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Amazônia
Meio ambiente, Peixe-boi, Ampa, Inpa, Petrobras

Programa de reintrodução de peixe-boi, no Amazonas, é apresentado em congresso internacional

O resumo será apresentado durante o X Congresso Internacional de Manejo de Fauna Silvestre na Amazônia e América Latina, em Salta (Argentina) 16/05/2012 às 14:05
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Peixe-boi é um dos mamíferos aquáticos da Amazônia
acritica.com Manaus

A implementação do processo inédito de semi-cativeiro de peixes-bois da Amazônia e a adaptação desses animais ao novo ambiente é o tema do trabalho intitulado “Quando apenas retornar para a natureza não é suficiente: novas etapas para a reintrodução de peixes-bois da amazônia no Brasil”, do biólogo pesquisador da Associação Amigos do Peixe-boi (Ampa) que atua em parceria com o Laboratório de Mamíferos Aquáticos (LMA) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), Diogo Souza.

O resumo do trabalho será apresentado durante o X Congresso Internacional de Manejo de Fauna Silvestre na Amazônia e América Latina, em Salta (Argentina), que encerra na próxima sexta-feira (18).

Os resultados foram obtidos por meio de experimentos do Programa de Reintrodução de Peixes-bois da Amazônia Criados em Cativeiro, realizado desde 2008 pela Ampa e Inpa, por meio do LMA, com o apoio da Petrobras e sugerem que peixes-bois da Amazônia mantidos em cativeiro, por curtos períodos de tempo, apresentam alta percepção do ambiente natural e maior habilidade na readaptação à natureza.

“O sucesso do programa de reabilitação no Inpa gerou um excedente de indivíduos prontos para retornarem à natureza, tornando viável a reintrodução no ambiente natural de peixes-bois cativos visando à manutenção das populações naturais da espécie”, explica Souza.

Resgates
Nos últimos dez anos, 77 filhotes órfãos de peixes-bois da Amazônia foram levados ao Parque Aquático Robin C. Best do Inpa e ao Centro de Preservação e Pesquisa dos Mamíferos Aquáticos (CPPMA), situado na área de atuação da Usina Hidrelétrica de Balbina, localizada no município de Presidente Figueiredo – a 107 quilômetros de Manaus.

Os animais foram resgatados pelo Ibama ou Polícia Ambiental; desses, 68 foram reabilitados pela equipe.

Reintrodução
Com o intuito de fechar o ciclo: resgate, reabilitação e soltura, a primeira reintrodução foi em março de 2008. Quatro exemplares voltaram para a natureza. O monitoramento pós-soltura, segundo pesquisadores da Ampa e Inpa, é fundamental para verificar a adaptação dos animais às novas condições de vida e a utilização do habitat, bem como avaliar o sucesso das reintroduções.

“Dos quatro animais que voltaram à natureza, dois morreram, um perdeu o cinto com o rádio transmissor, e o quarto foi encontrado muito debilitado e trazido de volta para o Inpa. Hoje ele já está recuperado e é novamente candidato a voltar a viver nos nossos rios amazônicos. Por isso que o protocolo de soltura foi alterado. Colocamos mais uma etapa no Programa que é o semi-cativeiro. Nós percebemos que ele favorece a readaptação gradual dos peixes-bois à natureza, permitindo aclimatar os indivíduos às condições naturais do ambiente, como temperatura, turbidez, correnteza da água, variação sazonal do nível dos rios, alimento natural e minimizar o comportamento estereotipado de natação nos tanques do LMA/Inpa onde foram criados”, ressalta Diogo.

Semi-cativeiro
Em outubro de 2011, três animais que viviam em cativeiro no Inpa foram translocados para um ambiente de semi-cativero, no município de Manacapuru – a 84 quilômetros de Manaus. Em março deste ano, mais dois exemplares da espécie foram também encaminhados para este recinto. Paricatuba, Iranduba, Matupá, Mapixari e Anori foram os contemplados para participar dessa etapa.

“Oito animais foram avaliados sob critérios de idade, peso, tamanho, baixa domesticação e estado clínico. Desses, escolhemos três machos e duas fêmeas que foram considerados aptos para a soltura”, explica Souza.

Resultados e discussão
Nos primeiros dias após a liberação, Matupá e Paricatuba permaneceram juntos, próximos ao local de soltura, e mantiveram o comportamento estereotipado de natação do cativeiro. Após este período, os animais gradativamente se afastaram e começaram a nadar por todo recinto.

Diferente dos machos, Iranduba apresentou maiores deslocamentos e alto ritmo de atividade. Desde o início da soltura, permaneceu independente, explorando todo o recinto, deslocando-se para áreas mais profundas e com maior circulação de água. O animal chegou ao Inpa em outubro 2010, com idade estimada de um ano e permaneceu por mais 12 meses em cativeiro.

Em abril de 2012, outros dois animais em condições semelhantes aos anteriores, foram liberados no semi-cativeiro, Mapixari e Anori. Para esses animais, ainda não existem resultados analisados. “A fase de pré-soltura (semi-cativeiro) mostra-se como requisito fundamental para auxiliar a readaptação gradual de peixes-bois da Amazônia, criados em cativeiro, às condições dos rios amazônicos”, conta o pesquisador.

Os resultados sugerem que peixes-bois da Amazônia mantidos em cativeiro por curtos períodos de tempo, apresentam alta percepção do ambiente natural e maior habilidade na readaptação a um novo ambiente, reforçando a importância de escolha adequada dos animais para integrar programas de reintrodução com a espécie.

O biólogo explica ainda que esses resultados podem ser importantes para a conservação dessa espécie, atualmente ameaçada de extinção. “Por se tratar de um projeto em longo prazo, as experiências e resultados acumulados até o momento são extremamente importantes para traçar as diretrizes de manejo e conservação dessa espécie endêmica e vulnerável da Amazônia”.