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Moradores que sofreram com a enchente recorde no Amazonas relatam os dramas de voltar para casa

No município do Careiro da Várzea, o mais atingido na região do Baixo Rio Solimões, ou na beira-rio de Manaus, as histórias de sofrimento das famílias ribeirinhas atingidas pela maior enchente  da história ainda trazem componentes dramáticos 14/07/2012 às 19:04
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Moradora do beco Normando, Raimunda Miranda mostra que o problema a ser enfrentado agora é o acumulo de lixo
CAROLINA SILVA Manaus

Com o início da vazante do rio Solimões que está  1 metro abaixo  da cota máxima de cheia registrada este ano (17,43 metros), moradores do Município do Careiro da Várzea (a 25 quilômetros de Manaus) agora convivem com o cenário de uma cidade devastada. Ruas e calçadas que estavam debaixo d‘água, estão cobertas de lama. Durante a cheia, era possível circular pela cidade apenas sobre pontes estreitas. Hoje, pelas esquinas, dezenas de tábuas de madeira estão entulhadas.

Na rua 1º de maio, a comerciante Alessandra Oliveira, 29, tem agilizado a limpeza da lanchonete para voltar a trabalhar pisando no chão.

“A gente manteve a lanchonete em funcionamento durante a cheia. Trabalhávamos sobre as marombas. Mas, estamos procurando limpar o mais rápido aqui dentro”, disse. “Está dando trabalho porque é muita lama”, completou.

Muito trabalho também para a secretaria de limpeza do município. Há duas semanas, homens começaram a retirar a lama preta acumulada pelas ruas e ainda esta semana vão poder contar com o auxílio de máquinas.

Enquanto a equipe de limpeza da prefeitura  não chega à rua Miracauera, o operador de usina Valcemir da Silva, 46, tem acordado cedo todos os dias para retirar a lama acumulada em frente de casa. “Desde 5h estou lavando aqui pra melhorar a circulação de pessoas. Assim não vão correr o risco de ficar com os pés atolados”, contou.

“Parece que passou um tsunami por aqui. O cenário da cidade está totalmente modificado pois está praticamente atolada em lama”. É assim que a aposentada Maria Augusta Farias, 68, descreve a realidade de Careiro da Várzea no pós-cheia. A comparação com o fenômeno que destruiu a cidade de Fukushima, no Japão, no ano passado é exagerada, mas os dramas humanos são semelhantes.

Há apenas uma semana Maria Augusta  voltou para casa e ainda não conseguiu avaliar o tamanho dos prejuízos materiais. “Ainda estamos vendo quais os móveis e eletrodomésticos que não vão mais servir para uso. Até agora só posso dizer que o prejuízo é com a madeira do piso da casa. Saiu a pintura e algumas tábuas ficaram comprometidas”, disse.

A moradora Vânia Ferreira, 41, conta que estava contando os dias para voltar a andar pela cidade, porém, pelas ruas e calçadas. “Como tivemos dificuldades para conseguir madeira aqui no município, as pontes eram estreitas e era um sufoco andar sobre elas. É bom voltar à normalidade”. Somente em alguns pontos da cidade a prefeitura ainda não desmontou as pontes de madeira devido à grande quantidade de lama.

Educação, saúde e  comércio
Os 1.131 alunos da Escola Estadual Coronel Fiuza, na travessa Cambixe, voltaram às aulas em  2 de julho. “Eles estão tendo aulas aos sábados e também terão nos feriados. Assim, o ano letivo será encerrado no dia 18 de dezembro”, explicou a diretora da escola, Mariane Brandão.

Segundo ela, além de quase dois meses de aula perdidos, a escola teve prejuízos com o mobiliário. “Como não tinha madeira suficiente pra fazer as marombas, usávamos a própria mobília pra suspender as coisas. Perdemos carteiras, mesas e armários”.

Aos poucos, os comerciantes também voltam a se recuperar dos prejuízos da enchente. “Com a descida das águas, as vendas já melhoraram 50%”, afirmou o dono de uma distribuidora de bebidas, Marcondes Farias. A cabeleireira Cleuza da Silva, 48, também tem expectativa de que o movimento no salão volte à normalidade em breve. “Como está mais fácil se deslocar pela cidade, logo os clientes vão voltar  ”, disse.

A unidade de saúde  voltou a funcionar em  1º de julho. De acordo com funcionários, problemas respiratórios e perfurações com pregos tem sido as principais ocorrências na unidade no pós cheia. “Muitas pessoas tem se furado com os pregos das pontes que ficam jogados em meio à lama que quando está seca é prejudicial à saúde”, disse a gestora de finanças Neurilene Oliveira.

Solimões
De acordo com a superintendência regional do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), a cota da vazante máxima do rio Solimões, registrada em Careiro da Várzea, foi de 1, 25 metro, em 2010.

Alagada
O Município de Careiro da Várzea foi um dos mais afetados pela cheia deste ano. A cidade decretou estado de calamidade pública.

Auxílio
Conforme a Defesa Civil do município, cerca de 4,5 mil famílias foram atingidas diretamente pela cheia do rio Solimões, pois teve 95% do seu território inundado.

Hora de contabilizar o prejuízo
Em Manaus, a vazante do rio Negro começou no dia 2 de junho e o nível das águas está a 1, 21 metro abaixo do pico de cheia registrada este ano (29,97). Mas, só agora os moradores do beco Normando, no bairro São Raimundo, Zona Oeste, estão  avaliando o tamanho dos prejuízos materiais, que variam entre R$ 1 mil e  R$ 2 mil.

Desde  maio, a funcionária pública Marta Sena, 47, e o marido, o autônomo Francisco dos Santos, 55, passaram a morar de aluguel perto da casa deles. A enchente fez com que a água do igarapé de São Raimundo chegasse no nível  janela do imóvel. Há duas semanas que o local não está mais alagado. O casal já começou a limpar a casa para poder voltar.

Enquanto Francisco lavava um dos quatro cômodos da casa, Marta verificava os móveis que não vão mais ser usados por eles. “Perdemos o guarda-roupa, geladeira, bebedouro e máquina de lavar porque não tínhamos onde deixá-los durante o tempo que a casa ficou alagada”, lamentou Marta. Os prejuízos  somam R$ 2,4 mil.

Pagando o aluguel de R$ 450 por meio do benefício de R$ 600 concedido pela Prefeitura de Manaus, parte do programa “S.O.S. Enchente”, o casal pretende voltar para casa nesta  semana. “Compramos   água sanitária para  tirar o mau cheiro e logo voltar a morar aqui”, disse Francisco.

A dona de casa Maria Luiza Ferreira, 47, também planeja voltar a usar o primeiro piso da casa onde mora no beco Normando. Ela e a família estavam dividindo os pequenos cômodos do segundo andar do imóvel desde maio. “Infelizmente não deu pra gente colocar todos os móveis pra cima e nem pra deixá-los em marombas. Perdemos um fogão, geladeira, televisão e e uma estante”, disse. Um prejuízo de quase R$ 2,3 mil.

Para a doméstica Vera Saraiva, 43, os prejuízos causados pela cheia também foram altos. Somam cerca de R$ 1,5 mil. “Perdi uma geladeira, o fogão e uma cama. Não tive condições financeiras para me mudar”, disse.

Apesar de ter conseguido salvar os móveis, depois de dois meses longe, a moradora Raimunda Miranda também pretende voltar o mais breve para casa onde morava. “Tive que mudar para casa da minha filha, mas até segunda-feira pretendo voltar”, disse. “Ainda bem que consegui retirar os móveis pra não ter prejuízos maiores, mas foi um sufoco a cheia desse ano”, acrescentou.

De acordo com a Defesa Civil do Estado, em Manaus, a cheia do rio Negro deixou 21 áreas da cidade alagadas, entre elas também estão os bairros Presidente Vargas e São Jorge.

Na sexta-feira, o rio Negro estava com cota de 28,76 metros e descendo, em média, de  3 a 5 centímetros diariamente.

Lixo é  o problema da vez
Com a vazante do rio, além dos prejuízos materiais, outro problema que os moradores das áreas que estavam alagadas têm de enfrentar  é a grande quantidade de lixo acumulada perto das casas.

Na rua Beira Mar, no bairro São Raimundo, o mau cheiro de lixo arrastado pelas águas do rio tem incomodado comerciantes e moradores do local. “A água está descendo, mas muito lixo está ficando por aqui. O mau cheiro incomoda”, disse o autônomo José Mendes, 51.

No beco Normando, os moradores também reclamam da grande quantidade de lixo que ficou  acumulado embaixo das casas no período da cheia. “Todo o lixo que ficou embaixo das casas está saindo debaixo delas e ficando à mostra. É muito ruim porque isso causa doença”, reclamou a moradora Maria Luiza Ferreira, 47.

A Secretaria Municipal de Limpeza Pública (Semulsp) continua retirando o lixo dos locais que ficaram alagados. Em 15 dias de ação emergencial, a secretaria chegou a retirar mais de 1,2 mi, toneladas de lixo dos igarapés de Manaus.

Trajetória do fenômeno
27 de abril -  Decretada situação de emergência em Manaus por conta da cheia do rio Negro.

16 de maio -  Com 29m78, o rio Negro superou o recorde da cheia de 2009, que atingiu 29,77 metros.

29 de maio -  O rio  atingiu a cota máxima de 29,97 metros.

2 de junho- - Iniciou da vazante . Sexta-feira a cota estava em  28,80 metros.