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Ondógrafo será usado para monitorar banzeiros no rio Negro

A utilização do equipamento servirá para medir altura, direção e força das ondas do rio (conhecidas como banzeiros). O ondógrafo, que começa a funcionar em outubro, deve  colaborar diretamente com a segurança da navegação no Amazonas 17/09/2012 às 08:06
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Ondógrafo, equipamento que vai monitorar e registrar altura de ondas (banzeiros) do rio Negro, em Manaus, para ajudar na segurança da navegação
Elaíze Farias Manaus

Se tornou comum no Amazonas dizer que “o rio Negro é perigoso”, especialmente na foz do rio Solimões, a partir do arquipélago de Anavilhanas até Manaus, cujo tempo de viagem em barco regional é de quatro horas.

Mais do que lugar comum, navegar pelo Negro no trecho próximo da capital é realmente perigoso, não pelo rio em si, mas por questões atmosféricas, sobretudo as ocorrências de tempestades que provocam rajadas de vento e estas, banzeiros (ondas fluviais) muito elevados. Nesta época do ano, o risco de uma embarcação inclinar, emborcar e até mesmo naufragar se intensifica.

Um equipamento, contudo, vai tornar as viagens pelo rio Negro mais tranquilas, especialmente para quem navega nas proximidades da capital amazonense. Adquirido pelo projeto Rede de Monitoramento Ambiental e Pesquisa de Fenômenos Meteorológicos Extremos na Amazonia – Remam 2, o ondógrafo vai monitorar as condições do rio Negro, registrando os níveis dos banzeiros, sua altura, direção e período.

O equipamento, importado dos Estados Unidos com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), chegou a Manaus em agosto passado. Sua instalação aguarda apenas a autorização da Marinha do Brasil.

No próximo dia 20, os coordenadores do projeto realizam uma reunião com a Capitania dos Portos para definir os últimos ajustes e confirmar a data da instalação, prevista para ocorrer na primeira semana de outubro.

Tempestade

Semelhante a uma bóia, o ondógrafo será instalado na margem direita do rio Negro, em frente à praia da Ponta Negra, próximo à Vila do Piracatuba, onde já existe uma estação fluviométrica do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), um dos órgãos que integram o projeto Remam 2, junto com o Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam) e Universidade Federal do Amazonas (Ufam). A outra estação será na área da comunidade Jatuarana, no rio Solimões, zona rural de Manaus.

O superintendente do CPRM, Marco Antônio Oliveira, diz que o projeto vai aumentar a segurança da navegação no Amazonas. Oliveira explica que enquanto o radar das duas estações prevê a vinda de uma tempestade e a velocidade do vento, muito comum nos meses de agosto, setembro e outubro, o ondógrafo vai gerar informações da superfície do rio.

Os dados serão monitorados em tempo real e repassados para o Sipam, que se encarregará de enviar as informações para a Defesa Civil e para a Capitania dos Portos.

“A gente espera conseguir uma correlação de informações entre o vento e a altura das ondas. Isso permitirá dar alertas sobre a vinda de tempestade e de formação de banzeiros”, destacou Oliveira.  

O alcance do radar das estações será de até 200 quilômetros. Esta abrangência será suficiente para indicar a formação de nuvens de tempestade e anunciar a previsão de amplitude. Como ainda é um modelo inédito, será necessário construir uma série de dados para os anos futuros. Desta forma, com o tempo, será possível estabelecer parâmetros como já ocorre com a medição das cotas dos rios. As primeiras aferições, contudo, já serão realizadas tão logo o ondógrafo seja instalado.

A reportagem tentou obter mais informações junto à administração da Capitania dos Portos. A assessoria de comunicação do órgão disse que somente o capitão dos portos, que chegaria à Manaus na sexta-feira (14), poderia falar. Até o fechamento desta edição, não houve retorno da Capitania dos Portos.

Perigo

Não é lenda a história de que a navegação é perigosa perto de Manaus. A ciência comprova que sim, é um risco tentar enfrentar uma tempestade quando você está próximo da capital. O geógrafo e doutor em climatologia Francisco Evandro Aguiar, da Ufam, diz que descendo, o Negro torna-se mais largo do que a parte à montante (acima) do arquipélago de Anavilhanas. O nível da correnteza até a foz no rio Solimões é mais suave, fazendo com que o rio possa ser considerado, por essas características, um rio de planície, ou seja, quase sem desnível.

“Esse aspecto só se evidencia no baixo curso do rio Negro, porque no médio e no alto curso ele é um rio bem acidentado, com cachoeiras e corredeiras. O rio sendo largo e lento permite que qualquer ventania mais intensa encrespe as suas águas fazendo-o mais perigoso e mais cheio de ondas. Isso, porém, só de dá com fortes ventos ou tempestades, muito comuns nesta época do ano”, explica Aguiar, que integra a equipe do projeto Remam 2.

Especialista em fenômenos meteorológicos, Aguiar vai atuar nos estudos dos efeitos das tempestades no baixo curso do rio Negro, a parte mais larga do principal afluente do rio Amazonas. Sua atuação também na área acadêmica, com incentivo às pesquisas na área.

“Com este projeto, a gente vai saber os efeitos causados pelas tempestades. Poderemos lançar um alerta. Por isso vamos ter o equipamento permanentemente instalado e funcionando em tempo real”, explicou Aguiar.

Nas proximidades de Manaus, o rio Negro tem a sua bacia mais larga. Entre o píer do Hotel Tropical e a margem direita chega a ter 12 quilômetros de largura na época da cheia. Na época da vazante, continua larga e a navegação torna-se mais perigosa devido às chuvas intensas e rápidas características da época, com ventos fortes, muitas das vezes sem direção certa.

 Características

O ondógrafo adquirido pelo Remam configura-se um sinal náutico flutuante cego em forma de bóia direcional, com 0,9cm de diâmetro e bateria com autonomia de três anos, medidor de temperatura superficial, GPS, datalogger de 256 mb e antena.

Com acesso remoto, a bóia poderá ser monitorada em tempo real via rádio VDF ou SM onde a cobertura permita. A informação recolhida permitirá a sua divulgação em tempo real, estabelecer a climatologia de agitação marítima na Região do rio Negro.

O ondógrafo também vai alimentar, calibrar e verificar os modelos meteorológicos e de previsão de agitação fluvial a desenvolver.