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Amazônia
MEIO AMBIENTE

Despejo de esgoto e lixo deixa Igarapé do Mindu em estado crítico, aponta pesquisa

Pesquisa desenvolvida na UEA mostra que de dez pontos do igarapé, dois se mostram críticos, sendo que um deles fica em uma unidade de conservação de proteção integral 29/12/2017 às 16:38
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Esgoto é despejado a poucos metros da UC onde ficam as nascentes (Foto: Euzivaldo Queiroz)
Silane Souza Manaus (AM)

O descaso com o Igarapé do Mindu, um dos principais cursos d’água de Manaus, ainda é grande. Esgotos são lançados sem tratamento ao longo de seus 22 quilômetros de extensão, bem como uma enorme quantidade de resíduos sólidos. É o que aponta um estudo desenvolvido pelo mestrando em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) Elton Alves de Souza Filho.

Dados preliminares da pesquisa, que será concluída em 2018, indicam que, de dez pontos do igarapé analisados entre julho e outubro, deste ano, dois se mostraram críticos. Um deles ameaça a preservação da nascente que fica em uma unidade de conservação de proteção integral. Trata-se da recente construção de um bueiro que fica a poucos metros do Parque Municipal Nascentes do Mindu e a cerca de um quilômetro da nascente do igarapé.

No local, conforme Elton Filho, pode se ver claramente um reflexo de descarte de esgoto sem tratamento diretamente sobre as águas que correm após a nascente do Mindu, um grande descaso pelas águas que ainda vão migrar em direção a toda a cidade. “Chega a ser um risco porque se houver a contaminação do lençol freático pode ser que a água da nascente também seja contaminada”, observou.

O outro ponto crítico apontado pelo estudo fica na rua Waldemar Jardim Maués, no conjunto Petros, bairro Novo Aleixo, Zona Norte da cidade, onde foi encontrada uma rota de esgoto, com fezes percorrendo um pequeno trajeto entre uma instituição particular e o Igarapé do Mindu. “É inadmissível uma empresa não investir no sistema para tratar o mínimo possível do seu esgoto”, disse o pesquisador da UEA.

Tac e baixa oxigenação

Ele lembrou que a região é a mesma onde, em 2013, a Prefeitura de Manaus iniciou o trabalho de retirada do lixo acumulado na primeira rede de contenção instalada num trecho do Mindu. A medida atendeu a um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado entre a Secretaria Municipal de Limpeza Pública (Semulsp) e o Ministério Público Federal (MPF/AM) visando à correção dos impactos ambientais no igarapé.

A análise da água coletada pelo mestrando na localidade, que fica próxima à ponte que liga o conjunto Petros à Colônia Japonesa, mostrou que o parâmetro do oxigênio dissolvido (concentração de oxigênio contido na água, sendo essencial para todas as formas de vida aquática), está abaixo do preconizado pela legislação do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).

A resolução da Conama de número 357/2005 estabelece o limite de >2,0 mg/L (ppm) para corpos receptores de classe I (igarapés), sendo que o encontrado nesse trecho do Mindu em outubro foi de >0,85 mg/L em julho e >0,28 mg/L.

Um igarapé que clama por socorro

Para o pesquisador Elton Alves de Souza Filho, o Igarapé do Mindu tem uma relação importante com a cidade de Manaus pelo fato de ser o mais extenso e um dos mais emblemáticos. Nas décadas de 60 e 70, por exemplo, suas águas límpidas fizeram a alegria da população que se reunia para tomar banho nos balneários que ficavam ao longo do seu percurso.

O cenário hoje é bem diferente: o igarapé sofre com a poluição. “É como se a gente tivesse olhando para alguém que está morrendo e precisa de ajuda, mas ninguém faz nada”, disse.

Para ele, é necessário fomentar os trabalhos de conscientização e educação ambiental nos bairros por onde o Mindu passa, destacando a importância para a saúde pública e a população em geral de manter os igarapés preservados. “Também deveria ter atividade de fiscalização nas empresas que ficam nas proximidades para que tratem e lancem seus efluentes de acordo com a legislação”, disse.

Elton Alves disse que espera sensibilizar os gestores de recursos hídricos para a problemática dos igarapés urbanos de Manaus. Ele disse que o governo elabora um plano de gestão de recursos hídricos, mas este não prevê análise, controle e diagnóstico da qualidade da água desses pequenos rios. “Precisa haver investimento em políticas públicas, pois a situação dos nossos igarapés é crítica. A maioria está com as águas poluídas, contaminadas. Um risco para a saúde pública!”, afirmou.

Subsídio para gestão

O estudo do mestrando Elton Alves de Souza Filho busca subsidiar informações para gestores de recursos hídricos na cidade de Manaus, além de monitorar a situação do Igarapé do Mindu. O trabalho tem como tema: Avaliação e Diagnóstico da Qualidade da Água do Igarapé do Mindu como subsídios para Gestores de Recursos Hídricos na cidade de Manaus, e é desenvolvido sob orientação da professora Ieda Hortêncio.

Despejo vai ser apurado

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas) informou que a concessionária Manaus Ambiental é responsável pelo funcionamento e manutenção das estações de tratamento de efluentes dos conjuntos habitacionais. A Semmas solicitou que o responsável pela pesquisa formalize denúncia junto ao órgão para que possa notificar a empresa e verificar in loco a situação do descarte irregular dos efluentes.

Quanto ao igarapé, no trecho que corta o Parque do Mindu, a pasta informou que são desenvolvidas ações de coleta de resíduos em parceria com instituições de ensino, dentro do Programa de Gerenciamento de Resíduos Sólidos Flutuantes, mantido pelo parque. O trecho, com aproximadamente 1,5 quilômetros, recebe resíduos lançados nas ruas e diretamente no igarapé ao longo do seu percurso, até chegar ao parque.

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), por sua vez, informou que, desde outubro deste ano, iniciou um estudo que será feito sobre a Classificação dos Corpos Hídricos a partir do primeiro semestre de 2018, o que vai servir para a elaboração do Plano Estadual de Recursos Hídricos no Amazonas. O estudo prevê a participação da sociedade por meio de audiências públicas, nas quais serão encaminhadas soluções para a redução dos impactos ambientais.

A concessionária Manaus Ambiental foi contatada, mas não se manifestou até o fechamento desta edição.

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