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Sofrimento em cativeiro: animais silvestres são criados como domésticos no AM

Ibama recebeu mais de 800 animais criados de forma ilegal só neste ano. As espécies com maior número de apreensões são quelônios, papagaios e periquitos, primatas 04/12/2012 às 07:57
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Primatas estão entre os animais mais procurados por criadores ilegais
Elaíze Farias Manaus

Vários animais silvestres são  retirados ilegalmente do ambiente natural deles em Manaus e  sofrem com maus tratos e violência física e psicológica. O analista ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Diogo Faria, diz que a maior parte dos casos não chega ao conhecimento das autoridades.

Neste ano, o Ibama recebeu em seu Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), 830 animais entre aves, mamíferos, répteis e peixes. Segundo Diogo o número é “ligeiramente maior” do que em anos anteriores. Ele conta que a maior diferença é na proporção de apreensões, que aumentou bastante. Conforme Diogo Faria, 70% dos animais são de apreensão, 25% entrega espontânea e 5% de resgate.

“Infelizmente em Manaus,  muitos animais, principalmente macacos, papagaios, araras e periquitos, são mantidos como animais de estimação. As pessoas esquecem que eles  nunca terão uma vida plena e feliz, pois estão afastados dos outros animais e perdem sua função ecológica, como dispersão de sementes, equilíbrio da cadeia alimentar e controle de vetores de doenças”, explicou.

As espécies com maior número de apreensões são quelônios, papagaios e periquitos, primatas. E os com maior número de resgate são preguiças, serpentes e jacarés. “Muitos chegam aqui em situações extremas, ainda filhotes e demandam mais trabalho. Outros chegam muito doentes e dificilmente se recuperam. Pelo menos 50% chegam em condições de maus-tratos. Estressados todos chegam. Estresse em animais silvestres é caso sério. Muitos morrem”, diz.

Uma das apreensões mais recentes e preocupantes aconteceu em outubro passado, quando o Ibama apreendeu um macaco cairara adulto. Segundo Faria, o animal era mantido em uma gaiola 35x48x46cm, totalmente enferrujada. Ele conta que os danos que o macaco sofreu em função de sua retirada da natureza e manutenção inadequada são irreversíveis.

O primata apresenta deficiência física e nutricional. O animal viverá o resto da vida em cativeiro e, quando tiver em condições, será enviado para um zoológico ou criador. Na próxima semana, ele passará por uma sessão de fisioterapia. Será anestesiado para que sua coluna passe por tratamento.

“Não bastasse privar esses animais do convívio com seus pares e de desempenhar suas funções ecológicas, alguns são subjugados, mantidos presos com cordas ou correntes. Outros são espancados ou feridos com baladeiras. E ainda casos em que os animais apresentam deficiência nutricional ou mesmo doenças em função de alimentação inadequada”, disse.

Risco de transmissão

Um risco que muitas pessoas que mantém animais silvestres em casa é a transmissão de doenças graves, as  zoonoses.

O analista do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, Diogo Faria, cita a tuberculose, raiva, clamidiose, meningite, pneumonia e conjuntivite no leque de possibilidades. Algumas doenças inclusive não são nem conhecidas direito e o tratamento é muito difícil, já que se conhece muito pouco sobre as doenças dos animais silvestres.

A multa para quem tem um animal silvestre em casa sem autorização pode chegar a R$ 5 mil por indivíduo. No caso de maus-tratos, presente em quase todos os casos já que o simples fato de privar os animais de viver em liberdade já pode ser considerado maus-tratos é de mais R$ 3 mil.

No caso de asas cortadas, amputadas, macacos amarrados, além de situações como animais sem água ou comida ou mantidos em gaiolas pequenas, a situação do infrator se complica ainda mais.