao mesmo tempo em que a usavam para lavar roupa e despejar necessidades fisiológicas, além da presença de bichos que pioravam mais a qualidade da água. E a situação se repete em outras localidades daquela região”, disse Roland. “A contaminação da água era tão grave que, em 2005, 11 moradores morreram de diarreia”, completou o pesquisador. Segundo Vetter, no mínimo, 80% dos moradores sofriam de diarreia constantemente na aldeia Deni.

“Dentro dessa caixa que desenvolvemos tem um tubo inox e dentro dele tem uma lâmpada protegida por um vidro de quartzo (se for outro tipo de vidro, como o de janela, a luz ultravioleta não passa para desinfectar a água). Então, é entre esses dois tubos que a água passa e que a radiação ultravioleta destrói os germes em geral”, explica Roland Vetter sobre o funcionamento do equipamento.

O pesquisador explica ainda que a caixa de alumínio é inovadora e ideal para levar para localidades remotas.

“Ela facilita o manuseio. A água do igarapé passa para uma caixa d’água. A água é filtrada para ficar mais ou menos transparente e ela vai ficar armazenada lá. E a partir daí, quando necessário, o morador liga a lâmpada, a água passa pelo sistema e ao abrir a torneira a água sai pronta para ser consumida”, disse Vetter.

“Dentro da caixa tem um reator para ligar a lâmpada e uma bateria que é recarregada com uma placa solar. Mas é importante armazenar a água em recipientes limpos, se não, o líquido pode ser contaminado novamente antes de ser consumido”, acrescentou.

A capacidade de desinfecção solar do equipamento desenvolvido pelo pesquisador alemão é de 400 litros de água/hora. A caixa pesa apenas 13kg, permitindo 10 mil horas de vida útil da lâmpada. O investimento do equipamento pode variar entre R$ 1,5 a 10 mil, dependo das condições onde será instalado.

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O sistema solar de desinfecção de água foi apresentado na 64ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), deste ano, em São Luís (MA). O projeto foi financiado pela Coordenação de Pesquisas em Produtos Florestais do Inpa com apoio da fábrica alemã Purion que produz o equipamento, e pela ONG alemã Amazonasaktion.

De olho em novo salto tecnológico
O pesquisador Roland Vetter também disse que não descarta a possibilidade de desenvolver uma caixa de desinfecção solar de água mais compacta para que ribeirinhos do interior do Amazonas possam transportá-las dentro de canoas.

“Na época da cheia tem muitos casos de diarreia nos municípios que ficam completamente inundadas por causa da água contaminada. Então, pode ser desenvolvido um equipamento que o ribeirinho, dentro da canoa, pegue a água do rio  que vai passar pelo equipamento e já tratá-la”, adiantou o pesquisador do Inpa.

Segundo dados da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) do Amazonas, 11.319 pessoas no Estado contraíram a diarreia em abril, durante a cheia dos rios. “Os mais fracos, como crianças e idosos, sofrem mais com a água contaminada e até morrem”, acrescentou o pesquisador alemão com base na experiência na aldeia Deni.