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Fora da agenda oficial da ‘Rio + 20’, indígenas, mulheres, jovens, povos tradicionais promoveram a Cúpula dos Povos

--- 16/06/2012 às 18:39
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Sonia Guajajara diz que a Cupula dos Povos terá a missão de expor ao mundo os problemas reais dos povos indígenas
jornal a crítica Manaus

O debate sobre futuro e o bem estar do planeta não está concentrado nos chefes de Estado e na programação oficial deles. É no entorno da Rio + 20 que ocorrem as grandes mobilizações da sociedade civil. Milhares de organizações vindas de várias partes do mundo participam da programação paralela.

A pouca expectativa em relação às negociações oficiais e a  possibilidade de falta de consenso entre os países para definir as metas e compromissos é o que move esta programação extraoficial. A programação dos “descontentes” é gigante. Estarão no debate extra segmentos representativos de povos indígenas, povos tradicionais, ambientalistas, indústrias, cientistas, mulheres, jovens e outros.

Um dos principais espaços é a Cúpula dos Povos, que reúne várias esferas do movimento sociais, entre eles o dos povos indígenas, organizados a partir do Fórum Social Temático 2012, ocorrido em Porto Alegre. A atividade acontece no Aterro do Flamengo e já vem sendo uma das visitadas da programação paralela.

Em seu site, a organização da Cúpula dos Povos informa que a pauta oficial da Rio + 20  – a chamada Economia Verde e a institucionalidade global – é considerada insatisfatória para lidar com a crise global.

Indígenas
O temor do retrocesso na política indigenista brasileira levou as entidades  a transferir para a programação paralela da Rio + 20 o Acampamento Terra Livre, que desde 2004 ocorre no mês de abril, em Brasília. Mais de mil indígenas do Brasil participam dos fóruns de discussões até no dia 23 como parte da programação da Cúpula dos Povos. A opção é a forma que os indígenas encontraram para dar visibilidade à sua problemática.

A estimativa da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab)  é de que mais de mil indígenas participarão das atividades da Cúpula dos Povos. “Neste ano decidimos realizá-lo no Rio de Janeiro com o propósito de internacionalizá-lo e com a esperança de fazer dele um espaço de convergência com os nossos irmãos e irmãs do mundo”, disse a vice-coordenadora da Coiab, Sônia Guajajara.

Ela  diz que a participação do movimento social é o contraponto do “evento midiático” em que se transformou a Rio+20. “Os acordos que serão feitos aqui vêm do alto. A gente não tem oportunidade de influir  diretamente em nada. Todo o documento que está sendo analisado já foi construído. A nossa presença é para que possamos dar visibilidade aos novos problemas”, explicou.

Segundo Sônia, a Rio + 20 valeria à pena se ele fosse um espaço de aglutinação de ideias que contemplasse as especificidades étnicas, sociais e culturais, considerando as diversas realidades existentes com proporcionalidade de participação e decisão.

Participação
Os indígenas participam da Cúpula dos Povos por meio da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Api). A programação da Cúpula dos Povos pode ser acompanhada no site http://cupuladospovos.org.br/. Segundo a API, ao menos 500 indígenas da Amazônia são esperados na Cúpula dos Povos. Mais de 30  do Amazonas.

Seringueiro terá voz na agenda dos chefes\
Dias antes de viajar ao Rio de Janeiro, Manoel Cunha foi à sua comunidade, São Raimundo, na Reserva Extrativista do Médio Juruá, no Município de Carauari. Criada em 1997, a Resex do Médio Juruá foi a primeira do gênero criada no Amazonas. Desde que assumiu a liderança dos grupos de seringueiros e de extrativistas, Manoel Cunha tem tido pouco tempo para ficar em casa. Viaja muito, participa de vários eventos no Brasil e no exterior. É uma das lideranças do movimento social de maior expressividade da Amazônia e do Brasil.

Aos 44 anos, ele  é o único representante dos movimentos sociais a ter participação direta dos debates oficiais e na construção dos subsídios que serão analisados pelos chefes de Estado, condição possibilitada por integrar o Conselho do Desenvolvimento e Econômico e Social da Presidência da República.

Cunha também participa de duas mesas redondas da qual fariam parte a ministra Tereza Campelo e o ex-presidente Lula. Presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas da Amazônia Brasileira (CNS), Manoel Cunha admite que “está com medo” de a Rio  + 20 “dar em nada”.

Ele  diz que tem este receio por três motivos. Um deles está associado à crise econômica mundial. “Quando o ser humano está com fome, a primeira coisa que vem à sua cabeça é resolver isso. Esse clima se contrapõe às discussões que propõe novos padrões de consumo. A Rio + 20 acontece em um momento muito difícil para que a gente saia com uma boa negociação”, disse. Outro fato negativo, conforme Cunha, é que muitas lideranças mundiais, cuja presença daria um peso político ao evento, não estão presentes. A terceira preocupação é o uso banalizado do termo “sustentabilidade” e da falta de esclarecimento sobre o que se trata a Economia Verde. “Já perguntei de pessoas de alto conhecimento o que é isso. Ninguém sabe responder. Ninguém está contente com este conceito colocado de cima para baixo”, disse.