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Amazônia
MULHERES NA CIÊNCIA

Pesquisadora do Inpa recebe prêmio em Paris por estudo sobre mudanças climáticas

Fernanda Werneck é a única brasileira premiada na edição internacional da “Rising Talents”, que acontece dia 21 de março 19/03/2017 às 05:00
Show paris
A pesquisadora do Inpa, Fernanda Werneck, foi a vencedora do Prêmio Para Mulheres na Ciência, da L’Oréal, em 2016 (Foto: Márcio Silva)
Silane Souza Manaus (AM)

Entender a nossa biodiversidade para poder valorizá-la e preservá-la a médio e longo prazo, além de repensar nossos hábitos para deter o avanço do aquecimento global. É o que defende a pesquisadora Fernanda Werneck, 35, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC), uma das 15 cientistas do mundo – a única brasileira – a ser agraciada na edição internacional da premiação Rising Talents, evento que acontece no próximo dia 21, em Paris, na França. 

Werneck, que em 2016 venceu o prêmio Para Mulheres na Ciência - entregue pela L'Oréal, juntamente com a Unesco e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) - lidera uma pesquisa que integra abordagens ecológicas e evolutivas utilizando lagartos como organismos-modelo para avaliar os efeitos de mudanças climáticas globais na variação genética e padrões de fluxo gênico através do ecótono (região de transição Amazônia-Cerrado), as capacidades adaptativas e os riscos de extinção das espécies.

De acordo com ela, os estudos têm como objetivo aprimorar o conhecimento sobre a biodiversidade dessa região, que coincide com o Arco do Desmatamento, e abrange mais de 500 mil quilômetros quadrados entre Pará, Mato Grosso, Rondônia, Acre e Amazonas, para ajudar a criar melhores estratégias de conservação. “Esses animais dependem muito de temperaturas ambientais para regular a temperatura do corpo e são mais suscetíveis às mudanças”, aponta a cientista brasileira. 

Ela revela que estudos preliminares mostraram que as populações de lagartos vivem em temperaturas críticas, sendo que os limites máximos térmicos que as espécies parecem suportar são maiores no ecótono do que na porção central da Amazônia. “Estamos usando abordagens atuais de sequenciamento de DNA para saber se essas populações passaram por processo seletivo, se aguentam temperaturas maiores do que já foram selecionadas para entender onde estariam mais em risco de extinção”.

A pesquisadora explica que esse tipo de pesquisa é muito importante para subsidiar estudos posteriores sobre as espécies. “Não é muito fácil chamar atenção para essas pesquisas básicas porque muitas pessoas têm dificuldade de ver sua aplicação. Mas, para preservar, a gente precisa entender. Estou muito feliz. É uma honra muito grande poder receber esse reconhecimento que vem premiar não só uma carreira, mas um projeto que é fruto de um esforço colaborativo”, disse Fernanda Werneck. 

Mudanças climáticas

Ela destaca ainda que muitas pessoas têm tendência a acreditar que “está tudo bem”, que as espécies estão e sempre estiveram na nossa fauna, mas as mudanças climáticas que estamos enfrentando são muito diferentes dos ciclos climáticos do passado. “Estão acontecendo em escala de tempo muito curto e as mudanças são drásticas na temperatura, precipitação (chuva), estações, entre outras. A gente não sabe se as espécies vão ter tempo hábil para ter respostas evolutivas adaptativas e diversidade genética de hábitats conservadas para que possam migrar”, alerta. 

Melhores do mundo

O Internacional Rising Talentes, concedido anualmente a 15 pesquisadoras, foi criado em 2014 pelo programa L’Oréal-Unesco For Women in Science. As vencedoras deste ano foram escolhidas entre as vencedoras dos prêmios nacionais na África e Estados Árabes, Ásia-Pacífico, Europa, América Latina e América do Norte.

Próxima edição está inscrevendo

Estão abertas as inscrições para a 12ª edição do prêmio “L’Oréal-UNESCO-ABC Para Mulheres na Ciência”.  Para participar, é necessário que a candidata tenha concluído o doutorado a partir de 2010, tenha residência estável no Brasil, desenvolva projetos de pesquisa em instituições nacionais, entre outros. As vencedoras de 2017 serão conhecidas em julho e a cerimônia de premiação será realizada em outubro, no Rio de Janeiro.

As participantes concorrem a uma bolsa de R$ 50 mil O regulamento completo pode ser conferido pelo: http://zip.net/bjtFcl. As inscrições vão até o dia 8 de abril através do site: http://www.paramulheresnaciencia.com.br/inscricoes. Os trabalhos premiados podem concorrer no International Rising Talents 2018.

Fatos em números

– Só 30% dos profissionais de ciência são mulheres;
– Em 2016, pela primeira vez, a NASA teve uma turma de astronautas com a mesma quantidade de homens e mulheres;
– Apenas 3% dos prêmios Nobel Científicos foram dados a mulheres;
– As equipes científicas que respeitam a paridade são 34% mais citadas pelos pares, segundo a Universidade de Montreal;
– A média de participação das mulheres nas pesquisas na América Latina e Caribe é 44%;
– Em média, uma estudante mulher tem 35% de chance de se matricular em um bacharel científico, 18% de chance de se formar, 8% de fazer um mestrado e 2 % de ser doutora em ciência. 
– Para os homens, os índices são, respectivamente: 77%, 37%, 19% e 6%. 

Fonte: BCG 2013

Elas estão produzindo mais

Além de um reconhecimento, o prêmio International Rising Talents é uma inspiração muito importante para a promoção e incentivo do papel de carreiras femininas de sucesso na ciência, área que ainda, em geral, é dominada por homens, aponta a pesquisadora Fernanda Werneck, 35, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). “As mulheres ainda têm mais provações no caminho, embora isso esteja mudando no Brasil”.

Werneck se referiu a um estudo sobre gênero no cenário global de pesquisa lançado no último dia 8 deste mês, Dia da Mulher, pela Elsevier, que apontou que a proporção de mulheres que publicam artigos científicos – principal forma de avaliação na carreira acadêmica – cresceu 11% no Brasil nos últimos 20 anos. Agora elas publicam quase a mesma quantidade que os pesquisadores homens (49%), de acordo com o levantamento feito em 11 países e na União Europeia.

“O Brasil está tomando uma posição importante para reverter esse viés de gênero na ciência e trilhando um caminho de vanguarda. Mas a gente precisa continuar estimulando e incentivando as mulheres porque a maior parte das estatísticas mostra que a diferença de gênero se acentua exatamente com a progressão da carreira, indicando que alguma coisa acontece e faz a mulher abandonar a carreira ou parar de progredir”.

A pesquisadora explica que a maioria dos casos coincide com o período em que a mulher costuma fazer planos familiares, mas não tem incentivo para manutenção de sua carreira, como licença maternidade remunerada não só para as cientistas com cargos efetivos, mas para bolsistas de pós-graduação, mestrado e doutorado. “Em muitas circunstâncias ela se veem totalmente desamparadas”.