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Influenciada pelo El Niño, vazante do rio Negro ameaça também a fauna amazônica

Vidas ameaçadas: Não é só o homem que sofre com a seca intensa das águas na capital amazonense - fauna é a maior vítima. Volume do Negro está em 18,91 metros 15/10/2015 às 09:27
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Espécie tradicional na mesa do amazonense e um dos símbolos da região, o bodó é uma das espécies de peixe que mais sofre com a vazante acelerada
Isabelle Valois Manaus (AM)

Mais uma vez, o rio Negro registrou um nível elevado de descida para o padrão histórico registrado no período de vazante. Nesta quarta-feira (14), o volume das águas do Negro chegou à cota de 18,91 metros, após recuar mais 35 centímetros em um dia, e ficou a 5,28 metros da vazante recorde, registrada no dia 24 de outubro de 2010, quando o rio atingiu a cota mínima de 13,63 metros.

Segundo a estimativa do chefe do Serviço Hidrográfico do Porto de Manaus, Valderino Pereira, caso o rio mantenha essa intensidade da vazante até o final da semana, é provável que o Negro tenha, este ano, uma nova seca recorde. “Fiquei sem acreditar nesses dados. Nunca vi algo igual e, se continuarmos assim, é provável que tenhamos uma nova vazante recorde”.

Peixes na seca

Para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), esse fenômeno pode ocasionar impactos ambientais sérios, pois vivemos o momento de procriação de diversas espécies de peixes. O reflexo já pode ser visto nos principais igarapés da cidade, como o de São Raimundo, na Zona Oeste, onde peixes estão morrendo na terra seca onde, há poucos dias, ainda havia água.

Com a vazante, que se intensificou no sábado, quando o rio Negro passou a descer mais de 25 centímetros por dia - índice considerado “fora do padrão registrado desde 1902” - espécies como aruanã, bodó e pirarucu foram as primeiras a sentirem o impacto ambiental ocasionado pelo fenômeno, que se agravou nos cinco últimos dias, alertou o Ibama.


De acordo com o superintendente do Ibama, Mário Lúcio Reis, essas descida rápida das água prejudica tanto a locomoção e alimentação dessas espécies como a procriação delas. “Essas espécies, conhecidas como ‘cascudas’, neste período do ano costumam viver em lagos ou locais onde há lama. Por instinto, durante a vazante, eles procuram a área mais funda. Mas como a vazante deste ano está sendo mais rápida que o normal, eles não conseguem chegar a esses locais. Sem falar nos igarapés que secaram totalmente. Os peixes morrem por falta de alimento ou oxigênio”.

Para o superintendente, o problema pode se agravar em caso de vazante recorde. “Estamos em um período de reprodução, quando as espécies andam em cardumes. A vazante, além de reduzir o habitat, facilita a vida dos predadores”, explicou.

Previsão  de recorde não confirmada

Para o chefe do Serviço Hidrográfico do Porto de Manaus, Valderino Pereira da Silva, será necessário aguardar e acompanhar a cotação do rio Negro até o próximo final de semana para, de fato, sabermos se haverá uma vazante recorde este ano.


Desde sábado o rio começou a apresentar o fenômeno da vazante em um ritmo até então nunca presenciado, desde quando iniciou a medição da cotação, em 1902.

De acordo com Valderino, na última sexta-feira, o rio havia descido 22,48 centímetros; no sábado, o rio desceu 38 centímetros; no domingo, desceu 40 centímetros; na segunda-feira, 36 centímetros; na terça-feira, 32 centímetros e, ontem, mais 35 centímetros.

Em números

1,81 metros  foi quanto o rio Negro desceu, em cinco dias. Se o rio continuar a ter esse comportamento de vazante, com média diária de 35 centímetros, poderá ultrapassar o recorde de 2010.