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Ribeirinhos temem a degradação do Encontro das Águas

Cem famílias da comunidade São José acordam todos os dias vendo e ouvindo o maior fenômeno hidrológico da Amazônia  26/11/2012 às 08:58
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Alessandra Queiroz nasceu e vive na comunidade São José, mas até hoje se emociona ao olhar para o Encontro das Águas dos rios Negro e Solimões
Elaíze Farias Manaus

O privilégio de dormir e acordar vendo e ouvindo o “Encontro das Águas” é de 100 famílias que vivem na comunidade São José, uma das três que fazem parte de uma comunidade maior chamada Terra Nova. E um dos maiores desejos dos moradores é proteger a área para que a paisagem permaneça livre de interferências, como porto e navios atracadores.

Não fossem os problemas da comunidade, como falta de posto médico e a inexistência de escola, os moradores de São José se sentiriam “no paraíso”, como descreveu Alessandra Queiroz, formada em Letras e que atualmente estuda Enfermagem. “A gente vê (o encontro das águas) todos os dias. Muitas pessoas  se acostumaram, mas eu sempre me emociono”, diz Alessandra, que  tomou “uma vez” banho bem na confluência dos dois rios para passar pela experiência, mas hoje prefere contemplar apenas de longe, de um barranco que durante a cheia fica coberto. “Mas a gente recebe grupos de turistas e muitos deles chegam a chorar quando vêem o encontro. Ficam emocionados”, conta Alessandra, que nasceu e vive na comunidade São José.

Do outro lado da comunidade São José, o cenário é o rio Negro, a Ponta das Lajes e a estação do Proama, em Manaus. “Tentaram fazer um porto aqui na frente mas a gente não quis. Iria ficar bem no meio do encontro das águas. E ainda disseram que os navios iam atracar na nossa comunidade”, contou Alessandra.


São José fica exatamente “em frente” do Encontro das Águas. Na extremidade pela margem direita da confluência dos rios, há apenas um banco de solo e areia com esparsa vegetação que surge no período da seca. No local, não existe ocupação humana. 

Conforme relatos de barqueiros, o relevo não existia anos atrás. Isto mostra que as alterações sedimentares são comuns na área. Estudos elaborados pela geóloga Elena Franzinelli e observação em campo indicam que determinados relevos variam conforme o regime do rio e as alterações no curso d´água causadas pelas concentrações dos sedimentos.

A confluência dos dois rios, cujo resultado é um dos mais decantados fenômenos hidrológicos do planeta pela  beleza plástica, é um fenômeno ainda pouco conhecido, mas nos últimos anos passa por diferentes medidas para sua proteção com base em análises científicas. 

Além do tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio cultural e nacional, o Encontro das Águas, junto com a Ponta das Lajes, também pode ser inscrito no inventário da Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (Sigep). Em março deste ano, Elena  e o também geólogo Hilton Igreja inscreveram as duas áreas (Encontro das Águas e Ponta das Lajes) na lista de proteção do Segep com o objetivo de “conservá-las hoje e para as gerações futuras”. O estudo permanece em análise, mas já teve resposta favorável dos órgãos que analisam as propostas, como a Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP), Sociedade Brasileira de Geologia (SBG), Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama).

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