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Plantação às margens do Igarapé do Mindu corre risco de contaminação, em Manaus

Pequenos agricultores produzem hortaliças irrigadas com águas de poços artesianos, que podem estar poluídos também 08/07/2012 às 17:31
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O agricultor Kelemilton Napoleão Campos mandou perfurar um poço para irrigar terreno, que é cortado pelo igarapé
Leandro Prazeres Manaus (AM)

Ao longo de seus 24 quilômetros, o igarapé do Mindu presencia todo tipo de ocupação urbana. É o esgoto de palafitas, mansões, arranha-céus e conjuntos residenciais. Mas é ainda no bairro Cidade de Deus, Zona Leste, onde ele nasce, que encontramos uma ocupação bastante peculiar para a região: uma plantação. Kelemilton Napoleão Campos, 36, desafia o caos para levar a vida como agricultor, em plena metrópole, às margens do igarapé.

Kelemilton nasceu na comunidade do Paraná da Eva, na Zona Rural de Manaus. Foi lá que ele aprendeu a tirar o sustento da terra. Há nove anos, depois de passar por alguns cursos de aperfeiçoamento no interior, decidiu se mudar para a capital. A dificuldade para encontrar terras disponíveis a um preço acessível o empurrou para o bairro Cidade de Deus.

“Quando eu cheguei aqui, esse terreno era um lamaçal medonho. Um dia, vieram umas caçambas tirar terra do igarapé e eu pedi que jogassem areia aqui no terreno. Demorou uns três anos para eu conseguir trabalhar o terreno do jeito que eu queria”, afirma. O igarapé do Mindu passa nos fundos de sua pequena plantação.

Hoje, a plantação de Kelemilton parece viçosa. Em um espaço de pouco mais de 400 metros quadrados  ele planta cebolinha, cheiro-verde, coentro e outras hortaliças. Vende toda a produção na Feira da Manaus Moderna, no Centro, ou na Bola do Produtor, na Zona Leste. Ele montou esfufas plásticas em outra parte de sua propriedade e irriga tudo com a água que tira de um poço artesiano que  mandou furar há alguns anos. “Não dá para usar a água do igarapé. Está muito suja. Por isso eu furei o poço”, explica. O problema é que o poço não resolve os problemas de Kelemilton.

Análise

“O processo de degradação do Mindu é tão longo e intenso que é provável que já tenha atingido parte do lençol freático que abastece o poço dele”, afirma a pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) Hillândia Cunha Brandão. Para tirar a dúvida, ela fez um teste rápido para avaliar o PH da água saída do poço perfurado por Kelemilton. “Pelo que eu estou vendo aqui...não está boa, não”, afirmou.

Hillândia diz que a água poluída que corre no leito do igarapé pode se infiltrar pelo solo e atingir o lençol freático, comprometendo a qualidade da água não apenas do poço de Kelemilton, mas de toda a área às margens dele. “É preciso que seja feito um melhor monitoramento da qualidade da água dos poços da região, mas a princípio, aqueles que estão próximos ao igarapé deverão ter suas águas contaminadas de alguma forma”, diz.

Poluição

A contaminação do poço do agricultor Kelemilton Napoleão Campos, 36, não surpreende o geólogo do Serviço Geológico do Brasil José Luis Marmos. Segundo ele, todos os poços rasos (abaixo de 100 metros) perfurados próximos a igarapés poluídos estão sujeitos a contaminações.

Marmos explica que a infiltração da água poluída no solo compromete a qualidade dos lençóis freáticos mais superficiais. “A gente encontra esse problema em toda a cidade de Manaus, que é entrecortada por igarapés, na sua maioria, poluídos, e que tem uma carência muito grande de abastecimento de água encanada”, explica.

Para evitar a água contaminada é preciso perfurar poços acima de 100 metros. “Um poço mais profundo implica em mais custos. O ideal né que nessas áreas sujeitas a contaminação, os poços tenham mais de 100 metros de profundidade, mas a gente sabe que isso, nem sempre, está dentro da realidade da população”, diz.