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Amazônia
EXTINÇÃO

Sauim-de-coleira: medidas urgentes são necessárias para salvar a espécie ameaçada

O animal ainda é encontrado em Manaus, nos municípios de Rio Preto da Eva e Itacoatiara, mas segue criticamente ameaçado de extinção 23/10/2017 às 23:55 - Atualizado em 24/10/2017 às 09:33
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Risco de desaparecimento é real, alertam especialistas. Foto: Márcio Silva
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Símbolo da identidade ecológica de Manaus, o sauim-de-coleira (Saguinus bicolor) é uma espécie considerada “Criticamente Ameaçada de Extinção” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), desde 2003, num estágio que é o último antes do total desaparecimento. A principal causa dessa que pode ser uma das maiores tragédias ambientais de todos os tempos na Amazônia é a perda do seu hábitat, provocada pelo crescimento desordenado da Região Metropolitana de Manaus.

Atualmente, a rara espécie ainda é encontrada na capital amazonense e nos municípios de Rio Preto da Eva (a 57 quilômetros de Manaus) e Itacoatiara (a 110 km da capital). Na contramão da ineficaz atuação do poder público para preservar o animal, entidades e pesquisadores dão exemplos de alerta na luta pela vida do primata. Mas também demonstram muita preocupação.

Para a bióloga Rita Mesquita, membro-fundadora do Movimento Ficha Verde, que atua em prol de ações para preservar a espécie, neste dia do aniversário de 348 anos de Manaus não há nada a se comemorar em relação ao sauim-de-coleira.

“Até o momento não temos razão para achar que há progressos na preservação do sauim. Ainda dá tempo de se fazer alguma coisa pois não perdemos a espécie ainda, mas as ações para preservar o sauim estão demorando, e do jeito que está Manaus vai acabar sendo conhecida como a primeira cidade que extingiu uma espécie de macaco no mundo. Se não reverter a situação agora será pra sempre. São preciso ações práticas, e não apenas grupos de trabalho”, declarou a especialista em recuperação de áreas degradadas, pesquisadora e coordenadora de Extensão do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Ela se refere a uma portaria, assinada pelo secretário municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade, Antonio Nelson de Oliveira Júnior, oficializa a criação de um grupo de trabalho interinstitucional, formado por representantes de organizações governamentais e não-governamentais, com o objetivo de elaborar proposta visando subsidiar a criação do Corredor Ecológico do Sauim de Manaus, bem como definir critérios técnicos para o Termo de Referência para elaboração do Plano de Gestão do novo espaço.

“O que o movimento fez foi fortalecer o trabalho que já vinha sendo feito pelo Plano de ação Nacional do Sauim (Pan-Sauimn), que é grupo de técnicos coordenado pelo ICmbio. Dentre as várias ações a mais importante é a criação dos corredores ecológicos dentro das áreas urbanas de Manaus. Nos juntamos a esse trabalho para chamar atenção para a preservação da espécie ajudando a terminar o relatório técnico com a proposta de criação do Corredor do Sauim. A proposta foi entregue ao secretário municipal de Meio Ambiente no final de 2015, mas até hoje estamos esperando uma posição. O que vemos é um prefeito pouco ativo na questão ambiental. Está na hora dele marcar um gol. O corredor é o mesmo que elaboramos, e estamos chegtando ao final de 2017 e quanto mais o tempo passa a floresta vai caindo na cidade e a corredor vai ficando comprometido. Temos pressa”, declara a pesquisadora.

Construções

As construções em áreas verdes dentro da capital também são outro grande problema que prejudica a preservação do sauim, conforme explica a ambientalista Erika Schloemp. “A prefeitura precisa parar de licenciar obras de postos de gasolina, shoppings, supermercados e qualquer outro estabelecimento em áreas em que reside a espécie, cada nova construção representa a perda de mais animais”, afirma ela.

O analista ambiental Diogo Lagroteria, do Cepam/ICMBio, comentou que é preciso manter o otimismo, mas que ao mesmo tempo fica um pouco preocupado porque por mais que muitas medidas positivas sejam tomadas, a velocidade das ameaças ainda é maior.

“Estamos no prejuízo e é preciso juntar os esforços e pensar em medidas eficazes, e o mais importante é que o Estado, Município e União falem a mesma língua para manter cidades e parques arborizados e as áreas de preservação permanente e, por tabela, trazer conseqüências positivas para a sociedade. Se pudermos nos fazer entender podemos tentar salvar o sauim”, diz ele. Sobre o corredor ecológico, Lagroteria conta que ele é um ponto muito importante, mas que “precisa ser replicado num modelo de desenvolvimento para trazer benefício; tem que sair do papel”.

Projeto social

Uma ação conscientizadora é a campanha “Salve o Sauim” é um movimento social, criado em 20 de outubro de 2015 pelos biólogos Maurício Noronha e Dayse Campista, em parceria com Ministério Público Federal (MPF), Ibama e Sociedade Brasileira de Zoológicos e Aquários do Brasil. No momento a atuação é mobilizar a sociedade para que o poder publico crie uma unidade de conservação para o sauim. Há, de acordo com o movimento, de 35.000 a 40.000 sauins ainda na natureza.

Perdendo espaço

O sauim vem perdendo cada vez mais espaço, devido a derrubada das áreas verdes pelas invasões na periferia de Manaus, pelos empreendimentos habitacionais e empresariais. O resultado, é a morte dos animais, principalmente, atropelados por veículos, ou eletrocutados nos fios de energia elétrica.