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Amazônia
ENTREVISTA

‘Vamos descobrir aquilo que a ciência ainda não conhece’

Entomólogo do Inpa é um dos pesquisadores envolvidos na expedição científica que vai desvendar os mistérios da Serra do Aracá, em Barcelos 04/06/2017 às 12:45 - Atualizado em 04/06/2017 às 15:10
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Márcio Oliveira é um dos pesquisadores envolvidos na expedição . (Foto: Marcio Silva)
Rebeca Mota Manaus (AM)

Uma expedição científica com participação de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) vai explorar uma das áreas com maior biodiversidade do País, a Serra do Aracá, localizada em Barcelos (a 405 quilômetros de Manaus). O grupo será formado por 25 cientistas, entre ecólogos, botânicos, geólogos e entomólogos.

“Descobrir novas coisas, espécies que ainda não vimos e que a ciência não conhece. O lugar possui belezas cênicas e  valor agregado”, é o que conta o pesquisador e entomólogo do INPA, Márcio Oliveira, um dos pesquisadores  envolvidos na expedição.

Em comemoração ao Dia do Meio Ambiente, entrevistamos o pesquisador Márcio Oliveira, que conta  os motivos da expedição para conhecer Aracá e de se investir em pesquisas científicas na Amazônia e em todo o Brasil.


Qual a possibilidade de encontrar novas espécies ainda não catalogadas na literatura?
Ano passado fizemos uma excursão com uma serra isolada e única na Amazônia, em Roraima na Serra da Mocidade, com ajuda do helicóptero do exército, essa não é uma serra tepui (em formato de mesa) como da Serra de Aracá, lá encontramos 52 insetos e 2 escorpiões novos que não eram descobertos pela ciência e esperamos encontrar a mesma quantidade na Serra Aracá, por ser um lugar único, isolado e com o valor relevantemente alto.

O governo assinou em 1992, na conversão de Biodiversidade, vários termos, um deles é direito de nós conhecermos nossa biodiversidade e nós não conhecemos. Os americanos, os alemães e os franceses já conhecem, até porque eles não têm muitas florestas. E nós temos uma floresta enorme, desconhecida, com pouco incentivo nas pesquisas e atrasados. 

Como é o planejamento para uma expedição como essa?
Bastante complicado. Nós vamos fazer um trajeto de barco de Manaus até Barcelos, chegando lá vamos pegar outro barco exclusivo com pesquisadores, depois ficaremos estacionados num afluente e iremos fazer um trecho de voadeira. Em seguida caminharemos e vamos subir com a ajuda de umas cordas que os garimpeiros deixaram e lá em cima vamos dormir em barracas, tudo leve devido à caminhada longa.

A equipe será só de pesquisa do INPA ou haverá profissionais de outros institutos?
São aproximadamente 20 pessoas no total. Vão pesquisadores do INPA, da Ufam e deve participar também um geólogo do Serviço Geológico do Brasil que quer colher informações sobre as rochas.

Quanto tempo vai demorar a expedição?
São 16 dias, sendo três dias para chegar ao topo da Serra, dez dias lá e mais três para voltar.

Por que o Parque Estadual Serra do Aracá foi escolhido?
Por dois motivos: pelas belezas cênicas e o valor agregado. Os brasileiros precisam conhecer este local. Então essa expedição vai ter duas finalidades:  a pesquisa e a outra o lazer. É um local de difícil acesso, então também queremos mostrar para o Amazonas e para o Brasil as belezas que tem no parque, uma das maiores cachoeiras do Brasil está lá. Para nós pesquisadores, a vantagem é descrever a biodiversidade que está lá.

Qual a importância de se investir em pesquisas científicas?
Fundamental para qualquer país que queira se desenvolver. Quase tudo que consumimos hoje vem dos americanos e dos coreanos, por serem países que investem em tecnologia. Veja o exemplo da Coreia do Sul, até 30 a 40 anos atrás o país era parecido com o Brasil, com mesmo nível de educação e do PIB, hoje é uma potência, pois investiu bastante em educação, ciência e tecnologia. Não adianta um país enorme como o nosso com clima favorável, com terras para plantar, peixes para pescar, se nós estamos atrasados. Temos exemplos de países que não têm terra para plantar, mas são riquíssimos, devido investirem em tecnologia. Não adianta ter riqueza e não saber fazer nada. O Brasil é rico em minério de ferro, possui uma das maiores jazidas de ferros, mas envia tudo para exterior, bauxita é a mesma coisa e depois compramos de fora, pois não sabemos produzir, por exemplo, enviamos a madeira, mas se enviássemos móveis ganharíamos muito mais.

O parque não tem infraestrutura, fiscalização e nem sequer placas indicativas. Qual a importância de conservar e proteger este local?
Há uma facilidade para entrar garimpeiros e biopiratas no local, fala que vai pescar, mas pega uma planta lá de dentro, faz um remédio e fica milionário. Então tem que proteger para que aquelas riquezas lá de dentro sejam revestidas em lucro para o país. 

Por ser um local de difícil acesso e pela precária situação do parque são poucas agências de turismo que vão até o local. Em sua opinião, o que as autoridades deveriam fazer para incentivar o turismo na região?
É arriscado levar famílias e pessoas de idade lá, pois não tem posto de saúde por perto, pouso de aeronaves, internet e nem sistema de cartão. No dia que as autoridades fomentarem tudo isso, que isso acontecer vai atrair pessoas do mundo todo. E o turista ecológico é o que investe mais dinheiro. Não adianta toda essa propaganda que o Amazonas tem potencial para o turismo. 

Nos anos 80 e 90 podia encontrar o mineral tantalita. Ainda é possível achar?
 Sim, existem pessoas que carregavam de 100 a 180 quilos da tantalita, agora é proibido, por ser um mineral muito valorizado no mercado, sendo importado por empresas que fabricam eletrônicos de telefonia de celular.

É possível explorar a Amazônia sem desmatar?
Certamente, o que pode fazer é usar as áreas já desmatadas para cultivo, agora a floresta tem que usada em pé, porque tirar você empobrece o solo, gera problemas de chuvas, de calor. O sábio é usar a floresta, jamais fazer o que faziam na década de 60 e 70.