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Série relata a trajetória de ribeirinhos extrativistas contra a grilagem e desmatamento no AM

Publicações produzidas pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil  trazem a história de luta de populações ribeirinhas e extrativistas contra a grilagem de terra, o desmatamento, a violência e a escravidão 27/08/2012 às 19:19
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Detalhe da capa de “Memorial da luta pela Reserva Extrativista do Ituxi em Lábrea - Am”,publicado pelo IEB
Elaíze Farias Manaus

Se você procura um bom roteiro, sem as tintas do exotismo, para contar a história de luta de populações ribeirinhas e extrativistas contra a grilagem de terra, o desmatamento, a violência e a escravidão, um bom indicador é a criação da Reserva Extrativista do Ituxi, no município de Lábrea (a 702 quilômetros de Manaus), no sul do Amazonas.

A trajetória dessa batalha iniciada nos anos 90 é narrada pelos próprios protagonistas e moradores da Resex na publicação produzida pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e que faz parte da série lançada na semana passada, em Manaus. A publicação faz parte de uma série que pode ser acessada pela internet, pelo site do IEB, http://www.iieb.org.br

O livro é o registro de uma luta extremamente dura. Ele relata a mobilização dos os ribeirinhos e os extrativistas contra não apenas grileiros de terras, mas políticos acostumados com o clientelismo, o gestor público municipal e estadual, a burocracia, a morosidade e a campanha econômica e ideológica contrária à criação da Resex. 

A publicação traz também a história de liderança do Pastor Antônio Vasconcelos, neto de cearense e de uma índia da etnia Jamamadi, que ainda até hoje perseguido por grileiros e cuja vida corre risco a ponto dele receber escolta da Força de Segurança Nacional desde o ano passado.

Grilagem
Não é raro se emocionar com o relato dos ribeirinhos e extrativistas na publicação e com a sua resistência contra o avanço da grilagem. A publicação, aliás, é um ótimo parâmetro para o leitor compreender o contexto da grilagem de terra que persiste até hoje no sul do Amazonas, divisa com Rondônia e Acre. “Em meados dos anos 1990, começaram a surgir na região do Ituxi os grileiros, a partir do sul de Lábrea, desde Boca do Acre e de Rondônia. Em comum, todos eles diziam: ‘o Ituxi vai ser nosso´. (...)”, diz trecho da publicação.

A história Resex vai desde a invasão de suas áreas por grandes fazendeiros e o apoio que este recebia de políticos locais até o início do processo de resistência que deu início à iniciativa de criação da Resex, proposta no ano de 2000. Somente em junho 2008, e não sem inúmeras dificuldades, que a área foi considerada protegida.

Neste longo processo, deu-se início à mobilização coletiva que resultou na criação da Associação dos Produtores Agroextrativistas da Assembleia de Deus do Rio Ituxi (Apadrit) e outras entidades representativas. 

Mas este é um roteiro ainda sem final. Apesar de protegida, a Resex permanece alvo de grileiros, os políticos continuam fazendo vista grossa às ameaças contra os extrativistas e as iniciativas pedindo a redução da área não são poucas. 

Ainda assim, a luta dos ribeirinhos e extrativistas está fortalecida. A Resex impediu a derrubada de floresta e a atividade de caça praticamente acabou. Os moradores investem hoje em conservação de quelônios, proteção de tabuleiros e boas práticas agrícolas.

Trecho do livro
“Quando soube dessa história (da invasão de grileiros), peguei um avião e fui a Rio Branco. Eu estava almoçando num restaurante do aeroporto de Rio Branco (AC) e numa mesa ao lado tinha um grupo de grileiros almoçando. Um deles dizia: ‘rapaz, descobri umas terras boas lá no rio Ituxi e já tá tudo demarcado’. Um outro perguntou: ‘e tem gente morando lá?’. O outro respondeu: ‘tem, tem sim. Tem pessoas e comunidades, mas acontece o seguinte...daqui a três anos, rapaz, essas pessoas serão nossos trabalhadores...’. Eu tava almoçando, perdi a forma e a vontade de almoçar [...] Peguei um avião, fui direto pra Manaus. Formalizei um documento e enviei para Brasília” (Pastor Antônio Vasconcelos, comunidade Nova Vitória, em trecho da publicação)

Série
A série do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) é composta por outras quatro publicações cujo conteúdo segue a mesma linha editorial de trajetória de luta das comunidades.

“Memorial da Luta pela Reserva Extrativista do Médio Purus em Lábrea-AM” conta a história de um grupo de ribeirinhos que saiu do seu isolamento em busca de seus direitos como cidadãos em meio aos inúmeros conflitos na região.

“Organização Social na Amazônia - Uma experiência de associativismo na RDS do Rio Madeira (Novo Aripuanã e Manicoré/AM)” é um registro de como um processo de organização social de base comunitária na Amazônia pode ocorrer na prática e nas condições reais das comunidades da floresta.

“Organização da Produção na Amazônia: a experiência de comercialização coletiva da castanha em Manicoré” conta a história de luta e resistência de quase dez anos que deu origem à cooperativa, uma das experiências mais interessantes de empoderamento econômico dos povos e comunidades tradicionais da Amazônia.

“Pamine, o renascer da Floresta – Reflorestamento da Terra Indígena Paiterey Karah (TI Sete de Setembro) pelo povo Paiter Suruí” conta o sonho do povo indígena Paiter Suruí em devolver à floresta o que dela foi tirado. Descreve passo a passo o processo desenvolvido pelos Paiter para realizar o reflorestamento de suas terras.

A obra mostra ainda o árduo trabalho que envolveu toda a comunidade, o plano estratégico de 50 anos para conservação, proteção e sustentabilidade da TI Sete de Setembro, e ainda o projeto Carbono-Suruí.