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Poluição: a ‘pesca’ de latas de alumínio gera renda para moradores de Manaus

Com a vida das espécies de peixe por um fio, pescadores aproveitam redes, canoas e remos para buscar nas águas poluídas toneladas de latas de alumínio, que são vendidas no mercado local e aumentam a renda das famílias de moradores das margens 08/07/2012 às 17:29
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No lugar do peixe, pescadora captura latas, ferro e peças plásticas
Leandro Prazeres Manaus (AM)

A cada dois ou três dias, à medida que a vazante aumenta, Deusa de Souza Silva, 35, repete o mesmo ritual. Pega o remo, arruma a rede, se ajeita em sua canoa e sai para pescar. Mas o que faz a pescaria de Deusa especial, ou, no mínimo, diferente, é que não é de peixes que ela vai atrás, mas sim de latas de alumínio. Se para a maioria da população de Manaus o lixo é um problema com o qual não quer lidar, para Deusa e sua família, os resíduos  jogadas no igarapé do Mindu são um complemento de renda  importantíssimo.

Deusa morou durante a juventude na região do Tarumã-Mirim, na Zona Oeste, mas hoje reside no bairro São Geraldo, zona Centro-Sul. Foi nas águas do igarapé do Tarumã  que aprendeu a pescar, como ela mesma diz, “de verdade”. “Tenho todos os apetrechos. Tenho até a carteirinha da colônia de pescadores. Sou cadastrada. Mas quando me mudei pra cá, vi que não tinha muito o que fazer nesse igarapé. Daí a gente começou a pescar lata”, contou a inusitada pescadora.

Deusa explica que pescar latas tem um lado bom e outro ruim. “O bom é que a gente sabe onde as latas estão. A gente vai com a canoa pelo igarapé até uma área onde tem várias delas. Normalmente, é perto de alguma galhada. A gente joga a rede pra juntar elas todas e aí é só colocar dentro da canoa e ir embora (para vender)”, diz.


Moradores dos arredores do igarapé sobrevivem retirando lantinhas que são lançadas na água. (Foto: Márcio Silva)

A parte ruim dessa pescaria são os riscos a que Deusa fica sujeita. “Esse igarapé está imundo. A gente morre de medo de pegar uma doença e por isso até usamos luvas de proteção. Tenho medo de acabar virando a canoa e caindo nessa água. É doença na certa”, analisa. “Outro medo que a gente tem é na hora de amassar as latinhas pra vender. A gente amassa com os pés. Se fizermos errado, a gente corta o pé, e aí pode infeccionar”, explica a pescadora de latas do Mindu.

No aglomerado de palafitas situado na margem esquerda do Mindu, no bairro São Geraldo, Deusa não é a única pescadora de latinhas. José Carlos Correia da Fonseca, 58, é o mais antigo por ali. Desde que o diabetes lhe tirou as forças para trabalhar como pedreiro, ele  tem recorrido à “pescaria” para ajudar a pagar as contas da família. “O quilo do alumínio está R$ 1,5. Em três dias de trabalho eu consigo juntar uns 50 quilos. Já dá para fazer um ranchinho”, diz José Carlos.

Lixo

Se para as famílias de Deusa e José Carlos o lixo jogado no Mindu é um bom negócio, para os cofres públicos, a situação é bem diferente. Todos os anos, a Prefeitura de Manaus gasta em torno de R$ 6 milhões com a retirada de lixo dos igarapés da cidade. Apenas com a limpeza do Mindu são gastos R$ 2 milhões anualmente.

De acordo com dados da Secretaria Municipal de Limpeza e Serviços Públicos (Semulsp), todos os dias, funcionários da prefeitura retiram 15 mil quilos de lixo dos igarapés de Manaus. Balsas, guindastes e mergulhadores são utilizados para fazer este serviço.

Ao longo de um ano, a prefeitura estima recolher 5,4 mil toneladas de lixo, o suficiente para encher 540 caçambas de grande porte.

De acordo com a Semulsp, 60% de todo o lixo recolhido é reciclável. Por meio de sua assessoria de imprensa, a Semulsp informou que a população de Manaus ainda é resistente à separação do lixo.

Conscientização

A Semulsp informou ainda que mantém projetos para a formação de “conscientizadores ambientais” que trabalham sob a coordenação da Comissão Especial de Divulgação e Orientação da Política de Limpeza Pública (Cedolp). Segundo o órgão, a ideia do projeto é fazer com que esses conscientizadores visitem as casas dos moradores das margens dos igarapés alertando para a responsabilidade sobre o lixo gerado em cada residência.

A secretaria alerta, no entanto, que este é um trabalho que “rende frutos” muito lentamente. “É difícil convencer uma pessoa de que ela é responsável pelo lixo que gera e por cuidar do local onde ela vive”, disse a assessoria de imprensa da secretaria.

Reciclagem

É por conta de catadores como Deusa Silva e José Carlos Correia da Fonseca que o Brasil se tornou um dos maiores recicladores de alumínio do mundo, ao lado de China e Estados Unidos.

 Qualidade

A lata de alumínio é 100% infinitamente reciclável, o que diminui os danos ao meio ambiente.