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Igarapé em Manaus é assoreado por lixo e efluentes

Um dos principais igarapés da cidade, o São Raimundo, está tomado pelo assoreamento em seu curso e na desembocadura junto ao Rio Negro; as consequências já são conhecidas da população e tendem a piorar: alagações cada vez mais intensas 18/11/2012 às 15:19
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O aterramento deixa os leitos mais rasos; indústria e construção civil são responsáveis também pelo fenômeno, segundo pesquisador do Inpa, Sérgio Bríngel
Nelson Brilhante Manaus

Assusta a velocidade com que aumenta o volume de efluentes domésticos e químicos, além de lixo, terra e areia carreados dos igarapés do São Raimundo, Educandos e Passarinho, e que são despejados diretamente no Rio Negro e no igarapé Tarumãzinho.

Os três igarapés assoreados, que são a reta final de quase tudo o que é jogado em dezenas de outros tantos cursos d’água que cortam Manaus, estão também assoreando. O aterramento deixa os leitos mais rasos, um prato cheio para as alagações.

A questão se torna ainda mais grave se considerada a pressão que o rio faz sobre a foz do igarapé, que desagua na contramão da correnteza do São Raimundo. Os canais vão depositando terra, areia e lixo na saída (deseembocadura) e soterrando a margem do Negro.

Como o rio não é estático, a cada enxurrada, a corrente vai distribuindo tudo até onde puder. O leito fica menos profundo e todo o sedimento derramado pelos igarapés fica na foz. Com a orla mais rasa, fica mais fácil entender porque o Centro de Manaus ficou todo submerso na última enchente, num espaço de tempo mais curto que nas grandes cheias de 1953 e 2009.

O químico, com especialidade em hidrogeoquimica, Sérgio Bríngel se disse surpreso com que viu ao sobrevoar a bacia do Tarumã, na última terça-feira, 13. “O Tarumãzinho está todo barrento. A água e os resíduos derramados pelo igarapé do Passarinho estão mudando a cor daquela água que era cristalina.

O nome disso é contaminação e soterramento”, alertou o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa). Ele não tem dúvidas em afirmar que os responsáveis pela degradação natural estão vindo da indústria e da construção civil.

“Com o grande número de obras em execução, está entrando muita terra nos igarapés. Parte dessa terra chega ao destino final, subindo o nível do solo alagado. O igarapé do Passarinho deságua no Tarumãzinho, trazendo resíduo de muito longe. Isso gera uma grande movimentação de terra. A natureza é sábia: se mudam o curso, ela cria outro e devolve a agressão”, afirma Bríngel.

De acordo com a pesquisadora do Inpa, a química Maria do Socorro Rocha, que fez especialização em geoquímica ambiental, mais de 70% de toda a drenagem de Manaus é produzida na bacia do São Raimundo. O igarapé nasce no Mindu e atravessa a cidade trazendo tudo que sai de esgotos altamente “produtivos” como o do igarapé do Franco e o dos Franceses, que corta a avenida Constantino Nery.

“Embora muita coisa fique pelo meio do percurso, é desproporcional o que chega ao destino final (Rio Negro) num diminuto canal com no máximo cinco metros de largura”, disse. Cimento Os canais mais rasos dos igarapés por conta do assoreamento (aterramento) ficam anunciados quando os projetos de revitalização deixam as margens concretadas. A água das chuvas descem e, em vez de filtrar no solo vai direto para o igarapé, provocando alagação.

“É preciso obedecer a hidrologia física do igarapé. Nas margens, em vez de cimento tem que haver vegetação. Isso evita que as águas pluviais cheguem totalmente ao leito dos igarapés. Se continuar assim, a tendência é no futuro termos grandes inundações”, aconselha Socorro Rocha. Ela defende uma política mais severa, com multa, a quem for flagrado jogando lixo nos rios e igarapés ou outras degradações do gênero.

Rio Negro represa igarapé

O problema chamou a atenção do ex-prefeito Serafim Corrêa. Em seu Blog ele publicou, há três semanas, uma foto aérea mostrando o desvio da embocadura do igarapé do São Raimundo.

A imagem é preocupante por mostrar um confronto extremamente desigual entre o volume de água e tudo que encontrou no caminho contra a pressão inversa do rio Negro.

“O nível do assoreamento é muito preocupante.O Rio Negro está represando o igarapé. Numa grande enxurrada ou quando a enchente estiver maior, tudo que vier não vai sair e teremos uma grande alagação, afetando a todos que moram próximo ao igarapé do São Raimundo”, disse.

 A rapidez e a força da água que muda o curso do igarapé é tamanha que, na semana passada, o córrego já despejava seu conteúdo no grande rio por outra direção. O ex-prefeito lembra que qualquer ação envolvendo os rios é responsabilidade do Governo Federal.

Entretanto, o ex-presidente Collor extinguiu o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), único órgão encarregado do assunto.

A decisão deixou todas as cidades portuárias à deriva, jogando ‘no colo’ dos prefeitos e governadores, o problema. Ciente de que “no papel” essa dívida é do Governo Federal, Serafim arriscou uma sugestão: “A presidenta Dilma está voltando a Manaus. Que tal cobrar dela essa dívida?”, brincou.

Falta tratamento, não estação

Segundo a Manaus Ambiental, apenas 11% do que sai dos esgotos de Manaus é tratado. E não é por falta de estações de tratamento. De acordo com a pesquisadora do Inpa, a química Maria do Socorro Rocha, foram construídas mais de 90 estações de tratamento de águas servidas e esgotos em Manaus mas apenas dez estão funcionando.

Para aqueles que possam vir a julgar esse tipo de preocupação como exagerada, a pesquisadora revela que os efeitos mais drásticos ainda não são visíveis porque o Rio Negro, devido à acidez de suas águas, tem um alto poder de eliminação de substâncias nocivas.

“Essa capacidade de eliminação do Rio Negro é tamanha que, mesmo recebendo 90% de todo o esgoto de Manaus, ainda não está poluído. Mas tudo é uma questão de tempo”, alerta.

Uma estação de tratamento de esgoto, do ponto de vista empresarial, é um dos melhores negócios existentes. Além de reaproveitar o que seria extraviado, o resíduo sólido que sobra é um adubo de primeira qualidade, peça preciosa na agroindústria.

Os igarapés, como portas de saída, derramam contaminação de toda ordem no Rio Negro, inclusive resíduos químicos de fábricas do Polo Industrial de Manaus. Além de contaminar, os igarapés estão ficando assoreados tanto no final dos seus cursos quanto numa longa extensão do Rio Negro, a partir da margem.

Toda cidade está contaminada

De acordo com o pesquisador Sérgio Bringel, químico com especialidade emgeoquímica, 100ml de água coletada a 50 metros da orla do Rio Negro contém mais de um milhão de coliformes fecais.


“Apesar da intervenção urbanística, não fizeram saneamento. Fizeram canalização mas sem tratamento de esgoto. A água dos igarapés já não presta para nada. Qualquer contato com a água dos igarapés e da orla do Rio Negro, no mínimo, pode resultar numa micose”, afirma.

O emissário (cano de esgoto) que sai do Educandos deposita milhares de toneladas de resíduos contaminadores, diariamente, no Rio Negro. Doenças “A água que banha a orla da cidade, do Educandos ao São Raimundo, até 100m da margem, está totalmente contaminada. Infelizmente não é só no rio. Acredite, do Tarumã ao Puraquequara, a cidade de Manaus já está toda contaminada. Alguém tem que fazer alguma coisa”, disse o pesquisador, em tom de apelo.

Se hoje os moradores das margens dos igarapés acham que já estao protegidos das enchentes, é melhor não ter tanta certeza, segundo ele.

“Se você tiver contato permanente com a água desses igarapés e contrair ameba, por exemplo, não adianta ir ao médico, tomar remédio etc. Se não sair da área, nuncavai se curar. É sempre bom lembrar que, cada real investido em saneamento básico, economiza sete em saúde”, lembra Sérgio Bríngel.

Recuperação

A Secretaria de Estado de Infraestrutura (Seinfra), publicou em seu site que está executando um programa de recuperação das bacias de Educandos e do São Raimundo. Na primeira fase teriam sido beneficiados moradores dos igarapés do Franco, Mindu, Bindá, Santo Agostinho, Franceses, Bombeamento, Sapolândia, 13 de Maio, Cachoeirinha, Mestre Chico, Quarenta, Bittencourt e Manaus.

Passarinho

O igarapé do Passarinho corta os bairros Terra Nova, Rio Piorini, Nova Cidade, Galiléia, Cidadão dentre outros;

Consequência

O assoreamento dos leitos desses cursos d’água, acaba comprometendo a vazão das águas pluviais pelos igarapés, provocando, assim, represamento e o consequente transbordamento e alagação, o que atinge toda a cidade, direta ou indiretamente.