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Ribeirinhos temem volta de conflitos no interior do Amazonas

Um conflito ocorrido há quase 42 anos povoa a memória de ribeirinhos do Lago do Janauacá, entre os Municípios de Manaquiri e Careiro Castanho, e persiste na cabeça dos moradores como um pesadelo sem fim 06/03/2012 às 12:52
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Milton, cujo pai participou da guerra, mostra o lugar exato em que agricultores e pescadores se enfrentaram em 70
Elaíze Farias Manaquiri

Não foi uma grande catástrofe, mas dois pereceram e um impressionante grupo de 700 pessoas foi parar em várias delegacias de Manaus. Dizem que foi a maior prisão coletiva registrada na história do Amazonas.

Um conflito ocorrido há quase 42 anos povoa a memória de ribeirinhos do Lago do Janauacá, entre os Municípios de Manaquiri e Careiro Castanho, na Região Metropolitana de Manaus, e persiste na cabeça dos moradores como um pesadelo sem fim, com receio de que um confronto do mesmo porte se repita.

Para os moradores das áreas protegidas, acordos de pescas e instruções normativas da Prefeitura de Manaquiri e do Governo do Estado firmados nos últimos anos não são suficientes para evitar um novo conflito e coibir a pescaria ilegal. É necessário fiscalização permanente.

Batizada de “Guerra do Peixe”, o conflito de 42 anos atrás perdura como uma lembrança desagradável em quem passou pela experiência. Nos lados opostos estavam os agricultores da comunidade Lago do Italiano e os pescadores da comunidade do Tilheiro - muitos deles eram parentes.

Farto em várias espécies de peixe, a majestosa região do Lago do Janauacá (cortado por igarapés, furos e lagos menores) foi o epicentro da “guerra”, mas o pivô foi o Lago do Italiano. A insistência de alguns pescadores em lançar sua malhadeira na área proibida para pescar curimatã, tucunaré, pirarucu, tambaqui, descontrolou os agricultores.

Naquele dia 31 de dezembro de 1970, um grupo foi recrutado para reagir à invasão do Lago do Italiano. Quem não se escondeu no mato, entrou nos barcos. Foi o caso de Anísio Monteiro Aragão, de 77 anos, agricultor que, após a confusão, chegou a ficar 90 dias preso na Cadeia Pública Desembargador Raimundo Vidal.

A briga feia que resultou na morte (por tiros) de dois pescadores - conhecidos como João Sarapó e Zeca Batista - foi fruto de uma reação em cadeia que começou com o avanço para o Lago do Italiano por um pescador chamado Valdir Silva. “Fizeram uma reunião e o pessoal saiu convidando todo mundo para ‘empatar’ a pesca. Sempre fui contra esse negócio de guerra. Chegaram aqui com um motor onde já havia umas 100 pessoas. Entrei e fomos com a intenção de quebrar a caixa de peixe desse Valdir Silva. Foi aí que começou o negócio”, relata.

O grupo se multiplicou, chegando a incríveis 380 pessoas, um número que colocava em extrema desvantagem os pescadores, estimados em  30 pessoas. A guerra fluvial aconteceu em uma área que divide o Lago do Italiano e o Tilheiro, quando um grupo de pescadores que voltava de Manaus revidou ao ataque dos agricultores.

Normas, acordos e insucesso

Sete anos atrás, as Prefeituras de Manaquiri e do Careiro Castanho firmaram um acordo de pesca delimitando as áreas permitidas e proibidas para pesca comercial no Lago do Janauacá. Mas foi a Instrução Normativa assinada pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SDS) de 2008 que procurou dar um ordenamento na pesca devido aos conflitos.

Os agricultor Francisco Souza de Oliveira, 50, desacredita na efetividade da medida. Segundo ele, mesmo com a redução de estoques de peixes nas áreas preservadas, os pescadores (a maioria deles vindos de outros municípios) continuam ultrapassando o limite. Ele também tem receio diante dos “aproveitadores” que participam da Festa do Mapará, evento anual marcado para começar no próximo dia 16, no Lago do Janauacá.

“Nunca tivemos um ano em que pudéssemos dizer: ‘agora estamos despreocupados’”, conta Francisco, cujo pai, Jaime de Oliveira, participou da “Guerra do Peixe”. Oito anos atrás, Francisco também se envolveu em uma briga com pescadores e foi atingido por uma terçadada no peito.