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Amazônia
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Para cientistas, junção de fenômenos meteorológicos intensificou chuvas no AM

Pouca gente esperava que apenas três anos depois outro recorde se registraria. Desta vez, com uma diferença de 20 centímetros 05/06/2012 às 08:18
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Cheia surpreende cientistas e estudiosos climáticas
jornal a crítica ---

Em três anos, a Amazônia Ocidental passou por duas cheias e uma seca recorde, consequência de eventos extremos climáticos que já vêm se repetindo nas últimas décadas. Cientistas, assumidamente surpresos com esta recorrência, decretam: se a tendência se acentuar e se manter, não há como descartar que as mudanças climáticas e suas consequências estão por detrás destes eventos na Amazônia. Em 2009, quando o nível do rio Negro, em Manaus, bateu a cota de 1953, com oito centímetros a mais (29,77m), o recorde foi considerado “normal”. Pouca gente esperava que apenas três anos depois outro recorde se registraria. Desta vez, com uma diferença de 20 centímetros.

O descuido e a indiferença foram tão significativos que pouco se fez para enfrentar uma nova subida recorde do rio Negro. Mudanças climáticas já estão em curso no planeta. Resta continuar estudando para confirmar se a atribuição dessas mudanças já pode ser aplicada de forma mais localizada, como no caso da Amazônia. O alerta é feito pelo físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), membro do Painel do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU). “Se estas cheias e secas grandes e mais frequentes se repetirem a cada cinco anos, realmente poderemos atribuir estes extremos às mudanças globais e climáticas”, disse Artaxo, em declaração a A CRÍTICA.

 Com esta recorrência, Artaxo diz que já está na hora de “proteger melhor as cidades” e que a sociedade “se instrumentalize” para enfrentar novos eventos semelhantes. Em 2012, uma combinação de fatores que abrange circulações atmosféricas, anomalias das condições oceânicas e intensidade de fenômenos meteorológicos (La Niña) ajudou a intensificar o período chuvoso na Amazônia, que começa normalmente em novembro. Como consequência, um acúmulo de água em grande parte da bacia amazônica. As incertezas se uma cheia de grande magnitude é fruto de um ciclo natural ou resultado de alterações no clima são muitas, mas talvez não por muito tempo. Para Carlos Nobre, um dos maiores especialistas em mudanças climáticas do mundo, se eventos como grandes cheias e grandes vazantes voltarem a se repetir em um curto espaço de tempo até 2020 ou 2025 a probabilidade disso ser “uma coisa absolutamente natural” vai perder força para a ciência.

ANGÚSTIA
Carlos Nobre utiliza-se de um argumento que, em um primeiro momento, pode deixar ainda mais angustiado quem está atrás de respostas imediatas da ciência. “A probabilidade de termos, em 107 anos, as duas maiores cheias e as duas maiores secas é pequena, mas isso não nos autoriza a dizer que é efeito de mudanças climáticas. Mas se este padrão continuar até 2020 ou 2025, afirmar que isso não tem a ver com aquecimento do planeta vai ser improvável”, diz Nobre, em entrevista a A CRÍTICA. Carlos Nobre é o atual secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação (MCTI). Foi diretor do Inpe e coordenador da Rede Clima. Nobre também preside o Conselho Diretor do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.

VOLUME EXTREMO
Em conversa com a reportagem de A CRÍTICA, Carlos Nobre se disse “surpreso como cientista” com a cheia de 2012. “A gente consegue explicar física e hidrologicamente a cheia. Mas este ano ela foi muito volumosa. Já tinha chovido nas cabeceiras do Madeira e em outros rios da margem sul. Então vem uma onda de cheia dos tributários do Norte. Elas (as cheias) subiram mais do que em 2099”, explicou. Como gestor público e como cientista, o secretário Carlos Nobre defende a pesquisa que não apenas aponte as causas, mas que também subsidie tomadas de decisão.