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Amazônia
DIA DO ÍNDIO

Trabalho, jogo de cintura e proposta de união marcam data de indígenas no Amazonas

Trabalhando e mostrando seu talento, enfrentando as dificuldades impostas pela civilização e propondo a união entre povos; estas foram algumas das maneiras com que parte dos indígenas passaram a data que homenageia eles 20/04/2016 às 01:45 - Atualizado em 20/04/2016 às 10:15
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O dessana Miguel Lana, que é artesão e passou o dia dedicado a ele trabalhando com pintura corporal / Foto: Aguilar Abecassis
Paulo André Nunes Manaus (AM)

O Dia do Índio (19) foi marcado por uma constatação que já vem de outros anos anteriores: há mais lamentos e súplicas do que conquistas por parte dos “primeiros donos da terra brasilis”. Do choque cultural que sofrem após sair das suas aldeias e entrarem em contato com a civilização, passando pela dificuldade da auto-afirmação até em locais tão miscigenados como a própria capital Amazonas, as dificuldades desses guerreiros são as mesmas.

O artesão e guia turístico Miguel Lana, 52, é da etnia dessana e está há mais de 20 anos em Manaus. Ontem, em vez de comemorar, seu dia foi dedicado ao trabalho, ministrando uma oficina gratuita de pintura indígena e confecção de cestas com o trançado típico de seu povo no Centro Cultural Povos da Amazônia, dentro da programação em alusão à Semana do Índio organizada pela Secretaria de Estado da Cultura (SEC).

“Um dia como o do índio serve para tudo: para se comemorar, para organizar, ensinar e divulgar. Mas falta um pouco de tudo também, como apoio e reconhecimento para conosco indígenas”, disse ele, casado e pai de cinco filhos (entre eles uma menina). Ele ensina que sorrir é fundamental. “Sempre existem problemas na nossa vida, mas quando estou trabalhando eu vou pelo lado profissional. Por isso estou sempre sorridente. Sou assim”, ensina ele, que estimava pintar o rosto de cerca de 400 pessoas ontem no centro cultural.

As dificuldades não poupam nem o alto escalão das próprias lideranças indígenas da Região Norte, como o tucano Maximiliano Corrêa Menezes, presidente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Após fixar residência em Manaus por 2 anos, ele se viu obrigado a voltar para a sua terra natal, o Município de São Gabriel da Cachoeira (a  quilômetros de Manaus) porquê não suportou ter que tirar dinheiro do próprio bolso para custear despesas do órgão que preside.

“Eu trabalho como voluntário na Coiab, mas gastava meu dinheiro para comprar produtos de material de expediente como papel e outros. Tirava do próprio bolso. Mas também tinha que me sustentar. Depois de 2 anos decidi voltar para São Gabriel”, comentou ele, que além de dirigente é agricultor.

Indígenas como Domingos Ricardo, um dos coordenadores do Centra Cultural dos Povos Tikuna, localizado na Cidade de Deus, Zona Leste, prega a união entre todos os povos como um dos facilitadores para o bem indígena. O local abriga tikuna que vêm de outras localidades e também dá cursos, como de informática, para a comunidade em geral. “Aqui somos todos juntos para fortalecer esse trabalho. Não é só para indígenas ou não-indígenas: é para todos”, destaca ele.

Blog: Danielle Nazareno, produtora cultural e audiovisual em São Gabriel da Cachoeira

"Celebração, reflexão, confraternização. No municipio mais indígena do Brasil, aqui em São Gabriel da Cachoeira, não celebramos apenas o Dia do Índio, mas é comemorado como a Semana dos Povos Indígenas nas escolas, nos espaços públicos e nas rede sociais. Aliás, na Internet não se fala outra coisa que não seja sobre o Dia do Índio. A sua especificidade atrai pessoas adotando sua segunda pele, a identidade indígena. Eu admiro estudo, me identifico muito, por isso eu respeito. São seres humanos muito especiais".

Antropóloga destaca diversidade, barés e manaós

Apesar da banalização  com que é tratada a data, o Dia do Índio é importante para lembrarmos que o Amazonas possui a maior população indígena e a maior diversidade étnica e linguística do Brasil. A afirmação é da professora Arminda Mendonça, especialista em pós-Arqueológia Latu Sensu e Antropologia e mestre em Administração de Centros Culturais.

“O Dia do Índio ficou banalizado porque os índios urbanos já não mantém as tradições indígenas. Mas é importante que esse dia seja mantido e não servir apenas para que, nas escolas, se façam cocar de papel picado imitando uma pena. Há índios que tem doutorado, coisa que eu não tenho, e há também indígenas prefeitos e em outros cargos. Eles são brasileiros tanto quanto nós. Somos um país mestiço, um Estado mestiço e com cruzamento de diferentes etnias, pois a raça só há a humana”, ensina ela.

Arminda Mendonça lembra que o termo baré, muito utilizado em Manaus, vem da tribo de mesmo nome, que durante muitos anos foi considerada extinta, mas que hoje está na região do Alto Rio Negro. A mesma sorte, infelizmente, não tiveram os manaó, cujo nome fez surgir a cidade de Manaus.

Frase

“Sou apaixonada pela cultura indígena. Através da pintura eu posso sentir um pouco da arte deles", diz Valéria Ferreira,  paulista, que teve o rosto pintado na oficina de pintura do Centro Cultural Povos da Amazônia.

Em números

Ao todo, 240 pessoas formam a população indígena no Amazonas. A predominância é de tikuna segundo dados da Coiab. Só em Manaus moram aproximadamente 20 mil deles.