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Quadrilhas de "coiotes" já atuam junto aos haitianos que procuram entrar no Brasil

Quadrilhas de tráfico de pessoas já estão atuando em rotas que operam tanto dentro quanto fora do Brasil 28/01/2012 às 15:06
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Redes de tráfico tem informações completas sobre travessia
Leandro Prazeres Manaus

TABATINGA (AM) - Eles não tem nome nem nacionalidade, mas, segundo o relato de haitianos que já chegaram ao Brasil, os “coiotes”, traficantes de seres humanos, estão atuando dentro do território brasileiro em pelo menos três rotas diferentes. Ao contrário do que imaginou o Governo Federal, a imposição de uma cota de 1,2 mil vistos humanitários anuais aos imigrantes do país caribenho, parece que não terá o efeito de frear esse processo. O que se observa nas fronteiras do Brasil é que a medida pode aumentar ainda mais a demanda pelos “serviços” dessas quadrilhas.

 A resolução do Conselho Nacional de Imigração (Cnig) publicada no dia 13 de janeiro estabeleceu uma cota de 1,2 mil vistos humanitários a serem concedidos pela embaixada brasileira em Porto Príncipe, capital do Haiti, aos que queiram vir ao Brasil. A medida foi defendida pelo ministro de Relações Exteriores, Antônio Patriota, como uma forma de regulamentar a entrada dos imigrantes no País e diminuir a atuação dos “coiotes”. Entretanto, o estabelecimento da cota teve um efeito colateral até certo ponto previsível. Centenas de haitianos que já estavam a caminho do Brasil foram pegos de surpresa e agora, sem dinheiro e nem esperança de entrarem legalmente no País, eles só têm a clandestinidade como opção.

“Nós viemos para trabalhar e não temos como voltar para o nosso país. Assim como eu tem muitas pessoas. Não temos outra escolha. Se não nos deixarem entrar legalmente, vamos encontrar outras formas”, disse um imigrante, de 35 anos, que pediu para não ser identificado.

Os arranhões no rosto do filho de um ano que Anite Antoine, 30, carrega no colo são a lembrança mais evidente dos dias em que ela e um grupo de 22 haitianos tiveram que passar escondidos na fronteira entre o Peru e o Brasil para ingressarem em terras brasileiras de forma clandestina. Eles entraram pelo Estado do Acre, e os “coiotes” esconderam o grupo durante cinco dias na cidade fronteiriça de Inhampari. Foi durante o trajeto que o filho se arranhou. “Nós tivemos que andar pelo mato para cruzar a fronteira. Eles (coiotes) nos mantiveram durante cinco dias em uma cidade chamada Inhampari até que fomos para Brasileia e depois para Porto Velho”, conta Anite, que chegou a Manaus há poucos dias, onde foi acolhida em um abrigo da Igreja Católica. O visto, ela conseguiu em Brasileia (AC).

Esquemas

De acordo com os relatos dos imigrantes haitianos, os “coiotes” são encontrados na porta do Aeroporto Internacional de Lima, por onde a maioria de imigrantes chega em voos que saem de Porto Príncipe ou Santo Domingo, na República Dominicana. Oficialmente, eles se anunciam como agentes de turismo, mas na prática, atuam quase que extorquindo os que se arriscam na travessia.

Entretanto, não é apenas no Peru que os “coiotes” estão atuando, dizem os imigrantes. Já existem rotas sendo exploradas dentro do Brasil que levam hatianos do Acre ao Amazonas e do Amazonas para a Guiana Francesa, passando pelo Pará e pelo Amapá, ou atravessando a República da Guiana, segundo relatos dos imigrantes.

 Gressy Zdenca, 21, chegou a Tabatinga há três meses. Foi na cidade que engravidou de um haitiano que, assim como ela, também chegou em busca de tentar a vida no Brasil. Impaciente com a demora no atendimento da Polícia Federal, o jovem deixou Tabatinga sem o protocolo do pedido de refúgio em direção à Guiana Francesa.

 “Nós conversamos com vários imigrantes que nos disseram que se o Brasil não conceder algum tipo de anistia aos ilegais, eles vão recorrer aos coiotes e tentarão atravessar a fronteira do Brasil com a Guiana Francesa. Existe uma espécie de rede de comunicação entre os próprios haitianos que já espalhou essa rota. O atrativo do país seria a facilidade com o idioma, já que eles falam francês, e a possibilidade de conseguirem um asilo concedido pela França”, diz a psicóloga Oinara Moura Rabelo, da Organização Não-Governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF).

* Colaborou Felipe Libório


Estado vai investigar quadrilhas

A atuação dos “coiotes” já é conhecida da Polícia Federal, mas nenhuma autoridade brasileira sabe dar a dimensão do poder que elas exercem. No final de 2011, uma pessoa foi presa em Tabatinga suspeita de pertencer a uma quadrilha de tráfico de seres humanos que trazia os haitianos do Peru para o Brasil, mas a investigação esbarrou em um detalhe.

 “Eles (as vítimas) não querem falar, não querem se expor. Nós já ouvimos muitos relatos sobre os coiotes, mas quando vamos investigar, os haitianos não nos ajudam porque eles estão em uma situação muito vulnerável”, explica o delegado da PF em Tabatinga, Gustavo Henrique. Depois de alguns meses de investigação, o suspeito foi julgado e considerado inocente por ausência de provas e mais nenhuma investigação sobre a atuação desse tipo de quadrilha foi instaurada. Na Superintendência da PF no Amazonas, em Manaus, também não há inquéritos apurando o caso.

A encarregada da rede estadual de enfrentamento ao tráfico de seres humanos da Secretaria de Estado de Justiça do Amazonas (Sejus), Michelle Custódio, diz que a informação sobre a atuação de “coiotes” dentro do Estado é inteiramente nova.

 “Nós não tínhamos conhecimento disso. Sabíamos que havia quadrilhas fora do País colocando essas pessoas para dentro do Brasil, mas essas rotas trazendo-os do Acre e de Rondônia para o Amazonas e mandando-os daqui para a Guiana Francesa são novas”, disse. Michelle afirmou que vai convocar, durante a semana, uma reunião com as autoridades policiais estaduais e federais para pedir uma investigação a respeito.