Publicidade
Amazônia
CIÊNCIA NO ALTO RIO NEGRO

Livro aproxima indígenas de coleções coletadas por botânico inglês no século XIX

Fruto da parceria entre índios do Alto Rio Negro e instituições de pesquisa inglesa, a obra será lançada na próxima terça-feira (10) 07/10/2017 às 16:49
Show dsfdsf
(Foto: Divulgação)
acritica.com Manaus (AM)

Fruto de pesquisa e intercâmbio de conhecimentos em etnobotânica entre povos indígenas da região do Alto Rio Negro, no Amazonas, e instituições de pesquisa brasileiras e inglesas, o Manual de Etnobotânica (Plantas, Artefatos e Conhecimentos Indígenas) será lançado pelo Instituto Socioambiental (ISA) e demais parceiros do Brasil e da Inglaterra na próxima terça-feira, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. 

A publicação faz parte de um projeto pioneiro unindo instituições brasileiras e inglesas, com o objetivo central de reconectar os povos indígenas com as observações e coleções realizadas pelo botânico inglês Richard Spruce, no século XIX. A publicação é resultado de um amplo projeto que une os conhecimentos indígenas e científicos sobre as plantas e seus usos, coleções guardadas em acervos institucionais, assim como sistemas de classificação e visões de mundo.

O projeto é realizado em parceria pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), o Instituto Socioambiental (ISA), o Jardim Botânico Real de Kew, a Birkbeck - Universidade de Londres, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). Com apoio do Fundo Newton do Reino Unido, por meio do Conselho Britânico (Edital - Institutional Skills 2015), o projeto traz à tona dados e objetos coletados principalmente na Amazônia brasileira, que foram guardados em instituições inglesas há cerca de 150 anos.

Para a coordenadora do projeto no Brasil e pesquisadora do JBRJ, Viviane Stern da Fonseca Kruel, o projeto estabeleceu uma parceria sólida entre as diversas instituições. “Este projeto incentiva pesquisas colaborativas, integrando pesquisadores do Brasil e Reino Unido e a perspectiva indígena em torno das coleções históricas de Richard Spruce sobre o Alto Rio Negro. Os conhecimentos científicos podem ser retornados aos descendentes dos povos visitados por Spruce, assim como  complementar as informações sobre a biodiversidade da Amazônia através do repatriamento digital do material coletado por Spruce”, diz Viviane.

Resgate

A ideia central é aproximar os povos indígenas da Amazônia dessas coleções, que contam com aproximadamente 14 mil espécimes de plantas secas no herbário e 350 artefatos etnobotânicos na Coleção de Botânica Econômica de Kew. O acervo conta ainda com diários, manuscritos e cartas com descrições sobre o uso das plantas, assim como desenhos de pessoas e paisagens. 

Os dados e imagens dos artefatos e das amostras de plantas foram repatriadas e estão agora acessíveis em uma plataforma livre – o Herbário Virtual Reflora, sendo disponibilizados de maneira digital aos descendentes dos povos visitados por Spruce há mais de um século, bem como ao público em geral.

Segundo William Milliken, coordenador do projeto em Kew, “compreender a relação entre plantas, pessoas e culturas é vital, não somente para o passado, como também para o futuro. O caminho a seguir é conectar a comunidade científica com as comunidades locais, visando entendimento mútuo. Nosso projeto contribuiu para o estabelecimento de uma rede de colaboração no Alto Rio Negro, mas é apenas um começo. Precisamos continuar trabalhando juntos, através da Amazônia e além”, enfatiza Milliken.

Legado de Spruce

O botânico inglês Richard Spruce (1817-1893) percorreu a América do Sul no século XIX, estudando as plantas da Amazônia, coletando-as e enviando-as para a coleção do Jardim Botânico Real de Kew, na Inglaterra. Durante sua expedição, que durou 15 anos, de 1849 a 1864, a região do Rio Negro foi a que mais o encantou, coletando ali o maior número de espécies e gêneros desconhecidos.

Disponível na rede

O manual será distribuído para instituições e comunidades indígenas do Rio Negro. A versão digital está no ISSUU (https://issuu.com/instituto-socioambiental/docs/manual_de_etnobotanica_baixa).

Oficina envolveu indígenas em São Gabriel da Cachoeira

Na oficina de Botânica que ocorreu no município de São Gabriel da Cachoeira (a 852 quilômetros de Manaus), em novembro passado, participantes das etnias Tukano, Tuyuka, Desana, Yebamasã, Baniwa, Koripaco e Pira-Tapuya apresentaram diversas pesquisas relativas à agrobiodiversidade, cultura material, paisagens florestais, cultivo da pimenta Baniwa e sobre os ciclos anuais do rio Tiquié. 

Esse último estudo está relacionado a um longo programa de colaboração entre o ISA e pesquisadores indígenas na região, denominados Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (Aimas). Iniciado em 2005, o programa resultou numa ampla gama de publicações e materiais educacionais relacionados ao manejo ambiental, gestão territorial, cultura,história e tecnologia.

Espera-se que estas informações e atividades de treinamento possam contribuir para que os povos indígenas da região continuem promovendo e fortalecendo seus conhecimentos e práticas. “Esse projeto faz parte de um esforço mais amplo de conectar as comunidade indígenas à produção de conhecimentos e pesquisas relevantes sobre a região, em um ambiente colaborativo envolvendo especialistas de diferentes disciplinas e instituições”, afirma Aloisio Cabalzar, antropólogo e coordenador adjunto do Programa Rio Negro do ISA. “Nesse caso, esse projeto traz uma contribuição importante para o entendimento da diversidade ambiental e,potencialmente, para a sustentabilidade da região do Rio Negro, através de um programa de pesquisa etnobotânica”, acrescenta.

Tradução

Dagoberto Lima Azevedo, pesquisador Tukano que participou da Oficina em São Gabriel da Cachoeira, ressalta a importância do Manual de Etnobotânica estar sendo traduzido para as línguas Baniwa e Tukano, em versão digital. Dagoberto é responsável pela tradução para o Tukano, uma das três línguas indígenas co-oficiais em São Gabriel. “Com isso vamos atender as demandas locais por conhecimento botânico da Amazônia, tanto para as escolas indígenas  como para as associações de bases”, afirma.