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Interior
ARTIGO

O interior do Amazonas e a Conferência do Clima na Alemanha

"A bomba relógio da febre do ouro também está armada em São Paulo de Olivença (no Alto Solimões) e no garimpo interditado do Juma, no município de Manicoré. Ouro e pólvora caminham juntos na Amazônia" 09/11/2017 às 18:00
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*Antônio Ximenes *O autor é jornalista especializado em meio ambiente e desenvolvimento regional amazônico

O interior do Amazonas é a joia da coroa ambiental do planeta, quando se trata de floresta tropical úmida. Aproximadamente 97% da vegetação original da região está preservada. Os 61 municípios que formam a teia ambiental e humana desta parte da Amazônia Ocidental, são riquíssimos em biodiversidade,recursos humanos tradicionais e indígenas, bem como em reservas minerais. Mas muito pobres financeiramente. Para se ter uma noção básica,basta afirmar que em nenhum município do interior há hospitais de alta complexidade. Toda cirurgia mais complexa tem que ser feita em Manaus. 

Os dólares e euros dos Estados Unidos da América e da Europa, respectivamente, que aqui ingressam no Estado não são suficientes para o seu desenvolvimento sustentável pleno. Há exceções em 14 unidades de conservação estaduais, onde mais de 40 mil pessoas são beneficiadas com recursos da Coca Cola, do Fundo Amazônia, do Bradesco, através das ações do governo estadual e da Fundação Amazonas Sustentável. O mesmo se aplica a RDS de Mamirauá, no Médio Solimões, com o Instituto Mamirauá, que tem realizado um trabalho humano, científico e ambiental extraordinário ao longo de sua existência.

Fora essas ilhas de qualidade de vida para alguns ribeirinhos, o que se vê no restante do território gigantesco, são mais 1,5 milhões de quilômetros quadrados, é de penúria. Amaturá, por exemplo, na Calha do Alto Solimões, tem taxas de analfabetismo acima de 45% e de pobreza que não deixa nada a desejar ao Níger da África, o que é uma contradição absurda. 

Mesmo com essas deficiências, o prefeito de Amaturá Joaquim Corado buscou parceria com a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com o Ministério da Educação para resolver essas assimetrias, em uma das regiões mais ricas em biodiversidade do mundo. 

No Sul do Estado, Boca do Acre, Lábrea, Humaitá, Manicoré, Apuí, Novo Aripuanã, e Canutama, que formam o arco do fogo e do desmatamento, sofrem com ações de mando e controle da União. Raramente essas cidades recebem recursos federais com regularidade, para implantar suas ações de defesa da natureza e de empoderamento econômico de suas populações.

A crise de Humaitá desencadeada no dia 27 de outubro, com o incêndio das sedes dos órgãos públicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), pelos garimpeiros revoltados do rio Madeira - depois que tiveram suas balsas incendiadas pelas autoridades -, é apenas 'uma grama de ouro' das toneladas existentes no Amazonas Profundo. 

A bomba relógio da febre do ouro também está armada em São Paulo de Olivença (no Alto Solimões) e no garimpo interditado do Juma, no município de Manicoré. Ouro e pólvora caminham juntos na Amazônia. 

São Gabriel da Cachoeira, com suas mais de 22 etnias na Cabeça do Cachorro, sofre com a ausência de infra estrutura generalizada e não fosse a ação da 2a Brigada do Exército, que atua na região, e seus pelotões de fronteira, há muito tempo já estaria dominada pelo narcotráfico. Não por acaso, o rio Negro é a segunda rota de drogas do Amazonas. A primeira continua sendo a do rio Solimões.

O mesmo se pode afirmar sobre a tríplice fronteira de Brasil, Colômbia e Peru, no Alto Solimões. Tabatinga, Benjamin Constant e Atalaia do Norte são reféns da organização criminosa Família do Norte e dos cartéis do narcotráfico colombiano e peruano. O Vale do Javari, a segunda maior reserva indígena em extensão do Brasil, a primeira é da Cabeça do Cachorro, se transformou em um corredor de drogas. 

Com esse cenário, a Conferência do Clima (COP 23) que acontece em Bonn, na Alemanha, até o dia 17 de novembro, e que reúne mais de 197 países, precisa entender que proteção ambiental na Amazônia somente acontecerá de fato, quando as populações dos municípios do interior estiverem bem alimentadas, com saúde, educação e desenvolvimento econômico regional. O resto são boas intenções, o que não mantém o caboclo e os indígenas em pé.