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Pró-reitor de Extensão da Ufam diz que as discussões colocadas na Rio+20 são as mesmas da Eco-92, mas adotadas por discursos falaciosos

Frederico Arruda defendeu a aplicação do projeto Ficha Limpa aos políticos para banir os que usam o discurso “falacioso” adotado também por empresas e corporações sobre o “desenvolvimento sustentável”, que não têm qualquer compromisso com o ambiente 16/06/2012 às 19:16
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“O que muda o mundo é o que se sente no coração”, disse o Pró-reitor de Extensão da Ufam, Frederico Arruda
Ana Celia Ossame Manaus

O professor da universidade Federal do Amazonas (Ufam), Frederico Arruda, é pessimista quanto aos resultados da Rio + 20 porque, no entendimento dele, quem governa os países é o “capitalismo financeiro nocivo” que só visa o lucro, sem nenhuma preocupação com a preservação  ambiental, ainda que isso signifique risco fatais para a vida no Planeta. Em entrevista ao jornal A CRÍTICA, ele defendeu a aplicação do projeto Ficha Limpa aos políticos para banir os que usam o discurso “falacioso” adotado também por empresas e corporações sobre o “desenvolvimento sustentável”, que não têm qualquer compromisso com o ambiente.

O que mudou no Brasil desde a Eco-92?
A questão ambiental era o ponto central da Eco 92, mas houve atenção especial com as questões socioeconômicas, mais discutidas hoje. Havia uma clareza de que não adiantava colocar o discurso retrógrado e inconsistente de que mais importante é o homem acima da natureza, porque não adianta preservar florestas sem cuidar do homem. E sabia-se que a preservação seria decorrência natural de uma vivência mais saudável entre o homem e a natureza, possibilitando um acesso mais justo aos recursos naturais, renováveis ou não. Isso estava no horizonte das discussões.

Então as preocupações continuam as mesmas?
Nada do que se coloca hoje é novo. Passados todos esses anos, parece que não se percebeu que inclusão social, justiça social e o desenvolvimento que contemple isso depende de uma análise crítica radical desse modelo econômico, o capitalismo injusto e nocivo. Não vamos resolver esses problemas sociais e ambientais sem atacar esse modelo econômico, que leva o mundo à bancarrota. A economia do mundo está na UTI e todo oxigênio dado a ele é às custas de muito sacrifício do cidadão comum, que paga o preço do capitalismo da especulação, das corporações e da imoralidade, porque o grande capital é um modelo de expansão e saque sem limite aos recursos naturais.

E os discursos sobre o desenvolvimento sustentável são válidos?
Infelizmente, muitos hipócritas se apossaram desse discurso. Veem-se os piores “ecocidas” falando em desenvolvimento sustentável. Todo discurso político traz o respeito à natureza e ao homem, mas é falacioso. Essa equação, a maioria absoluta dos políticos não consegue resolver porque tiveram sua eleição financiada por quem depreda o ambiente. Quando você vê prefeitos e vereadores ameaçando a integridade física de agentes do Ibama, como no Município de Lábrea, no Amazonas, percebem-se quantos interesses escabrosos estão por trás deles.

Isso influencia como a Rio + 20?
Quem vivenciou a Eco-92 levou uma bagagem saudosista da melhor qualidade, pois ainda tinha os rios limpos, as florestas preservadas e, com isso, na memória e no coração, levaram envolvimento emocional para o encontro. Agora, na Rio + 20, estão à frente os intelectuais, que não são capazes de mudar o mundo, porque o que muda o mundo é o que se sente no coração, é a emoção.

O que o senhor espera da Rio + 20?
Não espero nada. Como um país que invade o Iraque vai se falar em sustentabilidade. A guerra é terrível sob todos os aspectos, mas principalmente para o ambiente, pois há explosão de poços de petróleo, uso de agentes químicos desfolhantes, poluição hídrica e muitas desgraças.

O senhor não acha que ter tantos países reunidos na Rio + 20 pode trazer algo novo?
O capitalismo globalizado tem mais poder que todos os presidentes reunidos. Quem governa o mundo são as grandes corporações internacionais, que não têm pátria e só querem o lucro, a qualquer preço.

Há uma mobilização maior dos municípios para Rio + 20. Isso é importante para os resultados dela?
A melhor maneira de trabalhar a questão ambiental seria municipalizar sem fragilizar a presença da União e do Estado nesse processo. Essas ações devem ser bem vindas se elas honestamente seguirem uma vertente de proteção do cidadão e do meio ambiente. Mas é preciso notar que, se de um lado é preciso fortalecer os municípios para serem gestores dessas questões, não se pode deixar de perceber a fragilidade que eles têm em relação às imposições do grande capital descomprometido com qualquer coisa séria. Os municípios são frágeis diante do poder das grandes corporações, que conseguem se infiltrar forte até mesmo na esfera federal.

Então, não há esperanças?
Eu tenho, no sentido de que as pessoas recuperem a capacidade de se indignar e se libertem dessa lavagem cerebral, saibam que estão sendo usadas e manipuladas. Penso que se os institutos passarem a cumprir seu papel de estimular o debate, isso pode mudar. Defendo uma lei da ficha limpa também na área ambiental. Está na hora de perguntar quais os candidatos que têm ficha limpa com o ambiente, qual é a história deles em relação às injustiças sociais, ambientais. Se não tiverem mão limpas nessa questão, não podem ser candidatos. Só assim poderemos pensar em deixar para as novas gerações um mundo menos fragilizado e mais solidário.

Frederico Arruda
Estudos: Professor mestre em Farmacologia

Experiência: Pró-reitor de Extensão da Universidade Federal do Amazonas.

Projetos:  Foi um dos idealizadores e fundadores do projeto Jaraqui, em 1982, retomado este ano por professores e membros da sociedade civil interessados em discutir e propor soluções para temas de relevância na sociedade amazonense.