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Região de Boca do Acre possui mais da metade de todas as aves amazônicas, diz pesquisador

Inventário realizado no final do ano passado registrou aproximadamente 380 espécies, mas biólogo estima na área existam cerca de 700 espécies 27/01/2012 às 19:44
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Cinco espécies de Urutau, ave ainda pouco conhecida, foram detectadas durante pesquisa
acritica.com Manaus

A região do município de Boca do Acre (a 1.028 quilômetros de Manaus) possui mais da metade de todas as aves amazônicas. O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Mario Cohn-Haft, estima que nas Florestas Nacionais do Iquiri e do Purus, existam aproximadamente 700 espécies de pássaros.

Inventário realizado em dezembro de 2011 identificou em unidades de conservação federais, em apenas cinco dias, 380 espécies de pássaros.

“A região representa o ponto de encontro entre a avifauna da Amazônia central com a típica da Amazônia peruana ou acreana. O resultado dessa mistura é uma diversidade estupenda”, destacou Cohn-Haft, em declaração divulgada pelo  Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) nesta sexta-feira (27).

Cohn-Haft foi responsável pela pesquisa realizada entre dias 28 de novembro e 10 de dezembro. O trabalho teve apoio logístico das unidades de conservação (UC) de ICMBio.

Urutau-ferrugem

O objetivo principal da iniciativa foi pesquisar a avifauna residente em manchas de campinas naturais (vegetação baixa que lembra o Cerrado) cercadas por Floresta Amazônica.

A maior dificuldade de estudar esse tipo de ambiente é o acesso as áreas. Pelo isolamento, muitas vezes só é possível ser atingida com ajuda de helicóptero.

“Em poucos dias detectamos todas as cinco espécies de urutaus, aves noturnas da família da 'mãe-da-lua´, que são pouco conhecidas. A última e talvez mais rara dessas, o urutau-ferrugem (Nyctibius bracteatus) só foi encontrado porque o morador que estava nos ajudando reconheceu uma foto do animal e nos levou para a localidade onde disse ter visto um há poucas semanas, próximo aos tabocais, na Floresta Nacional do Purus”, comentou Cohn-Haft.

Diversidade

Segundo Mario Cohn-Haft, a explicação para esta extraordinária biodiversidade está na diversidade de ambientes que ocorrem na região. 

Dentro de poucos quilômetros da sede do município encontram-se tipos diversos de floresta, incluindo matas de terra firme, com e sem taboca, mata de várzea, campinarana e as campinas, cada tipo com suas espécies particulares de aves.

No meio de todos esses pássaros estão algumas espécies raras ou muito procuradas por observadores de aves como, por exemplo, o maracanã-de-cabeça-azul (Primolius couloni), a choca-do-bambu (Cymbilaimus santaemariae), a choca-preta (Neoctantes niger), o formigueiro-do-bambu (Percnostola lophotes), a garrincha-cinza (Cantorchilus griseus), a pipira-azul (Cyanicterus cyanicterus), e uma espécie nova de gralha (Cyanocorax sp.), ainda não descrita formalmente pela ciência.

Turismo

Essas e outras aves encontradas têm um apelo especial para um tipo de ecoturista e a facilidade de encontrar todas elas em uma viagem cria um potencial grande para o turismo de observação de aves na região, atividade que movimenta milhões de dólares no mundo todo e representa uma alternativa de renda para moradores locais.

Tal fato destaca a importância dos moradores tradicionais, residentes das unidades de conservação como colaboradores na pesquisa científica.

 “O apoio do ICMBio em Boca do Acre, e, em especial, dos moradores locais e da brigada de incêndio foram fundamentais no sucesso da expedição a áreas que normalmente são de difícil acesso. Poder chegar de carro a um exemplar tão grande e bem preservado de campina amazônica é um privilégio que não deve ser reservado somente para pesquisadores. O público merece ver isso”, concluiu o pesquisador.

Manejo

Para o chefe da Floresta Nacional do Purus, Ricardo Sampaio, o primeiro inventário ornitológico na região vai contribuir para a gestão da unidade de conservação e para formulação do plano de manejo da Floresta Nacional do Iquiri que ainda não foi elaborado.

“De forma integrada podemos aumentar o número de pesquisas realizadas em nossas UC. A região de Boca do Acre é importantíssima biogeograficamente. A ideia é fomentar o ecoturismo na região, gerando renda de forma sustentável aos moradores tradicionais, além de melhorar a estrutura logística de ambas as florestas e do escritório regional do ICMBio”, afirmou Ricardo.