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Terras perdem duas toneladas de ouro por mês

Frente da Funai estima que há 100 pontos de garimpo ilegal na TI Yanomami e mais de 800 pessoas trabalhando nas áreas 02/11/2012 às 17:19
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Nos dias comuns, se alimentam da caça em grupos, sentados em banquinhos de madeira, e conversam muito
Elaíze Farias Aldeia Watoriki, Barcelos (AM)

O rico subsolo da terra indígena yanomami atrai garimpeiros ilegais há várias décadas, mas sua maior concentração aconteceu no final dos anos 80. Davi Kopenawa atribui a corrida do ouro a terra yanomami ao incentivo dado pelo governo do então presidente José Sarney (1985-1990) e, principalmente, para o presidente da Funai da época, Romero Jucá (hoje senador pelo PMDB).

A tragédia que quase abateu seu povo está sempre viva na mente de Davi, que teme a repetição daquele drama. “Foram eles que derramaram o garimpeiro na terra yanomami. O Romero Jucá empurrou 40 mil garimpeiros na maloca Papiú, autorizando eles. Trouxeram avião, helicóptero. Os parentes começaram a pegar malária, tuberculose, doença venérea. O homem branco tem sangue contaminado”, lembra Davi.

Após a homologação da terra indígena, em 1992, no governo de Fernando Collor, depois de muita pressão internacional e até da Organização das Nações Unidas (ONU), a presença de garimpeiros reduziu, mas uma nova onda ganhou forças nos últimos anos.

Câncer

Mas, diferente dos primeiros garimpeiros, os atuais são homens e mulheres que trabalham para grandes empresas, muitas deles ligadas ao narcotráfico, que nunca se abatem financeiramente com as operações pontuais na região para desativar garimpo ou destruir pistas de avião.

O chefe da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e Yekuana da Fundação Nacional do Índio (Funai), João Catalano, calcula que, mensalmente, são retiradas duas toneladas de ouro da terra dos yanomami.

João Catalano estima que atualmente 800 pessoas trabalham em pelo menos 100 pontos de garimpo na terra yanomami, tanto do lado de Roraima quanto no Amazonas, concentrando-se sobretudo nas calhas e nascentes dos rios, diferente de antes, quando eles atuavam mais nas serras e grotões.

“As crianças estão doentes e morrendo. Há casos de diarréias, de câncer de garganta e insuficiência renal”, contou.

O ponto considerado mais rico está localizado na calha da Serra Parima, próxima da Serra do Surucucu, fronteira com a Venezuela. Já o ouro considerado mais “puro”, segundo Catalano, está na região de Maturacá, terra dos yanomami sobreposta pelo Parque Nacional do Pico da Neblina, no Estado do Amazonas.

“Antes da demarcação, o Romero Jucá liberou o garimpo na área. Depois, houve uma operação da Polícia Federal e do Exército que retirou mais de 20 mil garimpeiros. Houve um esfriamento, mas em 2000 recomeçou a pressão. A Polícia Federal falava que não tinha. Quando a Frente de Proteção Yanomami foi criada começamos a implementar as ações”, diz.


Impactos se espalham

Segundo Catalano, o garimpo se intensificou devido à alta do ouro no mercado internacional. “Cinco anos atrás, o grama custava R$ 40. Hoje, está R$ 122. Quem financia o garimpo são os mesmos que financiam o narcotráfico. Existe uma rede de aliciamento em Roraima, no Amazonas e no Nordeste. Os caras vêm no canto da sereia e são jogados no mato”, comentou.

Os impactos ambientais causados pelo garimpo ilegal vão além da terra dos yanomami. Eles se alastram pelas correntezas dos afluentes e chegam até o rio Branco, que faz parte da bacia do rio Negro, no Amazonas. O mercúrio e o material pesado usado na extração do ouro jorram da nascente se espalham para muito mais longe.

“As crianças estão doentes e morrendo. Há casos de diarréias, de câncer de garganta e insuficiência renal”, contou.

Catástrofe

Desde que a Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami/Funai em Roraima entrou em atividade, em 2011, a Funai aumentou a fiscalização, mas Catalano admite que ações pontuais não são suficientes. Mais importante, segundo ele, é prender os financiadores do garimpo e este papel é da Polícia Federal.

Nos últimos dois anos, João Catalano diz que operação da Funai com a Polícia Federal explodiu 42 balsas, desativou 42 pistas de avião e retirou 200 garimpeiros da terra yanomami. Mas as empresas que financiam a atividade, cheia de posses, conseguem reconstruir em outras áreas.

Há duas semanas, durante o vôo que o levaria até a aldeia Watoriki, onde participaram da assembleia, Catalano e outros funcionários da Funai conseguiram identificar pelo menos 10 novas pistas clandestinas em funcionamento.

“As empresas que financiam os garimpos se reorganizam muito rápido. Uma balsa fatura três quilos de ouro durante um mês de trabalho. Tem muita gente que tem dez balsas”, diz.

Os impactos ambientais causados pelo garimpo ilegal vão além da terra dos yanomami. Eles se alastram pelas correntezas dos afluentes e chegam até o rio Branco, que faz parte da bacia do rio Negro, no Amazonas. O mercúrio e o material pesado usado na extração do ouro jorram da nascente se espalham para muito mais longe. “Essa contaminação pode chegar até a sua cidade, Manaus, porque o rio Negro também é afetado”, alertou Catalano.

Para o coordenador da Frente da Funai, a regularização da mineração em terra yanomami vai ser “uma catástrofe” para a população.

“Vinte por cento da população yanomami morreu por causa da invasão garimpeiro. Comunidades inteiras sumiram. Isso vai acontecer de novo se liberar o maquinário (regulamentar o minério). Há comunidade que não fala uma palavra em português. Como que se vai discutir projeto de mineração com essas pessoas? A opinião delas nem vão ser levadas em consideração”, alertou.