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Escravos que a floresta esconde: piaçabeiros ainda trabalham de forma degradante no Amazonas

Mais de um século após a assinatura da Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil, piaçabeiros ainda são submetidos a condições subumanas de trabalho em propriedades particulares no interior do Amazonas 25/04/2015 às 17:03
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Piaçabeiros que estavam em situação análoga à do trabalho escravo foram resgatados pela força-tarefa do MPT em plantações localizadas no Sul do Estado
Kelly Melo Manaus (AM)

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Imagine trabalhar durante meses a fio sem ter direito a folgas e sem saber quanto irá receber no fim do mês.  Estar sujeito a morar em alojamentos improvisados no meio da floresta, construídos com cobertura de folhas, sem paredes que separem o ambiente interno do externo nem locais apropriados para fazer a sua alimentação ou mesmo para a sua higiene pessoal, e  sem equipamentos de segurança individual. Ou ainda estar sujeito a ataques de animais peçonhentos, sol e chuva. Apesar de escravidão ter sido abolida, no Brasil há mais de 120 anos, o trabalho escravo ainda é uma realidade, mesmo na região Amazônica.

O piaçabeiro Carlos do Rosário, 59, foi uma vítima dessa violência. No ano passado, ele foi um dos treze trabalhadores resgatados do Município de Barcelos (à 405 quilômetros de Manaus) por uma  “força-tarefa” liderada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Ministério Público do Trabalho (MPT) e Ministério Público Federal (MPF). Eles foram encontrados em condições análogas à de escravidão, em comunidades localizadas no meio do mato.

Recrutado para trabalhar na extração da piaçava - matéria-prima para a confecção de vassouras - na zona rural do município, Carlos era submetido a condições subumanas de trabalho: passava dias isolado no meio da floresta, só tinha direito a folgas após quatro meses de trabalho, não possuía carteira profissional e, o pior de tudo: não sabia nem quanto receberia depois do serviço realizado.

Aviamento

Ele conta que se via obrigado a comprar mercadorias do “patrão” devido ao isolamento e, quando recebia o salário, os descontos abocanhavam boa parte da renda. “Cheguei a receber R$ 340 por 120 dias de trabalho consecutivos”, relatou ele, que trabalha na extração da fibra desde os 15 anos. Ele alegou também que só trabalha na extração de piaçava porque é a única coisa que saber fazer. “Por isso não consigo emprego na cidade. Trabalho praticamente para comer”, disse o homem, que  é analfabeto.


O isolamento e a falta de pagamentos não são os únicos problemas encarados por quem trabalha escondido na floresta, dentro dos igarapés. A ausência de estrutura, como um local confortável e seguro para dormir, se alimentar e fazer suas necessidades fisiológicas também são obstáculos. “A gente fica em um barraco construído no meio do mato, com teto de palha, chão batido e sem energia. Não temos materiais de primeiros socorros e fazemos nossas necessidades na mata mesmo”, contou o piaçabeiro.

Mais de 300 vítimas somente em Barcelos

Assim como Carlos e Lázaro, o Ministério Público do Trabalho no Amazonas (MPT-AM) estima que ao menos outros 300 a 400 piaçabeiros estejam submetidos às mesmas condições análogas às do trabalho escravo, só em Barcelos.  No entanto, o baixo número de denúncias e a dificuldade de acesso às zonas rurais dos municípios do interior do Estado impedem o poder público de identificar todos os casos existentes na região. Além de Barcelos, em cidades como Lábrea, Manicoré, Apuí e Boca do Acre - todas na região Sul do Amazonas -, possuem relatos de ocorrência de trabalho escravo.

Só este ano, o MPT recebeu, até o início do mês de abril, 14 denúncias de trabalho escravo no Estado. Em 2014, foram 42 denúncias e, em 2013, 29. De acordo com o procurador do Trabalho no Amazonas, Jorsinei Dourado Nascimento, que compõe a Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho escravo (Conaet), a maior parte desses casos estão relacionados ao desmatamento: áreas de pastagens, extração de fibras, exploração de pedreiras e garimpos.  Trabalhos esses que geralmente se utilizam mão-de-obra barata e sem instrução.

Nascimento explicou que o Amazonas é a última fronteira do trabalho escravo na região Norte, devido à preservação da floresta. A maior incidência é no Pará e Estados como Mato Grosso, Rondônia e Acre, áreas onde a devastação é bem maior. No entanto, ele alerta que a imensidão das áreas florestais do Estado podem também esconder uma triste realidade. “O Amazonas é  o último da fronteira devido à preservação da nossa floresta, o que torna o número do trabalho escravo pequeno em relação ao que temos de informação. Mas acreditamos que esses índices não correspondem com a realidade porque a própria floresta pode esconder um número ainda maior”, relatou.


Único ofício durante a vida inteira

Lázaro da Silva Barbosa tem 63 anos. Ele sabe ler e escrever, mas o único ofício que aprendeu desde pequeno foi a extração da piaçava. Ele também foi resgatado de um piaçabal e contou como foram os dias no alojamento, antes do resgate. “Trabalhava todos os dias sem intervalo para o almoço”, relatou. Até os instrumentos para fazer a retirada da fibra foram comprados do patrão, em troca da mercadoria extraída, cujos valores nunca foram repassados. “Não sei quanto custou porque não decoro o preço das coisas, mas custa caro”, afirmou.

Lázaro contou que já foi picado por animais peçonhentos e se curou com remédios naturais, tirados da floresta. “Remédio comprado ninguém tem. E quando a gente adoece, continuamos trabalhando para pagar o que  devemos para o patrão. A gente faz esse esforço”, afirmou ele, que até tem carteira de trabalho, mas  nunca teve o documento assinado.