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"Guerra" em Manaquiri (AM) foi 'Horrorosa e traiçoeira', diz pescador sobrevivente

Pescador José Pucu de Oliveira revela detalhes do ataque ede como sobreviveu ao episódio.  Hoje elemora em Manaus 06/03/2012 às 12:56
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Único sobrevivente encontrado pela reportagem de A CRÍTICA relata os momentos de terror da Guerra
Elaíze Farias Manaquiri

José Pucu de Oliveira tinha 20 anos quando se envolveu na “Guerra do Peixe”. Ele foi o único pescador que participou do confronto encontrado pela reportagem do jornal A CRÍTICA. Morador do Tilheiro, exercia a profissão que era também a da maioria dos moradores da comunidade. Oliveira descreve o episódio como “horroroso e traiçoeiro”.

“Era véspera de ano novo. Esse Valdir Silva, morador do Igarapé do Gorani, em frente ao Lago do Italiano, botou uma caixa no barco do pai dele e foi pescar na área onde não podia. O pessoal quebrou a caixa dele. Foi quando eles (agricultores) juntaram o povo e foram quebrar o resto”, lembra Oliveira, que vive em Manaus desde 1985, junto com a mulher e com os filhos.

Zeca Batista, que morreu durante o confronto, era cunhado de José Pucu. Foi Batista que, chegando “da cidade” (Manaus), teria começado o conflito. “Era ele e mais o João Piranha. Tudo foi no meio do lago. Atiraram no João Sarapó, meu primo, que morreu. Atiraram em mim também. A bala entrou no meu braço esquerdo e pegou chumbo na minha barriga”, diz ele, que chegou a ficar hospitalizado em Manaus.

Segundo Oliveira, o clima de confronto era comum antes mesmo da guerra. “A gente sempre dizia: ‘amanhã vem o quebra-quebra’. Mas nunca imaginava que iria acontecer alguma coisa como aquela”, afirma. Na conta de Oliveira, foram presas cerca de 700 pessoas.

“Fui eu que, junto com o delegado, fomos nas (sic) comunidades prender as pessoas. A polícia pegou todo mundo, mas apenas 11 ficaram na penitenciária. Um deles foi o Anísio (Aragão)”, diz.

Para o representante da Colônia de Pescadores de Janauacá, Francisco Martins da Silva, 54, a prática de invasão em áreas proibidas diminuiu. Ele diz que os pescadores estão conscientes de que é preciso preservar as áreas para que os estoques não se esgotem. Segundo Martins, 98% da população do Tilheiro vive de pesca comercial.

“Sei que existem alguns colegas que ainda pescam onde não devem, mas isso não é mais tão comum como antes. Nossa colônia tem tido o trabalho de conscientizar os pescadores. Acho que a normativa da SDS ajudou nesse trabalho. E é preciso que os pescadores saibam que lá é uma área de preservação e todos os que lá estiverem, podem ser punidos”, conta.

A atividade de pesca ainda é emblemática da região, que promove anualmente a Festa do Mapará, que começa no próximo dia 16.

Guerra viva

Após a “Guerra do Peixe”, os ribeirinhos acalmaram os ânimos e procuraram evitar novos confrontos. Mas a “guerra fria” nunca foi totalmente amenizada. O agricultor Anísio Aragão conta que as invasões continuam.

“De primeiro, tinha muito peixe aqui no lago. Mas continuam entrando e matando até os peixes pequenos. O pescador precisa do peixe, mas também precisa da farinha. E quem faz a farinha é o agricultor”, diz Aragão.

Alguns anos atrás, um conflito semelhante (embora sem vítimas fatais) voltou a ocorrer. Um dos envolvidos, foi o agricultor Bianor de Medeiros, 65. “A gente pedia ajuda das autoridades e nada. As comunidades decidiram agir. Destruímos caixas de peixe, malhadeiras e motores. Fomos denunciados e até hoje respondemos processo na justiça”, diz Medeiros.

Para ele, “o clima aliviou”, mas enquanto não houver uma fiscalização com posto instalado por órgão ambiental, a situação continuará incerta. “Antes, a gente via muito cardume passando pelo lago. Hoje, a gente olha e vê nada boiando”.

Fiscalização 

O prefeito de Manaquiri, Jair Souto, admite que a situação ainda é complicada, mas que o acordo de pesca de 2006 ajudou a minimizar os conflitos. Ele destaca, contudo, que o Estado precisa oferecer mais instrumentos para intensificar a fiscalização.

“Estamos presente com a estrutura do município. Fazemos nossa parte, vamos ao local. Lógico que isso não resolve tudo. E como se trata de dois municípios, invocamos o Governo do Estado para que operacionalize o que ele institucionalizou. Precisamos de estrutura física para dar mais tranquilidade. É importante avançar mais. Ali moram mais de 8 mil pessoas”, diz.

O presidente da Colônia dos Pescadores de Manaquiri, Pedro dos Santos, diz que sem uma fiscalização profissional, “de uma hora para outra pode acontecer uma nova guerra”. “Hoje a gente orienta, dá cartilha. Diz onde se pode pescar e os riscos de uma multa. O que está faltando é tanto o Governo Federal quanto o estadual fazer alguma coisa para evitar uma futura guerra. Uma fiscalização profissional, física. Não dá para colocar pessoas para fiscalizar de forma voluntária”, observa.

Clandestinos

Filho de Aldemir Monteiro, que participou da “Guerra do Peixe”, o professor Milton Monteiro, 58, é um dos maiores defensores da delimitação feita na área. Mas ele lamenta que a medida seja tardia. “Tambaqui, não se fala mais. Até dois anos atrás a gente ainda via pirarucu passando debaixo do flutuante, tentando escapar do pescador. Hoje, o peixe mais perseguido é curimatã”.

Conforme Monteiro, o limite de acesso não é obedecido. “Parece que ficou pior, aumentou o número de pescadores clandestinos. E nem sempre vêm de barco grande”, contou.