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Janauari, no interior do Amazonas, sofre com a falta de infraestrutura

Localidade do interior em época de chuva é praticamente impossível entrar ou sair da vila 14/05/2012 às 08:34
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Sem transporte coletivo, moradores precisam andar 22 quilômetros para sair de Janauari, enfrentando muita lama na estrada de barro
CAROLINA SILVA Manaus

Moradores da comunidade Janauari, também conhecida como Janauarilândia, localizada na margem direita do rio Negro, pertencente ao Município de Iranduba (a 25 quilômetros de Manaus), reclamam do descaso da Prefeitura Municipal com o local, motivo que tem afastado turistas estrangeiros.

São 22 quilômetros de estrada de barro, a partir da rodovia Manoel Urbano (AM-070), para ter acesso à comunidade. Mas quando chove, o local fica isolado. “Com a chuva, a estrada fica intrafegável por causa do lamaçal. O ônibus que leva os moradores da comunidade ao Cacau Pirêra deixa de vir e as pessoas só se deslocam daqui por meio de barco”, relata o morador Mayque Pinheiro, 26.

É o caso do pedreiro Adelson dos Santos, 46, que se desloca a Manaus de “rabeta” quando nem carros e ônibus podem ter acesso à comunidade por conta das más condições da estrada.

De acordo com os comunitários, há pelo menos duas semanas os jovens da comunidade que estudam nas escolas do distrito de Cacau Pirêra, também pertencente ao Município de Iranduba, estão sem ir às aulas. “O ônibus que faz o transporte deles e dos outros moradores para o Cacau quebrou por causa do lamaçal da estrada e ainda não foi consertado, por isso os estudantes não estão frequentado a escola”, reclama o morador Givaldo Filho, 36.

Outro problema apontado por ele é que o ônibus que transporta os moradores e os alunos ao Distrito de Cacau Pirêra é particular e não da Prefeitura de Iranduba. “Esse é outro descaso do município com a comunidade. Se não fosse esse transporte particular, ficaria mais difícil ainda”, critica Givaldo.

Para a moradora Zeneide Pereira, 47, Janauari “está esquecida pelo poder público”. Ela conta que há muito tempo o local não recebe atenção da Prefeitura de Iranduba e que isso tem prejudicado o desenvolvimento da comunidade.

“Em relação a essa única estrada de acesso à Janauari, a prefeitura já chegou a divulgar que estava asfaltada. Também chegou a circular numa revista pelo Município de Iranduba falando dessa ‘melhoria’ na estrada”, disse a comunitária.

Além dos moradores, quem vai aos sítios que ficam na estrada do lago Janauari também reclama da falta de infraestrutura. “Se torna perigoso dirigir aqui quando chove. O carro desliza pela estrada, além dos buracos que se formam porque só é barro. É praticamente um rally”, frisou Moisés Barbosa, 29, que costuma ir ao sítio de amigos nos finais de semana.

Abastecimento de água ineficiente, iluminação pública e serviços de saúde precários e falta de professores na Escola Municipal Jovino Coelho também são outros problemas enfrentados pelos comunitários de Janauari.

As declarações dos moradores dão conta de que o serviço de abastecimento de água no local ocorre diariamente, porém, somente por cerca de 30 minutos durante a manhã.

“Tem um funcionário da prefeitura que vem pela manhã, liga o poço e depois desliga. Mas só temos como ter água nesse tempo que ele deixa a bomba ligada. Depois que desliga ficamos sem abastecimento”, disse Givaldo Filho.

Ele também revela que o ano letivo dos alunos da escola municipal Jovino Filho, que fica na comunidade, iniciou apenas neste mês de maio, enquanto deveria ter iniciado no mês de março. “Por falta de professores teve esse atraso nas aulas dos alunos”.

Além disso, o comunitário Adelson dos Santos também reclama que o único posto de saúde da comunidade de Janauari carece de uma infraestrutura adequada para atender os moradores. “O posto funciona num casa alugada para a prefeitura e só tem duas pessoas pra fazer o atendimento. Outro problema é a escuridão que fica a comunidade porque não tem postes de iluminação pública apesar de ter energia elétrica pra cá”.

A comunidade de Janauari é conhecida por turistas pelo parque ecológico do lago de mesmo nome que possui uma área de 9 mil hectares (de terra firme, várzea e igapós) e que permite os visitantes conhecerem de perto a Vitória Régia amazônica, planta que abre sua folha redonda sobre as águas rasas e que chega a mediar até 1,8 metro de diâmetro.

Descaso afasta turistas
A comunidade de Janauari abriga um polo de produção de artesanato. Os comunitários afirmam que pelo menos 80% da renda do local, que reúne um grande número de artesãos, é baseada na fabricação de produtos como colares, arcos e flechas, maracás e outros que marcam a identidade amazônica.

Esse era um dos motivos para atrair turistas de todas as partes do mundo, mas sem investimentos na comunidade, os moradores contam que os estrangeiros estão se afastando.

“Antes os turistas saíam dos barcos para visitar a comunidade e ver de perto os artesãos produzindo suas peças e compravam direto deles”, disse a artesã Zeneide Pereira.

Ela e os demais comunitários mostram que duas obras públicas que já deveriam ter sido inauguradas poderiam mudar essa realidade. Uma delas é a Central de Artesanato que recebeu um investimento de R$ 181.887,33 financiado pela Prefeitura de Iranduba e o Ministério do Turismo. A obra deveria ter sido entregue no final do mês de agosto do ano passado, mas até hoje a área onde seria construída permanece apenas delimitada.

“Isso é um descaso com o dinheiro público e com os artesãos da comunidade. Por causa disso temos vendido as peças que produzimos apenas para os atravessadores que compram da gente por um preço baixo e vendem na praça de artesanato, no Centro de Manaus, por um valor bem mais elevado. A gente tem conseguido apenas o dinheiro pro pão”, acrescentou a artesã.

Outra obra que poderia facilitar o acesso de turistas estrangeiros à comunidade seria o Centro Receptivo Flutuante de Janauari. Mas o problema é que somente a pedra fundamental da obra foi implantada em 6 de dezembro de 2005 pelo Ministério do Turismo e Governo do Amazonas, por meio da Empresa Estadual de Turismo (Amazonastur). “Vivemos apenas de promessas aqui em Janauari”, frisou Givaldo Filho.

R$ 465.701,29 foi o valor da construção da praça da comunidade Janauari que não foi concluída. A obra teve investimento do Governo Federal e a única área de lazer dos moradores permanece sem uso.